O combate aos incêndios florestais em Portugal continua, ano após ano, demasiado centrado na resposta à emergência e pouco focado na prevenção estrutural. Sempre que chega o verão, multiplicam-se os meios aéreos, os exercícios operacionais e os discursos sobre prontidão. Mas a verdadeira pergunta continua por responder: porque não envolver os bombeiros, de forma permanente e organizada, nas limpezas florestais durante a época de prevenção?
A discussão não é nova. Há muitos anos que se alerta para a necessidade de planeamento a montante, para a criação de uma estratégia contínua de gestão florestal e para a valorização do enorme volume de substrato orgânico que todos os anos é retirado, ou deveria ser retirado, das nossas florestas. A verdade é que, continuamos a agir tarde demais, muitas vezes apenas quando o fogo já está instalado.
O problema é estrutural e não pode continuar a ser tratado apenas com medidas avulsas ou legislação penalizadora. Aplicar coimas a proprietários que não conseguem limpar os terrenos é, em muitos casos, ignorar a realidade do interior do país. Grande parte dessas propriedades pertence hoje a pessoas envelhecidas, sem capacidade física ou financeira para intervir. Muitos dos seus descendentes abandonaram o território à procura de melhores condições no litoral, deixando vastas áreas ao abandono, expostas ao crescimento descontrolado de matos e combustível florestal.
Perante esta realidade, o Estado tem de deixar de olhar apenas para a punição e começar verdadeiramente a apoiar. Durante anos, o discurso político centra-se excessivamente na fiscalização e na aplicação de coimas, como se a ameaça da penalização resolvesse, por si só, um problema profundamente estrutural. Mas a verdade é que milhares de proprietários florestais simplesmente não têm capacidade física, financeira ou logística para cumprir aquilo que lhes é exigido. Exigir sem criar condições é, no fundo, transferir responsabilidades sem resolver o problema.
Precisamos de políticas públicas sérias, contínuas e eficazes que promovam a limpeza florestal e ajudem quem não consegue assumir sozinho esse encargo. Isso implica criar programas de apoio técnico e operacional, equipas locais de intervenção e mecanismos de financiamento acessíveis às populações mais envelhecidas e isoladas do interior do país. A prevenção não pode continuar dependente apenas da boa vontade individual quando estamos perante um problema coletivo de segurança nacional.
Este ano, a preocupação técnica é ainda maior. O inverno rigoroso e os períodos prolongados de chuva criaram condições particularmente favoráveis ao crescimento intenso da vegetação espontânea. Aquilo que hoje vemos crescer nos montes e florestas será amanhã combustível altamente perigoso durante os meses mais quentes. Estamos numa fase decisiva de limpezas, mas ao mesmo tempo assistimos diariamente ao crescimento acelerado de matos e substratos vegetais, aumentando significativamente o risco associado à época DCIR 2026.
A carga combustível acumulada poderá transformar qualquer ignição num incêndio de grandes dimensões. E quando esse cenário se junta ao despovoamento do interior, à falta de gestão florestal e às alterações climáticas, percebemos rapidamente que o problema não se resolve apenas com mais meios de combate durante o verão. Resolve-se sobretudo antes do verão começar.
Ao mesmo tempo, o Governo procura responder às consequências das tempestades que atingiram Portugal, envolvendo militares nas zonas mais afetadas. Trata-se de um esforço importante e necessário, sobretudo em situações de emergência e recuperação. No entanto, continua a faltar coragem política para repensar o sistema de raiz e construir um modelo verdadeiramente preventivo.
Os bombeiros portugueses não podem continuar a ser vistos apenas como agentes de combate ao fogo. Essa visão é hoje demasiado limitada para a dimensão do desafio que o país enfrenta. O paradigma tem de mudar. O futuro exige corpos de bombeiros com intervenção permanente no território, ativos durante os 12 meses do ano e integrados numa estratégia nacional de prevenção florestal.
Faz pouco sentido que homens e mulheres altamente treinados, conhecedores do terreno e profundamente ligados às comunidades locais sejam mobilizados apenas quando o incêndio já começou. Pelo contrário, esse conhecimento acumulado deveria ser aproveitado precisamente na fase anterior, quando ainda é possível reduzir riscos, abrir acessos, eliminar carga combustível e preparar o território para enfrentar os períodos críticos.
Os bombeiros conhecem como ninguém os pontos vulneráveis, as zonas de difícil acesso, os padrões de propagação do fogo e as fragilidades das aldeias e populações locais. Ignorar esse potencial preventivo é desperdiçar experiência, recursos e capacidade operacional que poderiam fazer a diferença antes da tragédia acontecer.
Portugal continua demasiado focado em apagar fogos quando devia estar, acima de tudo, preocupado em evitá-los. E enquanto o país não compreender que a prevenção tem de ser uma prioridade permanente, continuaremos presos a um ciclo repetitivo de destruição, emergência e reconstrução.
Dar aos bombeiros um papel ativo na limpeza e gestão florestal seria uma mudança profundamente positiva e talvez uma das reformas mais importantes que Portugal poderia fazer na área da proteção civil. Isso implicaria, naturalmente, reforçar meios e competências: mais máquinas de rasto, equipamentos específicos para intervenção florestal, formação contínua e uma integração operacional mais eficaz com sapadores florestais, guardas ambientais e vigilantes da natureza. Mas acima de tudo significaria abandonar a lógica de atuação sazonal e criar uma verdadeira estratégia anual de proteção do território, onde prevenção e combate deixariam finalmente de ser vistos como mundos separados.
Hoje continuamos demasiado focados na reação. Mobilizamos enormes recursos quando os incêndios começam, mas investimos muito menos naquilo que poderia evitar que esses incêndios atingissem proporções catastróficas. Ora, os bombeiros conhecem o território como poucos. Conhecem os acessos, as zonas críticas, os padrões de risco, as áreas abandonadas e as dificuldades reais das populações. Faz todo o sentido que esse conhecimento não seja utilizado apenas durante os meses de verão, mas ao longo de todo o ano, numa lógica preventiva e estruturada.
Além disso, esta mudança poderia representar uma valorização real das corporações e da própria profissão de bombeiro. Muitos corpos de bombeiros enfrentam dificuldades de recrutamento, envelhecimento dos quadros e períodos de enorme pressão operacional concentrados apenas em determinadas épocas do ano. Ao envolver estas estruturas na prevenção florestal, criar-se-ia maior estabilidade operacional, mais especialização técnica e uma presença permanente no terreno, reforçando também a ligação às comunidades locais.
Por outro lado, é impossível ignorar a realidade social do interior do país. Existem milhares de propriedades florestais abandonadas ou sem qualquer rentabilidade económica. Para muitas famílias, especialmente idosos, possuir terrenos florestais tornou-se apenas uma fonte de despesa, preocupação e risco. Não podemos continuar a exigir limpezas sem criar mecanismos de apoio reais para quem simplesmente não tem capacidade de resposta.
Por isso, seria fundamental desenvolver serviços de limpeza florestal co-financiados pelas autarquias e pelo Estado, destinados sobretudo às populações mais vulneráveis e envelhecidas. Esses programas poderiam funcionar em articulação direta com bombeiros, sapadores e juntas de freguesia, permitindo uma intervenção mais rápida, organizada e eficaz no território.
Portugal não pode continuar preso a um modelo que gasta milhões no combate aos incêndios, enquanto investe insuficientemente na prevenção estrutural da floresta. Todos os anos repetimos os mesmos discursos, os mesmos alertas e as mesmas tragédias. A floresta não pode ser lembrada apenas quando chegam as ondas de calor e os grandes incêndios, tal como os bombeiros não podem ser vistos apenas como agentes de emergência chamados quando tudo já falhou.
Se queremos realmente reduzir o impacto dos incêndios florestais nas próximas décadas, então temos de mudar mentalidades, reorganizar prioridades e assumir que proteger a floresta é um trabalho permanente. Porque, no fundo, o verdadeiro combate aos incêndios começa muito antes da primeira chama.