As perplexidades da História não deixam de espantar os mais sensíveis. Um povo tão orgulhoso como o chinês, com um passado institucional e cultural riquíssimo, e com personalidades incontornáveis, permite-se afetar por declarações espirituosas de um jogador de futebol. É certo que o dito desportista é uma referência mundial na modalidade e não é menos verdade que possui – coisa que tem o seu peso – imensos seguidores. Não há dúvida de que as palavras têm valor, mas, de acordo com Nietzsche, o que é mais interessante é o quem e não o quê.

Temos assim que Kylian Mbappé, numa entrevista, perguntado sobre qual o meme que mais o divertia, respondeu inocentemente que era aquele em que aparecia com a cabeça no corpo de um ditador chinês. Este comentário a uma imagem sobreposta do seu rosto ao de Mao Zedong provocou a ira de toda uma nação de chineses, extremamente chocados pelo fundador da sua República Popular ter sido chamado de ditador. De repente, o assunto (ou não assunto) assumiu proporções gigantescas, havendo da parte do Estado chinês ameaças financeiras, quer sobre o próprio quer sobre La Liga, a competição em que joga. Aparentemente, existem milhões de chineses com vontade de acompanhar os jogos do campeonato espanhol de futebol. Assim, empresas como Dongpeng, Mengniu e Milkground rescindiram contratos publicitários; a própria televisão estatal chinesa (CCTV) suspendeu as transmissões da Liga espanhola (SIC Notícias). Pela minha parte, acho que consigo detetar um exagero quando me deparo com um, mas a realidade é que o todo-poderoso Partido Comunista Chinês, através de uma publicação ligada ao Diário do Povo, seu órgão oficial, veio apresentar a sua indignação, afirmando que ninguém pode lucrar com a China enquanto a desrespeita.

As circunstâncias do francês ter rapidamente pedido desculpa, das declarações humilhantes dos responsáveis do Real Madrid (clube onde joga) e dos responsáveis da própria Liga, têm relativa importância; afinal, o desporto profissional é um negócio e nos negócios o dinheiro e os patrocínios são essenciais. Mais interessante do ponto de vista político é sem dúvida a mão de ferro com que os dirigentes chineses dominam as suas empresas. Todavia, a pedra de toque do tema é o facto de os de Pequim ficarem ofendidos com um fenómeno histórico. Poderemos perceber melhor este ponto imaginando um caso semelhante: um chinês, jogador de snooker, por exemplo, declara que Franco era um ditador. Cabe na cabeça de alguém, uma qualquer instituição ou figura pública ou política espanhola, rasgar as vestes ao ouvir tal verdade?

Conforme percebemos pelo comportamento das autoridades chinesas perante a afirmação de Mbappé, não há registo, nos seus anais, de um Mao ditador. Mao é eternamente um defensor dos oprimidos e dos camponeses, um libertador do seu povo, um marco da liberdade e da igualdade. As suas atrocidades de nada valem quando comparadas com a sua teoria e a sua prática revolucionárias. Num país habituado a catástrofes e a tiranos, inaugurou a China moderna, a China comunista, adotando uma filosofia ocidental, mas que se adaptou extremamente bem à sua ambição e mundivisão.

Ditadores há muitos. De todos os lados e para todos os gostos. Contudo, a esquerda habituou-nos a considerar os tiranos desse lado como bons rapazes. A conversa de que os fins são bons, apenas discordamos dos meios, serve para assegurar que os fins justificam os meios. Pondo de parte a bondade das metas, a verdade é que a extrema-esquerda ainda tem o selo da justiça e da moral. Não nos podemos esquecer que entre nós, portugueses, houve e há políticos e partidos maoístas, com um passado de responsabilidade no Portugal moderno e revolucionário. Considerar um herói alguém que desencadeou políticas como a Grande Fome, o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural, cujos saldos se traduzem em dezenas de milhões de vítimas, é um caso sério de despudor e de insensibilidade. Constatar que, atualmente, nomeadamente nas recentes manifestações pela habitação, a atividade desses grupelhos ainda continua na calha revolucionária, é um sinal preocupante para a nossa democracia.

Claro que num Estado onde não há lugar para a liberdade de expressão, as opiniões reais dos cidadãos chineses de nada valem. Pequim assume todas as despesas, representando, por via metafísica, ou seja, sem eleições, a vontade do povo chinês. Das empresas à vida privada individual, o Partido Comunista emerge como a única cabeça pensante por direito próprio e como o único braço armado da Revolução. Que o povo chinês se submeta a estes ditames, conhecendo a sua história, não deve surpreender ninguém. Que outros, noutras paragens mais arejadas, desejem semelhante destino, é algo com que não podemos compactuar.