Cada grande período da ciência teve a sua própria visão do mundo. O desenvolvimento prodigioso da física clássica a partir dos séculos XVII e XVIII, que levou Newton a ser comparado a um segundo Moisés, teve como ponto de partida a descoberta de um conjunto de leis universais e deterministas, um exemplo das quais é a lei da gravitação universal, que permitiu explicar e prever a dinâmica dos corpos celestes. O Universo e todas as coisas materiais, incluindo os seres vivos, passaram a ser vistos como máquinas, com um comportamento rigorosamente previsível, e iniciou-se o processo de os desmontar até aos seus componentes mais ínfimos, tal qual como se faz com uma máquina quando se quer entender o seu funcionamento.

O êxito desta metodologia transformou a física na ciência padrão e desenvolveu-se um modo de pensar “fisicalista” ou mecanicista, que impregnou de forma profunda todas as áreas do conhecimento e mesmo a cultura e a organização das sociedades, e levou àquilo a que Alvin Toffler chamava “a civilização da fábrica”.

Mas os limites desta visão mecanicista da ciência têm vindo a tornar-se óbvios, sobretudo porque a maior parte dos fenómenos não se comportam como máquinas e não são passíveis de uma abordagem baseada na procura de leis universais e deterministas. A ciência percebeu que, na sua generalidade, a natureza não é dotada de um comportamento estável, linear e previsível. Pelo contrário, a contingência, a aleatoriedade, a imprevisibilidade, a não linearidade, a criação espontânea de ordem, são intrínsecos à maioria dos fenómenos, mesmo os aparentemente mais simples. E percebeu também que nem sempre é possível compreender um fenómeno apenas desmontando-o nas suas partes, ou, dito de outra maneira, que o todo pode ser diferente da soma das partes, ou, dito ainda de outra maneira, que os fenómenos podem apresentar propriedades emergentes. Num certo sentido, está a ser recuperada uma tradição organicista na ciência, que nunca deixou de existir, mas que tinha sido relegada para um plano secundário nos últimos séculos.

O que está a acontecer na biologia ilustra bem o carácter dramático da mudança de paradigma em curso. A substituição do neo-Darwinismo por uma nova teoria da evolução, já não centrada nos genes, e o desmoronar do tabu relativo à impossibilidade de herdar características adquiridas, são manifestações desta mudança de paradigma. Mas não é sobre isso que irei falar agora. Uma outra vítima desta revolução é a concepção dos genes como o “centro de comando” da célula (ou do organismo), donde partiam, em sentido único, todas as ordens, limitando-se as restantes estruturas a obedecer. Não deverá ter sido alheio à influência do pensamento mecanicista o facto de ter sido dada esta prioridade aos genes durante um tão longo período de tempo, atribuindo-lhes a origem de tudo ou quase tudo daquilo que é hereditário. Uma máquina precisa de quem a comande. A célula (ou o organismo) passou a ser representada como uma pequena fábrica, com a sua hierarquia, os seus dirigentes (o genoma) e os seus subordinados (as restantes estruturas da célula).

Sabe-se agora que a ideia da primazia do genoma sobre todos os outros componentes da célula é errada, e que o genoma é apenas uma das muitas estruturas que, em pé de igualdade em termos de influência causal, compõem a célula. Como diz o cientista Denis Noble acerca da dinâmica intrínseca dos organismos biológicos, “a priori, there is no privileged level of causation”. A célula contém múltiplos agentes especializados, entre eles a cromatina, todos com influência causal, que interagem e se condicionam mutuamente através de uma rede complexa de ansas de feedback e outros mecanismos de autorregulação. É através destas interacções que a coordenação entre os vários componentes emerge espontaneamente, como que guiada por uma “inteligência oculta”, cujos princípios sabemos agora serem explicáveis em termos físico-químicos. E o mesmo tipo de organização, com uma causalidade circular e um controlo distribuído, existe a nível dos organismos multicelulares, mesmo os mais complexos, como nós próprios.

A hereditariedade não depende apenas dos genes. O elemento mais pequeno que é herdado de geração para geração não é o genoma, mas uma célula completa – o ovo ou zigoto – e o conjunto das estruturas do citoplasma e das membranas da célula não é menos complexo e não contém menos informação que a cromatina nuclear. O genoma não está acima destas estruturas e a sua expressão é por elas condicionada e ainda por outros factores a nível organísmico e ambiencial. Se o genoma fosse o único centro de comando da célula ou do organismo, nós seríamos praticamente iguais aos chimpanzés, visto que os nossos respectivos genomas são quase idênticos.

Com todas as reservas inerentes a este tipo de comparações, esta imagem da célula como um sistema dinâmico, autorregulado, sem níveis privilegiados de comando, em que todas as estruturas contam e com um comportamento emergente, pode ter algum paralelo com a imagem da economia de mercado guiada por uma “mão invisível”, segundo a metáfora de Adam Smith.

O modelo que está a emergir na biologia e em muitas outras áreas da ciência, incluindo na física, está a favorecer uma visão do mundo mais organicista que contrasta profundamente com a anterior visão mecanicista. Aplicada às sociedades, esta visão organicista tem enormes implicações. Na visão mecanicista, o indivíduo é subalternizado e desvalorizado e há uma tendência para a homogeneização e uniformização da sociedade, no fundo para a sua simplificação, tendência esta que na Europa atingiu o auge com a URSS e a Alemanha nazi, levando à criação de organizações gigantescas na economia e na sociedade, sob controlo centralizado, e contribuindo certamente para a facilidade com que foram postas em prática as políticas de extermínio em massa que aconteceram nesses países. Embora de forma não tão acentuada, esta tendência varreu todos os restantes países da Europa, incluindo o Portugal de Salazar.

Na visão organicista todas as partes contam, o indivíduo singular e as instituições são valorizados, a sua iniciativa autónoma e a sua criatividade promovidas, a tendência da sociedade vai no sentido do incremento da diversificação, da pluralidade e da complexificação. Contudo, como é óbvio, e à semelhança do que também acontece com os organismos vivos, a importância dada à sociedade civil e à livre iniciativa dos cidadãos neste modelo de sociedade, não significa negar a necessidade de mecanismos de autorregulação. Pelo contrário, reforça essa necessidade, mas ao mesmo tempo torna também a liberdade um bem mais precioso.

O modelo da nossa sociedade ainda está profundamente impregnado da velha visão do mundo mecanicista. O preconceito contra a actividade económica privada e o seu êxito, e a obsessão pelo seu controlo, que já existiam no tempo de Salazar, não deixaram de se manter vivos depois do 25 de Abril, e, paradoxalmente, parecem emergir nos dias de hoje com vigor reforçado. A livre iniciativa dos cidadãos é olhada com desconfiança, senão mesmo com hostilidade, sendo-lhe muitas vezes criados obstáculos, e, em muitas áreas, são privilegiadas as grandes máquinas institucionais, burocratizadas, controladas a partir do poder central ou de outras estruturas também mais ou menos centralizadas, que funcionam sem qualquer autonomia significativa, na base de funcionários mais ou menos passivos e submissos, e em que a criatividade é tudo menos estimulada.

Apesar disso, mesmo entre nós, a iniciativa dos cidadãos emerge por todo o lado, facilitada pela revolução digital e pelas possibilidades de ligação em rede que ela permite. Num certo sentido, a tecnologia digital veio permitir simular a nível das sociedades humanas o que se passa a nível das moléculas. A explosão da “auto-economia”, cada vez mais diversificada, é um bom exemplo desta transformação. Esta evolução torna muito evidente o contraste entre políticas baseadas em princípios rígidos e dogmáticos, parados no tempo desde há muitas dezenas de anos, e a flexibilidade e plasticidade que a vida económica da época digital exige.

Ilya Prigogine escreveu há já alguns anos: “The future is not determined. Especially in this time of globalization and the network revolution, behaviour at the individual level is the key factor in shaping the evolution of the entire human species. Just as a few particles can alter the macroscopic organization in nature to show the appearance of different diassipative structures. The role of individuals is more important than ever”. Significa isto que os princípios do liberalismo e da livre iniciativa são mais importantes do que nunca? Só posso achar que sim.