Introdução

À primeira vista, parece que as sondagens voltaram a falhar nas eleições legislativas de 18 de maio de 2025. Mas será mesmo assim? Este artigo procura esclarecer como interpretar estes estudos de opinião, com base na última sondagem do CESOP – Universidade Católica Portuguesa (UCP), publicada pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC): Sondagem CESOP – Maio 2025.

Sem complicar com modelos estatísticos complexos e evitando fórmulas difíceis. Em vez disso, apresentamos uma redistribuição proporcional das intenções diretas de voto, excluindo abstenção e não respostas, considerando apenas os inquiridos que dizem ter a certeza de que vão votar.

Neste estudo da UCP, a taxa de resposta foi de apenas 24,81%, ou seja, mais de 75% recusaram participar. Foram contactadas 7018 pessoas, das quais apenas 1741 aceitaram participar e responderam ao questionário até ao fim. Das respostas obtidas, foram usadas apenas 1372 entrevistas na estimativa final.

A margem de erro correta deve ser calculada com base nas 1372 entrevistas válidas utilizadas na estimativa final, e não nas 1741 respostas totais. Para esse tamanho amostral, a margem de erro ronda os ±2,65%, com um intervalo de confiança de 95%.

Distribuição direta das intenções de voto (UCP) antes da redistribuição proporcional:

AD: 26%
PS: 20%
CH: 16%
IL: 5%
L: 2%
BE: 2%
PAN: 1%
Indecisos: 12%
Não vota: 3%
Não responde: 5%

Se considerarmos apenas os que afirmam que vão mesmo votar e disseram em quem, o cenário muda ligeiramente.

Estimativa proporcional vs. Estimativa da UCP

A AD vence em ambas as metodologias. A principal incerteza está no 2.º e 3.º lugares entre PS e CH. A margem de erro estimada é de 2,65%, o que coloca os resultados dentro do intervalo [mínimo; máximo] possível para cada partido. Por exemplo:

PS: [20,65%; 25,95%]
CH: [16,05%; 21,35%]

Por que há diferenças entre sondagens e resultados? Apresentamos cinco fatores que ajudam a perceber os desvios (a ordem não reflete prioridade):

Quem é contactado? A amostra baseou-se numa lista de números de telemóvel. Isto pode excluir pessoas mais idosas que usam apenas telefone fixo ou não utilizam telemóvel regularmente.

Desequilíbrio entre géneros: Apenas 44% das respostas vieram de mulheres, embora estas sejam maioria no eleitorado. Esta sub-representação pode enviesar os resultados.

Baixa taxa de resposta: Apenas 24,81% aceitaram participar — 1741 de 7018 contactados. Foram usadas apenas 1372 entrevistas. Isto pode gerar um viés de participação (os mais politizados respondem mais; os mais clubistas, menos).

Tratamento dos indecisos: A forma como os indecisos e nulos são redistribuídos afeta muito o resultado. A UCP utiliza modelos matemáticos cuja fórmula não é pública. A redistribuição proporcional é uma alternativa mais transparente.

Contexto político e recusa em declarar o voto: Muitos eleitores de partidos mais polémicos podem não declarar o voto. Alguns actores políticos desvalorizam ou até desprezam as sondagens conforme lhes convém. Essa atitude pode gerar nos seus simpatizantes — por uma espécie de “clubite” — uma resistência automática em participar. Nos EUA, esse fenómeno de “voto envergonhado” foi determinante na vitória de Donald Trump em 2016. Algo semelhante pode acontecer com partidos como o Chega.

Quantas pessoas seriam necessárias para uma amostra mais robusta??

Para uma margem de erro de 2,2% e 95% de confiança, seria necessário entrevistar cerca de 2000 pessoas, segundo a fórmula:

Onde:

  • Z = 1,96 (nível de confiança de 95%)
  • p = 0,5 (maior variabilidade possível)
  • E = 0,022 (margem de erro desejada)

Mas nem todas as entrevistas feitas e validadas contam. Assim, temos de considerar o erro com base em 1741 ou 1372 entrevistas?

Resposta curta: Devemos considerar 1372, porque é o número efetivo de respostas válidas incluídas na estimativa final.

Porquê?

  • As 1741 são todos os que completaram o inquérito, mas nem todos foram usados: alguns podem ter dito que não votavam, eram indecisos, ou responderam “não sei/não respondo”.
  • A estimativa publicada (com percentagens para AD, PS, CH, etc.) só usa as 1372 entrevistas úteis, após filtragem.
  • A margem de erro correta deve ser calculada com base nas 1372 entrevistas válidas utilizadas na estimativa final, e não nas 1741 respostas totais. Para esse tamanho amostral, a margem de erro ronda os ±2,65%, com um intervalo de confiança de 95%.

A fórmula para a margem de erro (E) é:

Assumindo:

  • Z = 1,96 (para 95% de confiança)
  • p = 0,5 (máxima variabilidade)
  • n = 1372 (número final de entrevistas utilizadas)

Conclusão

As sondagens não estiveram erradas, mas a sua leitura exige prudência. A metodologia, os pressupostos estatísticos, o tipo de redistribuição dos indecisos e a amostra usada afetam profundamente os resultados. Em vez de confiar cegamente ou rejeitar totalmente as sondagens, devemos analisá-las com espírito crítico e compreender os seus limites. As sondagens não são bolas de cristal.

Em resumo, talvez o problema não esteja nas sondagens… mas na forma como as lemos.

Anexo – Como foi feita a estimativa proporcional?
Passo 1 – Filtrar a amostra

Excluir todos os inquiridos que:

  • Não têm certeza de que vão votar;
  • Não respondem;
  • Dizem que vão abster-se.

Passo 2 – Agrupar por tipo de resposta

Classificar as respostas válidas:

  • Intenção de voto em partidos/coligações;
  • Branco/nulo;
  • Indecisos (que dizem que vão votar, mas não indicam partido).

Passo 3 – Separar votos válidos
Somente os que indicam partidos/coligações contam como votos válidos. Brancos/nulos não são considerados válidos para fins de cálculo.

Passo 4 – Calcular proporção dos válidos diretos
A soma das intenções diretas em partidos é: 26+20+16+5+2+2+1=72%

Queremos saber que percentagem do total dos votos válidos diretos corresponde a cada partido, para depois redistribuir os indecisos.

Passo 5 – Redistribuir proporcionalmente os indecisos (12%)


Nota: A redistribuição dos indecisos é feita apenas entre os partidos/coligações. Brancos/nulos são excluídos da estimativa final.

Este método visa imitar o apuramento oficial da Comissão Nacional de Eleições (CNE), respeitando os votos válidos, e torna os critérios mais transparentes para análise pública.