Estamos há muito habituados aos discursos pós-eleitorais. Todos ganham, nem que, para isso, tenham de recorrer à “morte” do inimigo. É uma manipulação compreensível, “it’s not personal, it’s strictly business”, como dizia Michael Corleone n’O Padrinho antes ou depois da carnificina. Mas nem sempre aquilo a que assistimos é boa ficção. Nestas eleições autárquicas, por exemplo, houve atropelos à realidade e pantominas que ultrapassaram largamente a pior das novelas mexicanas.

1975-2025: cinquenta anos a correr atrás do prejuízo

Como em quase todos os países europeus onde impera uma percepção de decadência, e mais ainda numa sociedade como a do Portugal da Terceira República, o jogo político é mais condicionado pelo inimigo a neutralizar do que pelo amigo a apoiar. O dualismo schmittiano (e, de certo modo, maquiavélico) impôs-se.

O fim do império ultramarino não significou o fim da independência nacional ou uma absorção peninsular, como alguns temiam; mas deixámos de ser um país importante – embora exótico e “isolado” – para passarmos a ser um país pouco importante – embora comum e acarinhado pela comunidade internacional. Passámos também, na política interna, a correr atrás do prejuízo. No PREC, uma larguíssima frente que ia da direita escapada às purgas do 28 de Setembro de 74 e do 11 de Março de 75 a Mário Soares, tratou de evitar o perigo comunista e esquerdista. Os comunistas, ao tempo, eram de obediência russa e, na altura, os interesses da URSS – que coincidiam com os do MFA – eram, sobretudo, garantir que a descolonização se fizesse a favor dos partidos pró-soviéticos. Assim, em 11 de Novembro, Angola passava directamente da soberania de Lisboa para a guerra civil – mais uma conquista de Abril, oferecida pela ex-metrópole aos ex-colonizados… e aos ex-colonos, que assim puderam “retornar”. Por isso, com a descolonização feita, o PCP deixou de resistir aos Comandos no 25 de Novembro, para desgosto de alguns militantes mais aguerridos e mais desatentos à geopolítica das cúpulas.

Os primeiros anos do regime foram, assim, passados na luta contra uma esquerda radical que não eram só os disciplinados comunistas pró-moscovitas, mas todo um folclore trotskista, maoista, anarquista.

A AD foi uma resistência centrista ao Partido Socialista, já que, em 75, Soares se tornara o protagonista do anticomunismo. O movimento popular concentrou-se então nos líderes da AD – o dissidente “liberal” da UN-ANP, Francisco de Sá Carneiro, e o ex-procurador à Câmara Corporativa do Estado Novo, Diogo Freitas do Amaral, a fazer por esquecer esse passado. A AD ganhou, mas Sá Carneiro, como Mário Soares, não tinha grandes afinidades electivas com Ramalho Eanes, eleito presidente em 1976, também a partir da imagem de coordenador militar do 25 de Novembro. Em 1980, Sá Carneiro morreu e Eanes voltou a ganhar as presidenciais.

Cavaco Silva, com o seu tecnocratismo não-ideológico, veio a ser o grande triunfador dos anos 80. Entretanto, para evitar “desvios” à esquerda ou à direita, Portugal tinha aderido à União Europeia, de que seria um bom aluno. Em todo este processo, os líderes dos partidos à direita do PS, para evitar rótulos que nunca conseguiriam evitar (por esse tempo eram eles os “fascistas”), tiveram o cuidado de riscar do ideário os valores pelos quais se regia grande parte do seu eleitorado, valores religiosos, patrióticos, identitários ou de costumes que pudessem de alguma forma evocar o Deus, Pátria e Família do Estado Novo.

Fizeram-no por medo e também por reverência perante a “esquerda antifascista”, que se tornara o árbitro das elegâncias e conveniências e que só permitia “a direita da Esquerda”, ou seja, uma direita que limitasse o seu direitismo à defesa moderada da economia liberal e do anticomunismo.

Mas os valores de sempre, os valores da direita nacional conservadora que os partidos da direita e os seus líderes começaram por calar e acabaram por esquecer, ao contrário do que lhes dizia a esquerda do alto da sua superioridade moral e intelectual, eram valores que podiam e deviam ser defendidos em Democracia, como na América de Reagan ou na Grã-Bretanha de Thatcher. Houve tentativas de mudar as coisas, como o CDS-PP de Manuel Monteiro, mas não duraram.

A mudança

Entretanto, o mundo mudou, e sucederam-se as reacções ao globalismo, à desindustrialização, ao regresso ao capitalismo selvagem no Ocidente e ao ideário hedonista de uma esquerda agora instalada nas instituições e convertida ao internacionalismo capitalista – e até a Bruxelas.

Em Portugal – que para o bem e para o mal quase sempre segue a Euro-América – um dissidente do PSD começou um partido nacional popular, aproveitando a rejeição generalizada do alheado compadrio político sistémico e das novas formas internacionalistas de esquerdismo radical.

Em poucos anos, o Chega implantou-se como partido de protesto, valendo-se do vazio à direita (o abandono dos princípios nacionais-conservadores ou nacionais-populares) e, até, à esquerda (a troca de vitais causas sociais e laborais por um urbano-decadente arco-íris de minorias).

E é à luz de todo este enquadramento que devemos ler os resultados das eleições autárquicas de Domingo, 12 de Outubro.

As delícias do comentariado

Nestes tempos de provação e recuo, a Esquerda, habituada à vitória há meio século, tende a refugiar-se em prémios de consolação e nas delícias do comentariado.

O que dizer destas eleições?

Que o Chega foi o grande derrotado, evidentemente. Comparando o resultado da “extrema-direita” nas legislativas de Maio com o resultado de agora, esquecendo a comparação entre os resultados das autárquicas de 2021 e estas de 2025, e atendendo às expectativas de Ventura de “varrer o país”, o Chega foi, de facto, o grande perdedor da noite. Só conseguiu três câmaras 134 vereadores e algum poder de desempate. Voto útil à direita? Parece que não houve. Afinal, o bipartidarismo está bem e recomenda-se. Ventura falou de mais; tal como Trump, que também se pôs a dizer que queria o prémio Nobel da Paz por dá cá aquele refém e depois não o conseguiu.

Que dizer da derrota da “Frente Popular” em Lisboa que foi praticamente um “empate técnico”, (33,95% vs 41, 69%)? E quanto à disputa por vereadores PCP-Chega… serão os boletins de voto que não tinham a opção Chega verdadeiramente nulos? No Porto também esteve tudo bastante empatado. Resumindo, o PSD perdeu Viseu e o Partido Socialista até se aguentou bem, vencendo em Loures (apesar da actuação do candidato, “ofensiva dos valores, cultura e identidade do partido”, segundo as forças vivas do mesmo que andam “entretidas lá na Europa”, ou por causa dela?) Ah, mas ainda há o Livre. O Livre subiu! E parece que já dá cartas no poder local. Em murchando o cravo, a papoila coliga muito bem.

Os números

O facto de as eleições autárquicas serem, fora das grandes cidades, eleições de proximidade – em que as afinidades ideológicas se esbatem perante o caciquismo tradicional, e onde, por isso, é mais difícil partidos novos entrarem –, torna frágil a comparação dos números das eleições autárquicas com as legislativas. Assim, comparando autárquicas:

O PPD/PSD, subiu de 32,25% para 34,6%

O PS desceu de 37,53% para 33,77%

O Chega subiu de 4,16% para 11,86%

O PCP/PEV desceu de 8,21% para 5,74%

A IL subiu de 1,3% para 1,59%

O CDS/PP desceu de 1,5% para 1,1%

O BE desceu de 2,75% para 0,56%

A conclusão

Pedro Nuno Santos, talvez para valorizar o “inimigo principal”, não deixou de notar que dizer que “houve uma retração do Chega” era “enfiar a cabeça na areia”; ou equivaleria a dizer que o PCP era o grande vencedor destas Autárquicas só porque tinha duplicado a votação em relação às últimas Legislativas. E concluía: “Não é negando a realidade no presente que a vamos alterar, no futuro.”.