O coração humano bate cerca de 100 mil vezes por dia, de forma tão natural que nem damos conta. Mas, quando esse compasso falha – batendo rápido demais, devagar demais ou de forma irregular – surgem as arritmias. Algumas são benignas e não têm impacto na saúde, outras podem levar a sintomas incapacitantes ou mesmo a complicações graves como o acidente vascular cerebral, a insuficiência cardíaca ou mesmo a morte súbita. A boa notícia? A arritmologia está a viver uma verdadeira revolução, combinando avanços na investigação médica, engenharia de ponta e tecnologia digital que permitem diagnosticar, tratar e acompanhar estes problemas de forma mais eficaz, segura e personalizada.
Durante anos, o tratamento invasivo para a fibrilhação auricular consistia na ablação – uma técnica que permite eliminar os tecidos que causam a arritmia – através da radiofrequência (calor) ou crioablação (frio). Recentemente surgiu um novo método: a ablação por eletroporação, também denominada de campo pulsado, que aplica impulsos elétricos de alta voltagem e curta duração que atingem apenas as células cardíacas responsáveis pela arritmia, preservando tecidos vizinhos como o esófago, as veias pulmonares ou nervos. É um procedimento mais rápido, eficiente e que permite aumentar a precisão e a segurança no tratamento da fibrilhação auricular.
A tecnologia de mapeamento eletroanatómico em 3D evoluiu de forma impressionante. Hoje, durante um procedimento de ablação para tratamento de arritmias, o médico consegue ver um “mapa elétrico” do coração em tempo real, identificando exatamente o local ou o circuito que origina a arritmia, permitindo um tratamento com grande precisão. Precisão essa que ainda pode ser melhorada quando se combinam os sistemas de mapeamento 3D com outros métodos de imagem cardíaca avançada (ecocardiografia intracardíaca, ressonância magnética e tomografia axial computorizada).
Tradicionalmente, o pacemaker precisa de um gerador sob a pele e de cabos que o ligam até ao coração através do sistema venoso. Hoje, existem pacemakers sem fios, que consistem numa pequena cápsula colocada diretamente dentro do coração. Sem cicatrizes visíveis e sem cabos, estes dispositivos oferecem maior conforto e menor limitação em determinadas atividades físicas.
Outra inovação importante é a estimulação do tecido de condução. Em vez de estimular o músculo cardíaco, esta técnica ativa diretamente as fibras elétricas naturais do coração. Em doentes com necessidade de estimulação cardíaca muito frequente este tipo de pacemaker permite um melhor desempenho cardíaco e menor risco de insuficiência cardíaca a longo prazo.
Para além disso, para quem tem risco elevado de morte súbita de causa arrítmica, os cardiodesfibrilhadores implantáveis são essenciais. A novidade é que agora há modelos totalmente posicionados fora dos vasos sanguíneos e do coração. Assim, evitam-se possíveis complicações como infeções, mantendo a capacidade de aplicar choques que salvam vidas quando necessário.
O acompanhamento de doentes portadores de dispositivos cardíacos mudou para melhor. Hoje, muitos dispositivos cardíacos comunicam com o médico à distância, enviando relatórios diários. Se algo não está bem – uma arritmia nova, um problema técnico, uma alteração na função cardíaca –, o alerta chega de imediato, permitindo agir atempadamente. Além de reforçar a segurança e a confiança, esta tecnologia elimina a necessidade de deslocações ao Hospital. É a chamada monitorização remota, que é quase como ter o médico “em casa” 24 horas por dia.
A revolução não se limita aos dispositivos médicos. Relógios inteligentes já conseguem registar o ritmo cardíaco e detetar arritmias, avisando o utilizador e, em alguns casos, partilhando os dados com profissionais de saúde.