Tenho uma doente que não consegue comer.
Não é falta de apetite.
Há uma doença oncológica avançada e uma massa que comprime o esófago por fora. Como uma mão que aperta com força um tubo elástico. Conseguiram passar uma sonda muito fina. O suficiente para dizer que há uma sonda. Não necessariamente o suficiente para alimentar verdadeiramente uma pessoa.
E agora não sei o que fazer com ela.
E esta talvez seja uma das situações mais difíceis para um médico.
Não porque achemos que temos de saber tudo. Essa ilusão desaparece relativamente cedo na carreira.
Mas porque há uma diferença entre não sabermos uma coisa e não sabermos o que fazer por uma pessoa.
Várias especialidades já fizeram a sua parte.
Umas ajudaram a chegar ao diagnóstico. Outras procuraram uma forma de ultrapassar um obstáculo quase intransponível. A Nutrição tenta fazer caber necessidades muito grandes numa via demasiado pequena.
Há ainda a Fisioterapia. A Terapia da Fala. Os enfermeiros, que entram naquele quarto muitas mais vezes por dia do que qualquer médico. Os auxiliares, que cuidam de tudo aquilo que raramente aparece nos relatórios clínicos, mas continua a ser necessário quando uma pessoa adoece.
Há um mundo inteiro à volta daquela mulher.
E, no meio de toda essa gente, estou eu.
A médica responsável por ela. A chamada “médica assistente”.
Peço avaliações. Procuro alternativas. Falo com colegas. Volto a olhar para os exames como se, à quinta ou sexta vez, pudesse aparecer uma solução escondida num canto da TAC em que ninguém tivesse reparado.
E o tempo passa.
Para mim, pode ser terça-feira.
Para aquela pessoa, pode ser um dos poucos dias que lhe restam.
Todos parecem ter alguma coisa concreta para fazer, enquanto a mim me resta o papel de “gestora”. E, na verdade, nem sempre sei exatamente como ou o que gerir.
Penso numa solução e encontro um problema.
Uma prótese? Talvez. Mas terá indicação? Será tecnicamente possível? E se migrar?
Uma gastrostomia? Talvez nem o dispositivo necessário consiga ultrapassar a obstrução.
Nutrição parentérica? Por quanto tempo? Com que objetivo?
Radioterapia? Quimioterapia? Imunoterapia? Alguma combinação possível? Será sequer candidata?
Cada resposta parece vir acompanhada de outra pergunta.
E depois há uma filha.
E, nas conversas que tivemos, nunca foi ela quem colocou a casa fora das possibilidades.
Com sonda.
Sem sonda.
A comer.
A morrer.
A existir.
Talvez sejamos nós, médicos, quem tem mais dificuldade em mandar alguém assim para casa.
Como se fosse obrigatório resolver primeiro aquilo que talvez não tenha solução para depois podermos dizer a alguém que pode ir embora.
Como se uma alta precisasse sempre de vir acompanhada de um tratamento, uma consulta, uma receita, uma data.
Talvez não.
Talvez um plano possa ser aliviar.
Cuidar.
Estar.
Ir para casa.
Talvez um plano possa até parecer uma ausência total de plano. Desde que seja uma ausência escolhida, conversada e compreendida.
Entretanto, eu espero.
E esta é uma frase perfeitamente normal num hospital.
Estamos sempre à espera de alguma coisa.
De um exame. De um resultado. De uma vaga. De um parecer. De uma decisão que precisa de várias pessoas antes de poder ser tomada.
O hospital é, em grande parte, uma gigantesca máquina de esperar.
Só que há qualquer coisa de profundamente inquietante na palavra esperar quando não sabemos quanto tempo tem a pessoa que está à espera.
Para o hospital, três dias podem parecer pouco. Para um doente, são três dias numa cama. Três dias longe de casa. Três dias à espera de saber se existe alguma coisa que valha a pena tentar.
É isso que me aflige.
Olho para aquela mulher e tenho a sensação de que lhe estou a roubar tempo. Porque o tempo dela não pode ficar suspenso até nós conseguirmos ter todas as respostas.
Há uma solidão particular em ser o médico responsável por um doente que precisa de muitos médicos. Podemos dividir tarefas. Pedir opiniões. Discutir decisões.
Mas alguém tem de juntar as peças.
Alguém tem de entrar no quarto todos os dias e explicar onde estamos. O que sabemos. O que ainda não sabemos. O que podemos tentar. E aquilo que talvez tenhamos de aceitar que não conseguimos resolver. Todos os dias. Mesmo quando não temos nada de novo para dizer. Mesmo quando a novidade continua a ser a ausência de novidades.
Neste momento, essa pessoa sou eu.
Talvez por isso a doente continue comigo depois de eu sair do hospital.
No carro, lembro-me de uma possibilidade.
Em casa, penso se me escapou alguma coisa.
Pego no telemóvel.
Pergunto a um colega.
«E se…?»
Há uma espécie de responsabilidade invisível na Medicina que ninguém nos explica quando entramos na faculdade. A sensação de que, enquanto existir uma hipótese em que ainda não pensámos, não temos autorização para descansar. Porque talvez haja uma porta que ainda não tentámos abrir.
E o medo não é apenas errar: é descobri-la tarde demais.
A filha continua disponível para levar a mãe para casa.
Com sonda.
Sem sonda.
A comer.
A morrer.
A existir.
E, enquanto ela está pronta para levar a mãe para casa, percebo que eu já a levei há muito.
Na cabeça.