A grande diferença entre Passos I e Passos II é a chegada do Chega ao panorama político. Podemos analisar a diferença entre ambas as versões, fazendo um paralelo com o filósofo Wittgenstein, o qual, nas Investigações, renuncia abertamente ao legado do seu primeiro livro, que serviu, de resto, à sua tese de doutoramento, o Tractatus. Enquanto o austríaco mudou de forma radical o seu pensamento sobre a filosofia e o mundo, o político português somente se adaptou às novas condições políticas que o país enfrenta: com o surgimento do partido de André Ventura deu-se por terminado o geocentrismo dos partidos tradicionais. A mudança no discurso e na proposta de ação, em vez de radicalidade, em vez de ser uma diferença de natureza, é apenas uma questão de verticalidade e de grau. A moral e os costumes conservadores, a par com uma confiança nos mercados, enquadram-se numa perspetiva, não apenas em consonância com várias gerações, mas também com uma promessa de melhoria das condições de vida para os portugueses. Afastado da preocupação financeira e dialógica com a troika, permite-se concentrar no futuro a médio e a longo prazos. O “Tractatus Logico-Philosophicus” do Sr. Wittgenstein, venha ou não a provar-se que é a verdade suprema acerca dos temas que trata, merece com certeza, em virtude da sua inspiração, profundidade e alcance, ser considerado um acontecimento importante [no mundo da Filosofia] – nas palavras de Bertrand Russell. Vertendo para a esfera ideológica, as posições de Passos acerca da originalidade da situação nacional merecem, em definitivo, uma averiguação e uma análise honestas, muito além da troca de galhardetes e da invocação de miudezas de ocasião; uma atitude séria e desapaixonada é, então, o meu conselho quando se aborda o novo papel do ex-primeiro-ministro.

Por incrível que possa parecer, a desconfiança e atrito que ainda suscita na esquerda tornam necessário, mais uma vez, invocar a vitória, sua e do país, pela saída limpa do programa de ajustamento. Quer aqueles que guardam ressentimento pelo sucesso alcançado, quer os que não esquecem os sacrifícios requeridos para ultrapassar a situação de descalabro do país, estes, atribuindo-lhe uma forma de sadismo muito pessoal, a verdade é que a simples aparição da figura causa celeuma. A dúvida que agora paira no ar do tempo é saber, após essa conquista e depois de duas vitórias nas eleições pretéritas, contra a rua e contra o socialismo desenvergonhado, quanto vale atualmente o ator político nas urnas.

Passos enfrenta três frentes: à sua direita, o Chega; à sua esquerda, a crer nas reações dos altos responsáveis, o PSD; e finalmente, a esquerda socialista. Cada uma representa desafios particulares e exige estratégias diferentes. Do lado dos socialistas, demasiado empenhados em manter a paralisia do cenário atual, o mesmo, com pequenas nuances, desde Cavaco, a distância irá permanecer, senão aumentar. De André Ventura devemos esperar uma disputa pela predominância e protagonismo da direita, em primeiro lugar, e uma relação ambígua em relação às reformas a empreender, em segundo – não convém esquecer a sua relutância e até atitude contrária exibidas no Parlamento. Todavia, é no – ainda – seu partido, como disse, pelo menos ao nível dos dirigentes, que parece encontrar maior adversidade. Estando o PSD no poder, é também natural que os militantes sejam afetados pela inércia, não desejando arriscar, de momento, qualquer intriga. Pondo de parte um golpe palaciano (do tipo Costa/Seguro), por não coexistir com a sua personalidade, resta a Passos Coelho aguardar, com eventuais intervenções esporádicas, a passagem lenta dos dias. Não ser esquecido e manter-se ativo serão os seus desafios imediatos.

Não tendo qualquer controlo sobre as circunstâncias e a aleatoriedade da vida política nacional e internacional, Passos está colocado numa situação desconfortável, pelo menos enquanto mero assistente passivo. Esperar por melhores dias, acreditando que a sua oportunidade virá (não está escrito nas estrelas), é um luxo não permitido. Tendo uma idade que permite alguma paciência, a elasticidade é limitada. Mesmo com o cenário de derrota de Montenegro em eleições antecipadas, Passos teria de ganhar o partido, o que não é de todo líquido, pois provavelmente teria de enfrentar pesos entretanto tornados pesados pelo aparelho laranja. Ou seja, haverá, com certeza, uma frente anti-Passos que, à semelhança do governo atual, estaria mais interessada em prolongar o estado geral de apatia e assemelhar-se à ação dos sucessivos governos socialistas. Para o atual PSD e para o PS, para não falar da extrema-esquerda, há um natural círculo vicioso que não pode ser quebrado: a Constituição como fim e princípio políticos do país – leia-se, a estagnação.

Para este espectro alargado de políticos, Passos aparece como persona non grata, com as suas intenções de mudança e espírito verdadeiramente reformista. Demasiado preso à tradição governativa e de alternativa, tenho sérias dúvidas de que o partido de Montenegro e de Rui Rio ainda possa servir como esperança e veículo para a transformação de Portugal. O único modo, parece-me, que permitiria a Passos avançar livremente seria constituir um movimento, uma vez que a criação de um partido poderá ser demasiado abrupta, por um lado, e lenta, por outro. Este movimento, ao contrário da farsa de Cotrim, exigiria ser levado a sério enquanto projeto político, tendo como preocupação insuflar um novo élan.

Em política o médio prazo é uma miragem. Tudo pode cambiar a todo o momento. Assim, este artigo poderá parecer, a breve trecho, uma fantasia mal conjeturada. É legítimo, no entanto, fazer uma análise a partir dos dados existentes – não conheço outra forma de proceder.