No dia 18 de janeiro, os portugueses irão eleger o próximo Presidente da República. Com a campanha a terminar, e já decorridos todos os debates entre os candidatos, chegou a hora de refletir os seus perfis e aquilo que nos demonstraram até aqui.
Por razões pragmáticas e realistas, excluirei os candidatos que “não contam para o totobola” pelo simples facto das suas candidaturas não terem viabilidade real, concentrando-me tão-só nas candidaturas que poderão ganhar (ou, pelo menos, decidir o rumo do jogo).
Dessa sorte, esta análise cingir-se-á às candidaturas dos cinco candidatos empatados tecnicamente na corrida a Belém: André Ventura, António José Seguro, Gouveia e Melo, Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes. E tratando-se de eleições presidenciais, o foco estará apontado, apenas e só, sobre o perfil de cada um, e não sobre a ideologia ou o campo político de onde são oriundos.
Comecemos por Ventura, aquele que não quer – nem vai – ser eleito Presidente. É o candidato que menos surpreende: populista, demagogo, desordeiro, ordinário, boçal, e proliferador de discurso de ódio – o “atirador-de-lama-mor” do Reino. No entanto, todo o espectáculo protagonizado por Ventura nesta eleição, tem sido marcado por uma diferença substancial, e que poderá abrir um precedente interessante: já ninguém lhe liga.
Primeiro, porque toda a gente sabe que ele não quer ser Presidente. Segundo, porque todos sabem que ele não tem hipótese real de o ser, uma vez que mesmo que passe à segunda volta, perderia até se concorresse sozinho contra Manuel João Vieira. E em terceiro lugar, porque está brutalmente desgastado, num loop confrangedor de repetição de banalidades, de lugares comuns e de frases feitas, que já não movem moinhos mesmo nas águas de alguns dos seus eleitores.
É certo que os seus assessores lhe devem ter dito que concorrer a todas as eleições faria com que tivesse um tempo de antena incomparavelmente superior aos dos líderes dos outros partidos – o que, indiscutivelmente, é verdade. O que não pensaram (ou não lhe disseram) é que essa exposição constante tem um custo: o desgaste da persona que passa o tempo a gritar, a interromper e a bater com a mão no peito. De facto, ir a todas as eleições é uma estratégia eficaz para aparecer, mas tem um preço a pagar: os portugueses – mesmo aqueles que votaram nele nas eleições anteriores – já estão cansados do mesmo discurso repetitivo. A cassete do CHEGA está a ficar tão ou mais riscada que a do PCP, e está a deixar passar uma verdade em tempos levantada por Francisco Rodrigues dos Santos: a de que um batalhão de cavalaria à desfilada na cabeça de Ventura, não esbarra, de facto, contra uma única ideia.
Depois de excluirmos Ventura sobram-nos dois grupos de candidatos: os candidatos de perfil – aqueles que representam o oposto de Ventura, e que representam o centro, a moderação e a elevação do discurso e do debate; e os candidatos do ruído – os que tentam imitar Ventura no estilo, na forma, no discurso, e nos vícios. Comecemos por estes últimos.
Cotrim de Figueiredo surpreende, mas desilude. Surpreende porque começou esta corrida eleitoral como candidato da “segunda liga”, e conseguiu sustentadamente aproximar-se dos primeiros lugares, tornando-se num forte candidato à segunda volta. Mas desilude, porque ao invés de aproveitar esse crescimento para se apresentar como uma real alternativa a Marques Mendes, optou por adotar uma postura desadequada, arrogante, combativa e demagoga, desempenhando o papel de “Ventura envergonhado” nos debates, protagonizando ataques pessoais, e demonstrando um discurso indelicado no estilo, na forma e nas interrupções. Protagonizando, ainda, um dos momentos mais rasteiros destas presidenciais, com a insinuação – por provar – de que a candidatura de Marques Mendes o tinha pressionado para desistir.
De início, Cotrim apostou em atrair os eleitores da direita tradicional, elogiando e colando-se tanto a Sá Carneiro, como a Passos Coelho, e colocando-se a favor da reforma da lei laboral e da promulgação da lei da nacionalidade – episódio que lhe custou um dos momentos mais constrangedores na história dos debates presidenciais, contra Seguro. Estratégias legítimas para conquistar o voto de centro de direita. Porém, de seguida, para além de mimetizar o estilo e a forma de Ventura, Cotrim de Figueiredo decide – com o estilo do cota que quer ser cool – seduzir a todo o custo o eleitorado jovem, nomeadamente dos jovens do CHEGA, tal como já admitiu. Escusavamos, contudo, de ser obrigados a saber que é fã de Tiago Paiva, ou que foi utilizador do Tinder. Caso existissem dúvidas, Cotrim fez questão de nos demonstrar que não tem o perfil e a seriedade para Belém. Ainda assim, estou convicto que vale muito mais do que tem demonstrado.
Quanto a Gouveia e Melo, só se desiludiu quem se tivesse iludido pela sua figura. Desde o início dos rumores da sua candidatura a Belém que fui um crítico convicto do Almirante. Primeiramente por princípio: o lugar dos militares não é na política, e muito menos em Belém. Em segundo lugar, porque não se lhe conhecia uma única ideia, uma única convicção e não se lhe conseguia adivinhar sequer uma linha ideológica – já se percebeu que, por e simplesmente, por não existir. E em terceiro lugar, por nunca se ter percebido bem qual o mérito estratosférico que teve no processo logístico de vacinação.
Na altura em que Gouveia e Melo surgia como o favorito, sempre defendi que isso só iria acontecer até ao momento em que começasse a abrir a boca. Começou a ver-se esse efeito na desastrosa apresentação da sua candidatura, mas provou-se nas prestações medíocres e sofríveis que teve nos debates. O ex-Almirante conseguiu perder todos os debates em que participou, demonstrando até uma certa dificuldade em conseguir articular dez palavras de seguida. É certo, que já se sabia que a sua experiência política era nula, mas ficou-se ainda a saber que não sabe nada sobre coisa nenhuma, não tem ideias para o país, e que se encontra absolutamente impreparado para desempenhar o cargo. Como se tudo isto não bastasse, Gouveia e Melo provou ainda ser pior do que Ventura. Porque de Ventura, bem ou mal, já sabemos com o que contamos. Mas de alguém que sempre se apresentou como um candidato sério e sem os “vícios das politiquices”, o antigo Almirante provou estar extremamente à vontade na lama.
O debate que protagonizou contra Marques Mendes, foi outro dos momentos mais ignóbeis nesta corrida presidencial. O ataque ad hominem, e as insinuações de que Marques Mendes seria um facilitador e um traficante de influências, foram contraproducentes e contribuíram para desmascarar Melo. Provou que é apenas mais um populista, sem ideias e sem perfil. Mais um candidato de ruído, ainda para mais, o candidato predileto de Ventura – como se sabe. Felizmente, o Almirante vai mesmo ficar a ver navios…
Por fim, restam-nos os candidatos com perfil presidencial. Por um lado, Luís Marques Mendes, que se apresentou com um perfil moderado, previsível e experiente. Tem, aliás – e um pouco mais que Seguro – a personalidade e o perfil ideal para o cargo, tratando-se do candidato com a maior experiência política e governativa para desempenhar o papel a que se propõe. Contudo, e apesar de ter demonstrado alguma independência e liberdade durante os anos em que foi comentador político, tem tido alguma dificuldade em descolar-se do atual governo. Pese embora lhe falte carisma, não surpreendeu nos debates, demonstrando aquilo que todos esperávamos da sua prestação: preparado, sensato e com discurso elevado. Mesmo quando Ventura, Cotrim, ou Melo, o surpreenderam com ataques à sua honestidade. Com Cotrim e Ventura, soube estar à altura do desafio, dando uma aula a um, e uma lição a outro. Já com Gouveia e Melo, poderia ter-se defendido de forma mais eficaz, sobretudo demonstrando que ser advogado de negócios ou consultor não é crime nenhum. Faltou-lhe firmeza e maldade, para responder ao adversário na mesma moeda.
António José Seguro, por outro lado, foi a surpresa destas eleições. Assumiu-se como candidato da decência, da educação e da serenidade. Não obstante demonstrar fisicamente (mais do que deveria) o seu nervosismo, Seguro é o candidato que mais tem ganho com os ataques vis dos candidatos do ruído contra Mendes. Sendo uma figura simpática, capaz e experiente, Seguro tem ganho sobretudo por falta de comparência: ninguém o ataca – talvez por ser visto por todos como sério, idóneo e impoluto – e não ataca ninguém, não alinhando em ataques pessoais reles. Demonstrou, ainda, um sentido de estado que todos lhe conheciam, mas que muitos tardaram em lhe reconhecer. Ademais, Seguro demonstrou no debate contra Ventura qual o antídoto contra o populista: deixá-lo interromper e permitir-lhe falar, para que se perceba que não acrescenta coisa nenhuma.
Marques Mendes e Seguro são, de facto, os únicos candidatos que, para além de representarem o perfil tradicional dos candidatos típicos a Belém, são dois homens estadistas, decentes e de centro, que têm vindo a fazer uma campanha de elevação, demonstrando ter o perfil certo para o cargo de Presidente. Mendes tem como vantagem possuir mais estrutura, arcabouço e jogo de cintura. Seguro, por outro lado, tem do seu lado o facto de poder vir a ser um verdadeiro elemento equilibrador em Belém que faria um contrapeso desejável com o Governo, e a maioria de direita que existe no país. Esta seria a segunda volta que Portugal merece.
Seja como for, a escolha deveria ser, para já, entre estes dois candidatos, por uma simples razão: as eleições presidenciais assentam sobretudo no perfil e no estilo dos candidatos, e Marques Mendes e Seguro são os únicos que possuem o perfil e o sentido de Estado para assumirem as rédeas de Belém. O resto é ruído…