Cloud and Crowd, são dois conceitos fundamentais, no topo e na base da cadeia de valor do tecno-capitalismo. A clowd é uma metáfora invertida, sugere leveza, mas é muito pesada, pois reúne infraestruturas de rede, centros de dados, plataformas digitais e market-place quase todos sob a batuta de protocolos algorítmicos. No final, contra todas as aparências, o funcionamento da tecnologia cloud contempla-nos com uma fortíssima pegada ambiental que a ideologia cloud procura, na medida do possível, disfarçar e dissimular. O Senhor da Clowd é denominado uma Big Tech do tecno-capitalismo, um ator hegemónico que se tornou uma realidade através de uma santa aliança entre o grande capital financeiro e o capital tecnológico com origem primordial no ecossistema tecnológico de Sillicon Valley na Califórnia. Quanto ao conceito de crowd, ele remete-nos para a multidão global de servidores, utilizadores e consumidores da internet que a cloud foi arregimentando e condicionando à medida que foram sendo introduzidos no sistema de redes e plataformas globais das Big Tech.

No plano operacional do tecno-capitalismo, entre a cloud e a crowd forma-se e opera uma cadeia de valor verticalizada que cria riqueza e distribui rendimento entre os seus incumbentes principais. E quem são esses incumbentes ou agentes principais?

No topo, no ciberespaço da cloud, estão, agora, as sete magníficas Big Tech, a saber, Apple, Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft, Nvídia, Tesla, que manobram as suas plataformas e algoritmos e extraem deles as suas rendas por via do funcionamento dos chamados mercados bifaces. Numa face temos o acesso gratuito dos utilizadores aos conteúdos que, assim, debitam informação pertinente e pessoal, também gratuita, para a plataforma. Na outra face, temos o aluguer intensivo de espaço publicitário ao universo empresarial e a customização intensiva dos utilizadores clientes.

Na base da cadeia de valor estão os trabalhadores e a prestação de serviços feita pelos trabalhadores independentes, cada vez mais uberizados e cada vez menos contratualizados e sindicalizados, auferindo salários baixos e rendimentos intermitentes.

No centro da cadeia de valor vamos encontrar o capital industrial, produtor de bens e serviços, em processo crescente de automação e robotização para impedir a queda dos lucros industriais e comerciais, muitos deles, agora, também, em processo de deslocalização geográfica devido às mudanças drásticas introduzidas nas políticas tarifárias e comerciais cada vez mais instáveis. No centro da cadeia de valor encontramos, ainda, aquela parcela de rendimento que é transferida para o Estado por via de taxas e imposto e que a política fiscal e a política de regulação tentam monitorizar e controlar, dada a crescente evasão fiscal e extraterritorialidade praticadas pelas Big Tech com a consultoria direta dos grandes fundos de investimento e capital de risco.

Ora, como sabemos, esta distribuição de valor é extraordinariamente desigual e perturba fortemente as relações de poder no interior das cadeias de valor do tecno-capitalismo, a começar, desde logo, pela reconversão do capitalismo industrial que precisa de recuperar os seus lucros para fazer o reinvestimento de modernização. Estas perturbações agravam-se na presente conjuntura e são devidas, não apenas a alterações tarifárias substanciais e aos novos alinhamentos geopolíticos e geoeconómicos, mas, sobretudo, devido a uma extração/expropriação desproporcionada e obscena do excedente gerado na cadeia de valor por parte das Big Tech. Mais grave, ainda, o modelo cloud and crowd das Big Tech assenta num casamento de conveniência entre uma corporação de plutocratas e um regime político autocrata onde tudo se parece subsumir ao solucionismo tecnológico (veja-se a função do DOGE na atual administração americana). É aqui que nos encontramos, perante um duopólio do sistema tecno-digital, que se traduz por um confronto geopolítico global entre, de um lado, a via neoliberal do capitalismo financeiro e tecnológico e, do outro, a via do capitalismo de Estado e da ditadura do partido único.

Aqui chegados, confrontados com este duopólio global, estamos perante uma grande constelação geoestratégica, geopolítica e geoeconómica que emerge como o núcleo duro do atual regime tecno-digital. Esta constelação geoestratégica diz respeito ao controlo de segurança de infraestruturas críticas, a produção de chips e semicondutores essenciais, o controlo de materiais e terras raras onde quer que se encontrem, a investigação e desenvolvimento de novos dispositivos tecnológicos não apenas para as guerras híbridas do ciberespaço, mas, também, para a indústria de defesa e segurança da próxima geração. Dito de uma forma mais diplomática, em causa estará, doravante, uma putativa relação de reciprocidade deste duopólio, isto é, entre o capitalismo neoliberal das Big Tech e os grandes fundos financeiros ocidentais e o capitalismo de Estado e do partido único liderado pela China e as suas Big Tech correspondentes.

Ora, é a projeção global deste duopólio que marcará, doravante, os futuros alinhamentos geopolíticos e geoeconómicos, assim como as próximas guerras de procuração motivadas pelas exigências impostas pelos elementos da Grande Constelação. A terminar, podemos dizer que o capitalismo tecno-digital acelerou as transformações sociopolíticas e socioculturais e, mesmo, socio-antropológicas, onde todos experimentamos uma espécie de vertigem existencial e a corrosão do carácter, um sentimento de perda do sagrado e do espiritual e onde o saber não tem legitimidade reconhecida nem peso específico para propor um projeto político de uma nova sociedade do conhecimento e dos comuns. Acima de tudo, o modelo Cloud and Crowd de capitalismo tecno-digital não pode ser, como os próprios conceitos parecem expressar, um espetáculo de poder cesarista, por um lado, e por outro, uma operação de cinismo grotesco de disfarce e dissimulação no jogo dos mercados e das redes. Mas eles têm mais poder do que os próprios Estados nacionais e uma acumulação de riqueza obscena que envergonha a nossa condição humana.