Interrompeu. Não lhe interessava o respeito que a sessão plenária do Parlamento Europeu prestava pelos 80 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau. Grzegorz Michał Braun abriu a goela a pedir orações por Gaza. Parece-lhe apropriado. Pisou, com dois pés, a ordem do dia já anunciada por Roberta Metsola de que seria feito um minuto de silêncio pelos seis milhões de judeus assassinados pela Alemanha nazi. E o asno ralado com expressões de contemplação.

Anti-semita, sentenciou que os judeus polacos são inimigos da Polónia. Faz dois anos, em Maio de 2023, invadiu uma palestra sobre o Holocausto do historiador Jan Grabowski, no Instituto Histórico Alemão, em Varsóvia, destruiu o microfone e os alto-falantes do evento. Em Dezembro do mesmo ano, durante a primeira sessão do 10º mandato da Câmara dos Deputados, polaco, apagou uma chanukiah, borrifando-a com um extintor de incêndio e bolçou: “As pessoas que participam do culto satânico deviam ter vergonha”. Culto satânico. Grande desequilibrado para não dizer grande maluco. Vergonha, é o que lhe falta e ao seu país.

Não esqueçamos, não. O presidente polaco, Andrzej Duda, implementou, três anos após se ter sentado na cadeira do poder, em 2018, uma lei escabrosa que determina que qualquer pessoa que acuse, publicamente e contra os factos, o estado polaco ou o povo polaco de serem responsáveis, ou coniventes, com os crimes cometidos pelo Terceiro Reich estará sujeito a multa, ou prisão de até três anos.

Tão preocupados com o serem chamados à pedra pelo facto de os polacos, muitos e muitos e muitos, terem cometido crimes contra judeus durante a Segunda Guerra Mundial e de terem optado pela convivência com a política nazi, pintaram esta lei para impedir a verdade e inibirem sobreviventes de relatarem a verdade. Mas não se lembraram de inventar lei que desse cadeia e multa pesada a quem, com quatro patas, tenha comportamentos anti-semitas.

Nada aconteceu à ‘Rádio Maryja’, a fonte mais activa de anti-semitismo na Polónia, nada aconteceu a este Eurodeputado desvairado, nada acontece. Defendem a honra com o facto da Alemanha ter ocupado a Polónia. Era um país ocupado. Pois era. E o muro era no meio de Varsóvia e nenhuma alma viva se revoltou, por exemplo, entre tantos maus exemplos humanos.

Basta uma visita guiada a Auschwitz Birkenau para conhecermos as mentiras. Judeus mortos, não muitos, a esmagadora maioria que morreu, como se uma doença súbita se tratasse, foram os polish – os polacos. A guia, credenciada e ao serviço do campo de extermínio transformado em memorial, quer passar uma realidade inexistente. Ouvi-la e ser um ignorante é um passaporte para não perceber o que foi. Polacos e não judeus, como os chamava, resumem-se, na sua versão, as principais vítimas.

Como em tempos escrevi, não há mortos maiores do que os outros, contudo há um facto que não deve ser limpo e substituído. A Polónia, ou os polacos, ou alguns polacos, têm um problema sério com a memória. De algo ficamos conversados: houve centenas de milhares de judeus assassinados sem terem sequer encontrado um soldado alemão. Se tanto apregoam que não têm, sequer, nada a ver com as atrocidades nazis, deveriam deixar de administrar Auschwitz-Birkenau e entreguem esse cemitério canibal ao governo alemão.

Por cá, em Portugal, Gustavo Santos, um desconhecido que gostaria de ser famoso, comparou entre aqueles que decidiram não ser vacinados contra a Covid-19 e os judeus assassinados na Shoah. Disse o que só se diz em caso de falta de massa encefálica: é o grupo de pessoas mais discriminado da história da humanidade, os que viraram a cara à agulha. E os judeus que foram para a câmara de gás, perguntou o iluminado apagado? Os judeus não tinham a sua família contra, enquanto as vítimas passaram a consoada sozinhos. É duvidoso, muito, que haja tratamento para alguém que dê nula actividade e utilidade à moleirinha.