Caro leitor, começo esta crónica com uma declaração de interesses, contradizendo o cronista Bruno Bobone, que escreveu no Observador há alguns dias: eu não preciso deste CDS! Nem eu, nem Lisboa, nem o país… De momento, quem verdadeiramente precisa do CDS são algumas figuras que se aproveitam de o partido ter ido na coligação Novos Tempos, em 2021, liderada pelo Eng. Carlos Moedas.

Estou a ser contundente, pois fui autarca pelo CDS e sinto-me envergonhado com o facto de o partido, que tanto defendeu a meritocracia, por vozes como o prof. Adriano Moreira, prof. Assunção Cristas e até pelo próprio Francisco Rodrigues dos Santos, nos tempos da Juventude Popular (2015-2020), atualmente esteja a servir de entreposto/centro de emprego a pessoas com zero experiência profissional, zero conhecimento de dossiers e zero conhecimento da cidade.

Falo, em primeiro lugar, do caso da ex-vereadora Joana Oliveira e Costa, que tem pontificado nas últimas semanas no JN, no Correio da Manhã, na CMTV e também no programa “Prova dos Factos”, da RTP.

Esta ex-vereadora tem sido um enorme embaraço para quem queria ver na política e no CDS um partido limpo de vícios dos “grandes” – PSD e PS, mas parece que tem conseguido igualar casos de figuras que fizeram manchetes, abriram telejornais e fizeram corar de vergonha muitos portugueses.

Temos aqui um caso muito semelhante ao do famoso assessor da ex-ministra Vieira da Silva (PS), contratado por quase 4000 euros mensais, e apenas demitido após reportagem de Sandra Felgueiras, em 2022/23. Zero experiência profissional, a terminar uma licenciatura Bolonha (3 anos) e ordenado de quase 4000 euros (3750€/mensais).

O embaraço seria apenas o resultado de várias renúncias, após a suspensão do mandato do vereador Diogo Moura, em 2024.

Mas, a juntar a isso, há uma dúvida enorme que tem unido a oposição lisboeta, do Chega ao BE, passando pelo PS: será que as renúncias cumpriram requisitos?

A dúvida existe, porque um dos renunciantes (Nuno Rocha Correia) foi a uma reunião de vereação da Câmara Municipal de Lisboa, a 26 de Junho de 2024, para substituir a sua substituta.

Caro leitor, não fique baralhado com este “plot twist”, pois é só parte do conjunto de embaraços que o CDS tem perpetrado em Lisboa, imitando os vícios dos grandes partidos.

Em segundo lugar, Joana Oliveira e Costa contratou a secretária-geral da Juventude Popular, Enide Seixas, por ajuste direto.

Segundo o contrato, no portal BASE e transcrito na revista Sábado de 25 de Dezembro de 2024, a avença da jota centrista tem como objeto “assessoria jurídica na área da Economia” e tem um valor total de €65.668,75 ao longo de 533 dias, quase um ano e meio, repartido em prestações de 3.750 euros (+ IVA) por mês, à exceção do primeiro mês, pelo montante de 1.875 euros (+ IVA).

Qual é o problema? Enide Seixas não terminou ainda o curso de Direito na Universidade Católica do Porto e, segundo parecer da Ordem dos Advogados, pode estar a incorrer num crime de procuradoria ilícita. Assessoria jurídica, só com curso terminado e Ordem feita.

O conceito de meritocracia e competência, que foi defendido por vários dirigentes centristas que respeito, está a ser delapidado pelo CDS atual, na Câmara de Lisboa. Pelo que sei, há membros na Juventude Popular que ficaram bastante embaraçados com este caso, especialmente porque a jovem Enide Seixas é candidata à liderança da juventude centrista, com congresso e eleições a 22 e 23 Fevereiro.

O problema, infelizmente, é que não são só estes dois casos…

Ainda podemos acrescentar um terceiro caso, o verdadeiro pináculo do “plot twist”: a contratação da ex-vereadora Joana Oliveira Costa, pelo regressado vereador Diogo Moura…

Sim, caro leitor, novamente Joana Oliveira Costa a ser contratada para a Câmara de Lisboa e pelo vereador que ela substituiu… 304 dias de trabalho no gabinete do vereador Diogo Moura, por 37 525 euros, até às eleições de Outubro de 2025.

Quando os partidos não salvaguardam os seus ativos, depois de tantos embaraços, sujeitam-se a dúvidas e perda de capital de confiança junto dos eleitores e de militantes.

O Chega e o BE, na Câmara de Lisboa, apelidaram esta contratação de “eticamente reprovável”, “favor político” e “imprudente”. Para o cidadão e eleitor comum, o CDS e a jovem Joana Oliveira e Costa saem beliscados, pois ficam colados à figura clássica do “tacho”, do “favor político”, ao ver uma jovem com zero experiência a ganhar um ordenado astronómico, a contratar assessores em catadupa (foram 5 assessores contratados) para lá de toda a (má) gestão do processo de substituição de Diogo Moura.

Quanto ao eng. Carlos Moedas, terá de resolver um problema dentro de portas: exigir mais clareza, linearidade e transparência ao seu parceiro principal de coligação, que tinha três lugares de vereadores… agora terá dois, após a esperada saída de Filipe Anacoreta Correia, do CDS. Caso contrário, quando se chegar às eleições, estes casos poderão corroer o capital eleitoral dos “Novos Tempos”, face à candidatura do PS de Alexandra Leitão.

Aos dirigentes nacionais, distritais e locais do CDS, peço algo: façam um ato de contrição e tentem dignificar em Lisboa o legado de autarcas/vereadores como João Gonçalves Pereira, Pedro Feist e Assunção Cristas. Porque, no fim do dia, Lisboa precisa do CDS… do CDS de bons autarcas locais! Mas não precisa deste CDS, com vícios de partidos grandes, cheio de embaraços e a fazer manchetes noticiosas!