O realismo mágico é uma cedência à capacidade racional do ser humano. Pretende alargar o âmbito da realidade e confiar ao domínio intelectual as mais variadas idiossincrasias humanas, desde a mais restrita intimidade até à maior ambição. O seu inimigo não é o disparate ou a loucura desenfreada, antes o absurdo: o impossível manifesto. Assim, se um indivíduo vomita coelhinhos (Carta a uma Rapariga em Paris) não questiona o motivo ou se embaraça intelectualmente com o ocorrido. Além do lado pragmático da questão, não se levantam quaisquer ondas ou se enviam sondas ao cerne da realidade. O realismo mágico aceita o real tal como ele se apresenta, isto é, é na sua essência, um olhar inocente que recai sobre o mundo e a natureza. É um olhar humano e humanista sobre as coisas, acima de tudo.
Há uma assunção epistemológica nesta literatura que podemos rastrear a David Hume – existe uma bifurcação no conhecimento: por um lado existem as relações de ideias, por outro as questões de facto. Fazem parte das primeiras, expressões como “o triângulo tem três lados” ou “a menor distância entre dois pontos é uma reta” (na teoria euclidiana); pensar em qualquer negação a estes princípios é um absurdo e, como tal, uma impossibilidade lógica, física ou metafisica. Derivam das segundas, afirmações tais que “a relva é verde” ou a “a neve é branca”; a negação de cada uma destas declarações não envolve contradição, ou seja, é uma séria possibilidade no mundo e deve ser encarada enquanto tal. A principal diferença entre ambos os ramos da bifurcação reside em que as questões de facto dependem total e unicamente dos nossos sentidos para poderem ser verificadas. Não devia causar a ninguém espanto ou indignação, portanto, a neve poder ser azul ou roxa ou cor-de-laranja. É este impressionismo racional que marca a novidade deste tipo de narrativas.
Esta primeira parte do ensaio, assumidamente teórica, é fundamental para perceber as obras que se incluem neste movimento latino-americano. Focando-nos no conto em questão, Bestiário concentra-se numa família e nas estruturas arquitetónicas interna e externa que constituem o seu lar e permitem os seus movimentos. Apesar de ser uma morada de família, temos sempre a sensação – através dos olhos da protagonista, Isabel – que se trata de uma casa de veraneio, de uma segunda habitação que nunca se chega a dominar e a compreender. A protagonista move-se pela habitação com a alegria e a desenvoltura próprias de uma convidada, ouvindo os conselhos e as permissões dos permanentes. A edificação é bem proporcionada e tem dimensão suficiente para, através das palavras certas – e o autor sempre as tem –, ser considerada grande, espaçosa e confortável. O conjunto arquitetónico nada tem de estranho: as paredes não rangem, não há sons estranhos que chegam do sótão ou da cave, enfim, não habitam fantasmas por lá. Os residentes também não detêm nada de singular: uma família, com as suas relações razoavelmente equilibradas, com a tristeza característica do seu porte – como diria Cortázar – burguês. O contista leva-nos suavemente pela mão – como é seu timbre – através das palavras e das frases, dos parágrafos e das páginas. A arte é esplendidamente dominada e os espécimes vão se mostrando ao longo da narrativa com naturalidade: um quadro, uma parede, uma mesa, um tapete, um jardim, um tigre, um escritório… Neste perfeito controlo semântico e sintático narrativo, o felino, em estado selvagem (a indomabilidade da fera é fundamental para o sucesso da narrativa), aparece com naturalidade, como se houvesse um tigre em qualquer casa de família argentina. Não existem exclamações como “Cuidado com o tigre!” ou “Meu Deus, há aqui um tigre!”. É esta naturalidade (contra uma sobrenaturalidade ou uma alteridade) que nos invoca e nos causa, como uma patina, um desconforto mental e físico. Claro que sabemos – o autor conta com isso – que no continente americano não há tigres, nomeadamente na mui turística cidade de Mar del Plata. Contudo, também reconhecemos que, e se quisermos ser picuinhas, o animal podia ter fugido de um circo ou de um zoo. São as ações e reações, quer da convidada quer dos anfitriões, que nos provocam uma certa magia: “Cuidado com a chávena de café, está muito perto da beira da mesa” ou “Tenha cuidado com o degrau, está solto”; ou, no nosso caso, “O capataz disse que o tigre está no escritório de fulano, podemos ir ao jardim”… A vida prossegue com a segurança do dia-a-dia, ou seja, com a segurança possível, que nos é possível assegurar e manter. Há um tigre na casa, no entanto, se tivermos atenção e comuniquemos com clareza, nada de mal acontecerá: “O semáforo está verde para os peões, podemos atravessar a estrada em segurança”, etc.
Se não fosse um conto, o enredo podia terminar sem qualquer incidente. No entanto, para bem de todos nós, convém que o ficcionado contenha atrito: no final, existe uma morte causada pelo animal; um descuido, uma desatenção, e alguém – o dono da propriedade – morre no ataque felino. Mais uma vez, reforço que não corresponde a um clímax, a um resultado previamente estabelecido, mas simplesmente a um acaso: “No sítio errado à hora errada”. Até à fatalidade, a prosa contida e bem presa na mão do escritor; durante o ataque final, bem à vista de todos, menos da protagonista, existem os naturais gritos, as reações compreensivelmente escandalizadas de surpresa e incredulidade, o horror, o horror…