A pergunta não pertence apenas ao campo da ciência política. Pertence também ao campo da psicologia política e evolutiva. Como foi possível colocar à frente de um dos países mais avançados do mundo, com autoridade sobre o maior aparelho militar do planeta e capacidade para ordenar o uso de armas nucleares, um homem impulsivo, agressivo, profundamente autorreferencial e aparentemente incapaz de reconhecer uma derrota?

A resposta mais fácil seria atribuir tudo à ignorância dos eleitores. Mas seria uma explicação muito pobre e, seguramente, errada. Além de intelectualmente preguiçosa, impedir-nos-ia de compreender o fenómeno. As pessoas não votam apenas com base numa avaliação abstrata da competência dos candidatos. Votam de acordo com interesses, identidades, medos, ressentimentos, lealdades e perceções sobre quem as poderá proteger ou devolver-lhes aquilo que julgam ter perdido.

A democracia também não foi concebida para selecionar necessariamente os cidadãos mais competentes, equilibrados ou moralmente aptos. Já escrevi sobre isso aqui. Seleciona quem consegue mobilizar a coligação eleitoral necessária para vencer. A vitória eleitoral confere legitimidade política, mas não constitui um certificado de competência, equilíbrio emocional ou carácter. Confundir estas duas coisas é atribuir ao método democrático uma capacidade de seleção que ele nunca possuiu.

Durante muito tempo, os partidos funcionaram como filtros. As suas estruturas, elites e regras internas dificultavam a chegada ao topo de candidatos considerados perigosos, impreparados ou incapazes de respeitar certos limites. Esses filtros nunca foram perfeitos, evidentemente, mas existiam. A transformação das primárias, a fragmentação dos media e o crescimento das redes sociais enfraqueceram-nos. Num mercado político dominado pela atenção, quem provoca, indigna e ocupa permanentemente o espaço mediático parte com vantagem.

Trump compreendeu esse novo ambiente melhor do que os seus adversários. Antes de ser candidato, já era uma personagem. Décadas de autopromoção e a projeção televisiva no programa The Apprentice apresentaram-no a milhões de americanos como a personificação do êxito, da riqueza e da decisão. A personagem pública antecedeu o político e acabou por engoli-lo. Quando entrou na política, muitos eleitores já não avaliavam apenas um candidato. Reconheciam uma figura familiar que parecia confirmar aquilo que dizia ser.

A ciência política ajuda a compreender outra parte do fenómeno. A polarização transformou as eleições numa escolha entre identidades hostis. Nestas condições, o voto deixa frequentemente de exprimir entusiasmo pelo nosso candidato e passa a exprimir rejeição do candidato adversário. Muitos americanos não votaram apenas em Trump. Votaram contra os democratas, as elites políticas e culturais, a imigração, a globalização e uma ordem social na qual já não se reconheciam.

A isto chama-se, em ciência política, partidarismo negativo. A identidade política é alimentada menos pelo amor aos nossos do que pela aversão aos outros. Quando o adversário é visto como uma ameaça existencial ao país, aos valores, ao modo de vida ou ao estatuto do grupo, quase qualquer candidato do nosso lado se torna preferível. Os defeitos são relativizados, desculpados ou reinterpretados. Não se pergunta se o candidato é adequado em termos absolutos. Pergunta-se se é a arma mais eficaz contra o outro campo.

Trump realizou ainda uma operação politicamente extraordinária. Apesar de multimilionário, apresentou-se como representante dos esquecidos contra o sistema. Não precisou de ser semelhante aos seus eleitores. Bastou-lhe convencer muitos deles de que combatia os mesmos inimigos. As acusações, os processos e os ataques das instituições não enfraqueceram necessariamente essa imagem. Para muitos seguidores, confirmaram-na. Se o sistema o atacava com tanta insistência, então talvez fosse porque ele representava uma ameaça real para esse sistema.

É aqui que a psicologia evolucionista acrescenta uma outra camada tão importante como a primeira. A liderança e a adesão a líderes são fenómenos muito anteriores aos Estados modernos e às eleições democráticas. A nossa mente transporta mecanismos psicológicos moldados durante milhares de anos de vida em pequenos grupos, onde a escolha de quem seguir podia fazer a diferença entre vencer um conflito, encontrar recursos ou sucumbir perante um grupo rival.

A investigação distingue, de forma simplificada, duas vias para a liderança. Uma assenta no prestígio, na competência reconhecida e na deferência voluntária. Outra assenta na dominância, na intimidação e na capacidade de impor custos. O psicólogo Mark van Vugt tem explorado esta distinção no âmbito da liderança evolucionista. Os trabalhos de Lasse Laustsen e Michael Bang Petersen mostram, por sua vez, que a preferência por líderes dominantes tende a aumentar quando as pessoas percecionam conflito, ameaça e competição entre grupos.

Isto não significa que exista um mecanismo automático que obrigue pessoas ameaçadas a escolher líderes autoritários. Significa que o contexto altera o valor atribuído a determinados traços. Em tempos relativamente pacíficos, a agressividade, a imprevisibilidade e a falta de autocontrolo podem parecer perigosas. Quando o mundo é apresentado como uma arena hostil, os mesmos traços podem ser reinterpretados como força, coragem e capacidade de proteção.

Assim, a arrogância transforma-se em confiança. A agressividade em determinação. A ausência de escrúpulos em coragem para enfrentar o sistema. O narcisismo em sinal de grandeza. A imprevisibilidade em vantagem perante os adversários. E a linguagem rudimentar pode até ser percebida como autenticidade, sobretudo por contraste com o discurso calculado, prudente e frequentemente vazio dos políticos profissionais.

As transgressões de Trump também funcionam como sinais. Cada regra violada demonstra aos seguidores que ele não pertence ao mundo convencional da política. Cada insulto mostra que está disposto a dizer aquilo que outros apenas pensam. Cada conflito com os media ou com as instituições reforça a imagem do combatente cercado por inimigos. Aquilo que, para uns, prova a sua inadequação, para outros confirma a sua independência.

Trump não oferece apenas propostas políticas. Oferece identidade, proteção tribal e a promessa de restaurar o estatuto perdido. O célebre Make America Great Again contém uma narrativa completa. Afirma que houve um passado de grandeza, que essa grandeza foi roubada e que existe alguém suficientemente forte para a recuperar. Não é necessário determinar com precisão quando existiu esse passado ou quem o destruiu. Basta despertar a sensação de perda e identificar os culpados.

É também por isso que os fracassos de Trump raramente são reconhecidos como fracassos pelos seguidores mais fiéis. Se vence, prova que é extraordinário. Se perde, foi traído. Se é acusado, está a ser perseguido. Se é condenado, o sistema teme-o. Este tipo de narrativa é praticamente imune à refutação porque todos os acontecimentos, mesmo os desfavoráveis, são incorporados como novas provas daquilo em que já se acreditava.

Nada disto exige um diagnóstico clínico à distância, que seria cientificamente imprudente. Basta observar o estilo público e os incentivos que o sustentam. A grandiosidade, a necessidade de admiração e a extrema sensibilidade às ameaças ao estatuto são visíveis no comportamento político. Mas o problema mais importante não consiste em determinar o que se passa na mente de Trump. Consiste em compreender por que razão esse estilo encontrou procura eleitoral.

As instituições americanas partiram durante muito tempo do princípio de que os partidos, os eleitores, o Congresso, os tribunais e as normas informais se limitariam mutuamente. Porém, as instituições não funcionam no vazio. Dependem de pessoas dispostas a respeitar regras que nem sempre podem ser impostas pela força da lei. Quando a lealdade partidária se sobrepõe à lealdade institucional, os mecanismos de contenção tornam-se mais frágeis.

O acesso à presidência e, por consequência, à autoridade nuclear não depende de uma avaliação psicológica independente. Depende do resultado eleitoral e dos requisitos constitucionais. Pressupõe-se que os partidos, os eleitores e as instituições realizem previamente a seleção necessária. Trump revelou que esse pressuposto pode falhar ou, talvez de forma ainda mais inquietante, que os critérios usados por milhões de eleitores podem ser muito diferentes daqueles que os observadores consideram desejáveis.

Se calhar, comecei mal logo no título. A pergunta realmente importante talvez não seja como puderam os eleitores americanos ignorar aquilo que Trump é, mas por que razão tantos viram precisamente nele aquilo de que julgavam precisar.

Trump não criou sozinho o ressentimento, a polarização, a desconfiança nas instituições e o sentimento de perda de estatuto. Soube reconhecê-los, explorá-los e personificá-los. Nesse sentido, é menos uma anomalia inexplicável do que um produto extremo de condições políticas, sociais e psicológicas que já existiam.

Compreender Trump é, por isso, menos importante do que compreender a sociedade que fez dele uma resposta possível e, para tantos milhões de pessoas, uma resposta desejável. Porque afastar um homem pode resolver uma eleição. Não resolve as condições que tornaram possível a sua escolha. Enquanto essas condições permanecerem, poderá mudar o nome, o rosto e o estilo. Mas a procura por alguém semelhante continuará disponível.