Isto poderia ser o título de um ensaio sobre a arte contemporânea de estar em todo o lado e em lugar nenhum, mas só que não…
Há de facto uma sensação que se tornou, paradoxalmente, das mais democráticas do nosso tempo: a de estarmos sempre disponíveis e raramente, verdadeiramente, presentes. Não é exclusiva de quem cuida, mas em quem cuida atinge uma intensidade quase litúrgica, uma espécie de vigília permanente em que o corpo está no posto, o telefone vibra no bolso e a mente, essa entidade ingrata, já partiu há muito para a tarefa seguinte. Quem trabalha em saúde conhece bem este estado de semi-existência: presente o suficiente para assinar a folha de presenças, ausente o suficiente para não recordar, três minutos depois, o nome de quem acabou de atender.
A disponibilidade como nova forma de servidão!
Zygmunt Bauman cunhou a expressão “modernidade líquida” para descrever um mundo em que tudo o que era sólido – instituições, vínculos, identidades- se dissolveu em fluxo permanente. Os profissionais de saúde tornaram-se, neste enquadramento, talvez o exemplo mais acabado dessa liquidez: disponíveis vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, ainda que formalmente “de folga”, porque a folga, hoje, é apenas um eufemismo administrativo para “ainda contactável, mas com menor probabilidade de resposta imediata”.
Byung-Chul Han, com a fineza cirúrgica que lhe é própria, descreveu o sujeito contemporâneo não como reprimido por uma disciplina externa, mas como explorador de si mesmo, voluntariamente entregue ao excesso de positividade e de produtividade até à exaustão. Não precisamos de um capataz a vigiar-nos; bastam-nos a notificação do telemóvel, o sentido de dever e aquela vozinha interior -treinada durante anos de formação clínica – que sussurra que descansar é, de alguma forma, uma forma sofisticada de negligência. O resultado, segundo o autor, é uma sociedade do cansaço onde a fadiga deixou de ser sinal de limite e passou a ser estatuto, quase um troféu moral: “estou esgotado, logo sou indispensável”.
A multitarefa: ou a ilusão de estarmos em todo o lugar!
Há ainda a questão, deliciosamente irónica, da multitarefa. Convencemo-nos de que conseguimos, em simultâneo, escrever uma nota clínica, responder a uma mensagem urgente, supervisionar um estudante e manter, com a outra metade do cérebro, uma conversa empática com o doente à nossa frente. A evidência cognitiva é, infelizmente, menos lisonjeira do que a nossa autoimagem. Diversos investigadores em neurociência cognitiva – entre os quais se destaca o trabalho de Earl Miller sobre os limites da atenção humana – demonstram de forma robusta, com insistência aborrecida, que o cérebro não processa tarefas em paralelo, mas alterna entre elas a grande velocidade, pagando em cada alternância um pequeno imposto cognitivo. Multiplicado ao longo de um turno de doze horas, esse imposto torna-se uma hipoteca: estamos sempre a fazer qualquer coisa, mas raramente a fazê-la bem, e quase nunca a fazê-la com a presença que, paradoxalmente, é o próprio fundamento ético do cuidado.
Nicholas Carr, ao analisar os efeitos da hiperconectividade digital sobre a cognição humana, alertou para um fenómeno que qualquer profissional de saúde reconhecerá com um sorriso amargo: a tecnologia que prometia libertar-nos tempo tornou-se a principal devoradora desse mesmo tempo, fragmentando a atenção em estilhaços cada vez mais pequenos, até que a própria capacidade de sustentar um pensamento contínuo se atrofia por desuso- como um músculo que deixou de ser solicitado.
A presença ausente: o paradoxo clínico!
E chegamos, então, ao cerne quase trágico da questão: estar disponível tornou-se sinónimo de estar presente, quando na verdade são fenómenos praticamente opostos. Sherry Turkle documentou, com rigor etnográfico notável, como a permanente conectividade digital criou uma geração- e diria eu, também uma profissão – que está “junta, mas sozinha”. Estamos no quarto do doente, sim, mas uma fração de nós já está na próxima consulta, no relatório em atraso, na mensagem que pisca no canto do ecrã. A presença física tornou-se, em muitos contextos clínicos, um simulacro: o corpo branco-vestido que ali está, mas cuja atenção já fez o check-out emocional há vários minutos.
Hartmut Rosa, no seu estudo sobre a aceleração social, oferece talvez a chave mais lúcida para este enigma: vivemos numa época em que a aceleração técnica – mais rápida, mais eficiente, mais conectada – não nos trouxe mais tempo livre, mas sim a compressão de cada vez mais experiências no mesmo intervalo temporal, gerando aquilo que o autor designa por alienação temporal: a sensação de que o tempo nos escapa por entre os dedos precisamente porque o tentamos preencher até ao limite. Em saúde, este fenómeno tem um nome clínico, sóbrio e burocrático: carga de trabalho. Tem também um nome mais humano, e mais incómodo: exaustão moral, a erosão silenciosa daquilo que nos levou, em primeiro lugar, a escolher cuidar de outros.
Da ironia ao convite!
Há algo de profundamente cómico – no sentido mais trágico da palavra – nesta equação: prometemos disponibilidade total e entregamos presença parcial, como quem assina um contrato de fidelidade eterna e depois passa a vida a olhar de soslaio para o telefone. Christina Maslach, pioneira nos estudos sobre burnout, identificou há décadas os três pilares desta erosão – exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização profissional – e é difícil não reconhecer, em cada um destes pilares, um pouco da nossa própria experiência quotidiana: cansados, distantes do próprio trabalho que nos define, e a perguntarmo-nos, silenciosamente, se ainda fazemos alguma diferença.
Talvez o desafio não seja, como o discurso institucional tantas vezes sugere, “estar mais disponível”. Talvez seja exatamente o oposto: recuperar a rara e quase subversiva capacidade de estar, ainda que por breves minutos, integralmente presentes – sem o telefone no bolso a vibrar como uma consciência paralela, sem o pensamento já a fugir para a tarefa seguinte. Estar presente, hoje, tornou-se um ato quase de resistência. E talvez seja precisamente essa resistência – pequena, silenciosa, indisciplinada – que devolva ao cuidado em saúde aquilo que a disponibilidade permanente, com toda a sua eficiência aparente, lhe tem vindo lentamente a roubar: o tempo de, verdadeiramente, olhar para quem ali está.
Liturgia da resposta imediata!
Existe também hoje uma curiosa inversão moral que raramente é discutida. Durante séculos, a presença significava atenção. Significava estar verdadeiramente diante de alguém, disponível para escutar, compreender e responder. Na cultura digital do trabalho contemporâneo, sobretudo em saúde, a presença foi substituída por um indicador muito mais simples e quantificável: a rapidez da resposta.
O bom profissional já não é necessariamente aquele que escuta melhor, reflete melhor ou decide melhor. É frequentemente aquele que responde mais depressa. O tempo de reflexão passou a ser confundido com hesitação; a ponderação tornou-se suspeita; a indisponibilidade, mesmo momentânea, aproxima-se perigosamente da heresia organizacional.
Criámos, sem dar por isso, uma espécie de liturgia da resposta imediata. O telemóvel vibra e sentimos a obrigação quase pavloviana de verificar. Surge uma mensagem às 22h47 e o silêncio de algumas horas parece exigir justificação formal. Um correio eletrónico enviado durante o fim de semana transporta consigo uma expectativa tácita de vigilância contínua. Não existe uma ordem explícita para responder; existe algo mais eficaz: a interiorização da expectativa de que estaremos sempre acessíveis.
O resultado é extraordinário na sua ironia. Multiplicámos exponencialmente os canais de comunicação para facilitar a colaboração e acabámos por reduzir drasticamente a qualidade da atenção disponível para cada interação. Quanto mais comunicamos, menos conversamos. Quanto mais contactáveis nos tornamos, mais difícil se torna encontrar alguém verdadeiramente presente.
Talvez por isso muitos profissionais experimentem uma estranha sensação de dispersão ontológica: estão permanentemente ligados a tudo e progressivamente desligados de si mesmos. Saltam entre plataformas, tarefas, notificações e solicitações, como se a fragmentação fosse uma competência profissional e não um sintoma coletivo. A agenda torna-se uma sucessão de interrupções socialmente legitimadas e a atenção – esse recurso finito, delicado e essencial ao cuidado – transforma-se no primeiro dano colateral da eficiência.
No limite, chegamos a uma absurda contradição contemporânea: profissionais rodeados de meios de comunicação sem precedentes e, simultaneamente, incapazes de oferecer cinco minutos de atenção indivisa a um doente, a um colega ou a si próprios. Não por incompetência ou falta de vontade, mas porque todo o ecossistema organizacional passou a premiar a disponibilidade e a negligenciar a presença.
E é precisamente aqui que reside a fraude silenciosa da cultura da hiperdisponibilidade: vende-se como compromisso aquilo que frequentemente é apenas fragmentação. Celebra-se como dedicação aquilo que, muitas vezes, não passa de incapacidade coletiva para estabelecer limites. Confunde-se acesso permanente com cuidado permanente, quando um dos maiores atos de cuidado clínico, humano e até ético, talvez continue a ser o mais difícil de todos: estar integralmente onde se está.
Talvez a pergunta decisiva para os profissionais de saúde do século XXI não seja quantas mensagens responderam, quantos processos encerraram ou quantas plataformas conseguiram monitorizar simultaneamente. Talvez seja muito mais simples e muito mais desconfortável: durante quantos minutos, hoje, estiveram verdadeiramente presentes? Porque uma profissão fundada no encontro humano corre o risco de se transformar numa sofisticada rede de presenças parciais, onde todos estão permanentemente acessíveis e ninguém está verdadeiramente disponível. E quando a disponibilidade substitui a presença, o que se perde não é apenas atenção: perde-se exatamente aquilo que torna o cuidado um ato humano, e não apenas um procedimento administrativamente eficiente.