Na minha visão humanista e liberal, sempre acreditei que para vivermos numa sociedade com garantias de direitos e liberdades individuais, deveria ser preservada a tolerância ideológica e política, permitindo que distintas reivindicações, valores e crenças possam coexistir pacificamente. Apesar de defender que devemos discordar de ideias e medidas caso não concordemos com elas, acredito mesmo que, na sua essência, todos os integrantes dos partidos regem-se pelas suas ideologias bandeira para decidir sobre qual a sua melhor forma de governar. Por exemplo, pessoalmente tendo a concordar com Winston Churchill, quando disse que “o socialismo é a filosofia do fracasso, a crença na ignorância e a pregação da inveja”. Mas presumo que os socialistas, por religiosidade ou insciência, acreditem que somente seguindo as suas convicções marxistas vão melhorar o país, mesmo que esse não tenha sido o resultado obtido nos seus longos anos de governação. Por outro lado, renego o moralismo de achar que as pessoas que defendem esta ou outra ideologia, com a qual não me identifico, são à partida mal intencionadas com objetivo de arruinar a vida dos seus compatriotas. Até porque, sendo uma disciplina que me diz muito, quero sempre acreditar que quem se envolve na política, o faz pelo bem maior do mundo.
Nos últimos tempos, porém, têm vindo à tona notícias que me deixam a questionar sobre quais as reais intenções dos indivíduos que integram determinados partidos, ou se esses mesmos partidos defendem realmente as ideologias que pregam. Pois se existe coisa que mais desprezo no mundo político, e em geral, é a hipocrisia. E este ato de fingimento e desvergonha parece estar a afetar os extremos, em ambos os sentidos.
Comecemos pela esquerda: Enquanto o PCP, crítico da “mercantilização” da habitação, é investigado pelo Ministério Público por negócios com imobiliária, movimentando milhões em imóveis, vendendo prédios e arrecadando rendas; o Bloco de Esquerda, partido que grita pelo feminismo e direitos dos trabalhadores nas ruas mas que, pelos vistos, é constituído por trabalhadores precários e não teve problemas em despedir mulheres que estavam de licença de maternidade. Se isto não é chocante e revoltante para os seus eleitores, para mim é.
Já na direita, o Chega não surpreende: o partido “das pessoas de bem” que acusa todos os outros de serem vigaristas e que está repleto de ideias para castigar os bandidos e pedófilos, pelos vistos é maioritariamente constituído por criminosos que são diariamente denunciados e investigados, como pipocas na panela. Neste caso, acredito que os cidadãos que votaram no partido o fizeram de forma consciente, já que é algo que acho que nunca conseguiram esconder.
O mundo político sempre esteve envolto em mentiras e omissões, refletidas na falta de concretização de medidas entre o pré e o pós eleições. Tristemente, os indivíduos que têm como missão principal fazer valer a vontade do povo aparecem constantemente conectados aos sucessivos casos de aldrabices e corrupção no nosso país, que fazem as pessoas que exercem estes cargos serem vistas de uma forma menos honrosa. No entanto, o ato de fingirem praticar crenças e virtudes que na verdade não possuem, e por cima disso, terem a “lata” de se colocarem num pedestal doutrinário que critica e exige dos outros aquilo que não exercem, faz-me revoltar o estômago, como imagino que a qualquer outra pessoa digna. Nestes casos, infelizmente, não podemos permitir que se tolere a normalização da indecência.
Se queremos uma mudança na política em Portugal, precisamos de fomentar a consciência de que a integridade e a ética são pilares fundamentais da nossa sociedade, e por isso mesmo, independentemente de qual for o “nosso lado”, não podemos compactuar com a constante eleição da dissimulação.