Pela primeira vez na vida, escrevi uma mensagem ao Presidente da República, o professor Marcelo Rebelo de Sousa.
O assunto da mensagem foi a manifestação do meu desagrado pela forma como os impostos dos portugueses são geridos pelo Governo, condenação que para os leitores do Observador já não é uma novidade, mas que inevitavelmente piorou de situação através das circunstâncias pessoais pelas quais passei nos últimos tempos.
Desta forma, e para expor publicamente um problema que certamente afeta muitas pessoas no nosso país, decidi partilhar convosco esta mensagem:
“Exmo. Senhor Presidente da República,
Dirijo-me a V. Exa., como jovem portuguesa, para manifestar a minha profunda desilusão e tristeza pela consecutiva má gestão financeira dos sucessivos governos portugueses.
Chamo-me Joana e tenho 33 anos. Sou solteira e vivo sozinha numa casa que comprei há 2 anos, pelo não tive qualquer benefício de isenção de impostos na compra da mesma. Nunca saí de Portugal para trabalhar no estrangeiro e faz 8 anos que comecei a receber rendimentos do trabalho dependente no país, contribuindo desde sempre para o Estado de forma acurada e honesta.
Trabalho na área das tecnologias da informação e, felizmente, tenho um bom salário comparativamente à média das pessoas na minha faixa etária, contribuindo com mais de metade para o Estado (51% de Taxa IRS e Segurança Social).
Simulei, esta semana, a minha declaração de IRS para o ano de 2024, e a mesma refere que terei de pagar 865,25€ pois, pelos vistos, o valor de imposto que foi retido não foi suficiente ao longo do ano, apesar da minha coleta líquida ter o valor de 14.945,25€. Assustadoramente, com os baixos salários em Portugal, é uma quantia mais elevada que o valor de rendimento anual líquido mediano da população de Lisboa.
No mês passado, tive de me deslocar de madrugada às urgências do Hospital Garcia de Orta, no qual esperei 9 horas sem ser atendida, numa sala de espera sem condições básicas, até poder dirigir-me a um hospital privado. Vi com os meus próprios olhos pelo que a percentagem da população sem acesso privilegiado a seguros de saúde tem de passar para ter acesso aos cuidados de saúde primários.
Neste sentido, gostaria sinceramente de questionar a V. Exa. se sabe para onde é que vai o meu dinheiro (já que nitidamente não vai para os hospitais públicos).
Na minha opinião, o Governo só deveria ter a legitimidade em exigir impostos tão elevados, para os quais conseguisse comprovar como e onde os mesmos são de fato aplicados. Como contribuinte, não tenho nenhuma forma de fazer qualquer tipo de auditoria, e da minha percepção, a utilização das contribuições dos portugueses é completamente ineficiente no que se trata de serviços públicos e programas sociais.
Apesar de gostar muito do meu país, estou cada vez mais a ponderar deixá-lo, pois, analisando a atual situação política, e a percetível corrupção existente, a esperança de que a situação melhore é cada vez mais ilusória.
Por mim e pelas gerações futuras, peço que alguma coisa seja feita em benefício da população portuguesa, de uma vez por todas.
Grata pela atenção dispensada, fico ao dispor para qualquer esclarecimento adicional. Atenciosamente,
Joana de Matos Monteiro”
Para quem defende esta exploração aos contribuintes, informo que no meu caso, o escalão de IRS não alterou no ano de 2024, portanto nem existe essa “justificação”. Posso receber quase o dobro do salário bruto médio em Portugal, mas também desconto metade do meu salário todos os meses, para não falar do outro “salário” que a empresa dá por mim ao Estado, para me ter empregada.
A sério, vocês acham mesmo que “justiça social” é sermos obrigados a pagar para trabalhar? É porque quanto mais contribuímos para o desenvolvimento da sociedade, mais favorecemos um Estado que nivela o rendimento real da população por baixo e não se parece preocupar em melhorar as condições de vida dos portugueses.