A rodovia e a ferrovia gerida pelo Estado deve ser sempre o exemplo e a referência nacional. Nunca o parente pobre.

No entanto, tal não é o caso no Porto. Vejamos porquê:

Em primeiro lugar, qualquer um de nós, ao deslocar-se na Área Metropolitana do Porto de carro facilmente vai constatar e reconhecer um padrão:

  • Se a via rodoviária está bem mantida, possui sinalização vertical atualizada a e as marcações horizontais estão devidamente pintadas, é porque provavelmente é uma via rodoviária concessionada a privados (à Ascendi, Brisa ou Norte Litoral por exemplo);

Imagem 1 – Sinalização Vertical atualizada em via gerida pela Ascendi

  • Se a via rodoviária não está bem mantida, possui irregularidades no piso, tabuletas de sinalização dos anos 90 com sinais visíveis de desgaste e marcações horizontais já esbatidas ou mesmo apagadas em muitos pontos, é porque provavelmente é uma via rodoviária gerida pelo Estado através das Infraestruturas de Portugal.
    A título exemplificativo disto, a VCI, em 2025, não tem ainda a sua sinalização vertical atualizada, tendo no entanto classificações do século passado como IP1, IC1, IC23, IC24, IC29, em vez de adotar as classificações atualmente em vigor como é o caso da A1, A20, A44, A28. A41 e A43.

Imagens 2 e 3 – Sinalização vertical desconforme em via gerida pela Infraestruturas de Portugal onde, no espaço de poucos quilómetros, tem indicações de A1 e IC1

Imagem 4 – Sinalização vertical desatualizada relativamente ao IC1, que hoje em dia se encontra reclassificado como A28 (via gerida pela Infraestruturas de Portugal)

Um outro exemplo que pode ser apontado da gestão insuficiente da Infraestruturas de Portugal é sem dúvida a Circunvalação, via rodoviária essa também gerida pela Infraestruturas de Portugal.

Evidentemente, apesar de a Circunvalação estar inserida na malha urbana entre o Porto e os concelhos de Matosinhos, Maia e Gondomar, ela tem o perfil típico de uma qualquer estrada nacional em quase toda a sua extensão, faltando-lhe, como por exemplo, algo tão simples como passeios:

Imagem 5 – Circunvalação junto ao Norte Shopping, passeio dá lugar a via de socorro que é ocupada por carros estacionados diariamente

Assim, a Circunvalação é uma via que separa, que divide e que segrega os núcleos urbanos do Porto com os núcleos de Matosinhos, Maia e Gondomar.

Isto quando devia, e poderia ser uma via que cerzisse e desse continuidade a uma cidade do Porto que ultrapassa qualquer fronteira administrativa local definida no século XIX.

Efetivamente, existe um masterplan para reformular a Circunvalação, dotá-la de passeios, baías de estacionamento devidamente delimitadas e uma ciclovia para incentivar que cada vez mais pessoas troquem o seu automóvel por mobilidade suave, com a total segurança.

No entanto, este processo encontra-se parado desde 2015.

Imagem 6 – Renderização do masterplan da  Circunvalação

Em segundo lugar, a ferrovia:

Ora, qualquer um de nós que se desloque na Área Metropolitana do Porto de transportes públicos ferroviários vai constatar e reconhecer um outro padrão:

  • Se as estações estão limpas, sem graffiti, com o lixo devidamente recolhido e devidamente sinalizadas, é porque é uma estação gerida pelo Metro do Porto, uma entidade cuja gestão se encontra concessionada a privados;

Imagem 7 – Estação de Ramalde gerida pela Metro do Porto

Se as estações estão sujas, com graffiti datados de há vários anos atrás, com o lixo amontoado nos caixotes do lixo e com uma sinalização insuficiente ou inexistente, o leitor claramente acertou, é uma estação gerida pelo Estado através das Infraestruturas de Portugal.

Imagem 8 – Estação de São Gemil, da Linha de Leixões, gerida pela Infraestruturas de Portugal

A dicotomia na qualidade da gestão das infraestruturas em Portugal entre agentes privados e o Estado é gritante, quando tal nunca o devia ser.

Enfim, o Estado passou os últimos 25 anos a pensar que podia fazer coisas melhores que os agentes privados, desde computadores portáteis a aviões e rotas aéreas, tendo ignorado aquilo que é uma das suas funções essenciais: a construção e manutenção de infraestruturas para todos nós.

É cada vez mais urgente que, nos tempos que correm, o Estado se foque e se concentre nas infraestruturas e bens e serviços públicos onde a sua presença é essencial e determinante, não só para a qualidade de vida de todos os portugueses bem como para a nossa competitividade económica internacional.

Assim, e por exemplo, é cada vez mais urgente que a Ponte da Arrábida seja mais um monumento e não uma mera ponte rodoviária, onde os passeios possam ser utilizados de forma regular com as devidas medidas de segurança face ao fluxo rodoviário existente e onde os elevadores nos seus respetivos 4 pilares possam ser rentabilizados para que sejam uma ligação entre as cotas altas e baixas do Porto e de Vila Nova de Gaia bem como uma ligação entre as duas margens do rio.

Assim, e por exemplo, é cada vez mais urgente que o tabuleiro inferior da Ponte D. Luís tenha a mesma cadência de manutenção que o seu tabuleiro superior que é gerido pela Metro do Porto, S.A., onde os rebites enferrujados e os graffiti seja a exceção e não a regra.

Assim, e por exemplo, é cada vez mais urgente que a VCI não seja conhecida pelo seu trânsito constante, mas sim como a principal artéria da cidade. Para tal, ela precisa de funcionalidade e fluidez e, para tal, a Infraestruturas de Portugal tem que a dotar de sinalização horizontal estática, sinalização vertical estática, sinalização horizontal dinâmica e adequado dimensionamento das suas respetivas entradas e saídas em nome das centenas de milhares de portugueses que a usam.

Não porque a querem usar. Mas porque não têm mais nenhuma alternativa.

Mais uma vez, assim e, por exemplo, é cada vez mais urgente que a Circunvalação não seja uma divisória na cidade do Porto, hostil ao urbanismo mas sobretudo hostil às pessoas. A Circunvalação não pode ser mais uma estrada nacional que tenta desesperadamente ser uma Avenida. Cabe à Infraestruturas de Portugal mudar isto e dar seguimento a um masterplan que não tem evoluções há 10 anos.

Desta forma, urge dotar a Infraestruturas de Portugal com mais financiamento, mais autonomia mas também urge que sejamos muito, mas muito mais exigentes na sua atuação.

Ou, em alternativa, concessionar a gestão de muitas infraestruturas nacionais onde a Infraestruturas de Portugal não possua os meios nem os consiga obter em tempo útil para garantir a sua devida manutenção e gestão, sempre acautelando um caderno de encargos que tome em consideração o melhor interesse nacional.

As infraestruturas subjazem toda e qualquer atividade, de consumo, de lazer, de produção e de distribuição de todos nós, pessoas singulares ou coletivas.

Como podemos querer um país melhor, se tratamos desta forma as nossas Infraestruturas do Porto e as nossas Infraestruturas de Portugal?