Há “reflexões” que nos encontram no momento certo! A de um grande Amigo meu, foi substantivamente uma dessas. Transportada para o “papel”, na dor limpa e silenciosa da perda do seu querido pai, não como um adeus definitivo, mas como aquele tipo de despedida que nos obriga a aceitar que alguém parte apenas um pouco antes, nunca para longe, nunca para fora de nós.

O meu Amigo escreveu com a verdade de quem atravessou a reta final da vida ao lado de quem ama. E fê-lo com uma lucidez nítida que só existe quando o coração está duramente magoado mas íntegro, ferido mas atento ao que realmente importa. Na sua reflexão, encontrei não apenas a metáfora do compromisso, da vigilância silenciosa, da lealdade que não pede reconhecimento, mas também a coragem de olhar de frente para o que dói, embrutece, sem perder a ternura.

É por isso que quero agradecer-lhe.

Pela inspiração. Pela honestidade. Pelo gesto de transformar perda em palavra, e palavra em ensinamento.

O excerto que tomo a liberdade de partilhar com o mundo, e que a dada altura partilhou comigo e com poucos… o mesmo que me reteve o olhar e a alma, relembra que há guardiões discretos no nosso caminho, e que alguns permanecem connosco mesmo depois de partirem. Meu grande Amigo, esta vai por ti…

[“A lição do cão pastor.

O cão pastor simboliza de forma exemplar o compromisso. Não procura glória nem conforto. Cumpre o seu dever nos limites do terreno, atento, silencioso e quase invisível, vivendo na tensão permanente entre a paz e o perigo. 

Não pertence ao rebanho, nem é o lobo. Move-se pelo dever de proteger aqueles que não se podem proteger a si próprios. 

Não procura reconhecimento. A sua realização nasce da certeza de que o seu rebanho pode descansar em segurança, sabendo que alguém permanece desperto, atento e preparado. 

O que o distingue não é a agressividade, mas o propósito, o sacrifício e a lealdade. 

É a prontidão para enfrentar o lobo. 

Quando a noite se torna longa e incerta, o rebanho procura aquele que não vacila, aquele que avança quando outros recuam.”]

Ler estas palavras fez-me parar! Fez-me respirar mais devagar…a seu lado…

E, sobretudo, levou-me a reavaliar mais uma vez o papel do Enfermeiro no meio deste caminho que tantas vezes é feito entre a fragilidade e a coragem.

O cão pastor poderia ser um filósofo prático: vive entre o silêncio da montanha e o rumor distante dos lobos, sabendo que o seu trabalho só se nota quando falha. Se Fernando Pessoa tivesse sido veterinário, teria certamente escrito que o cão pastor “cumpre-se a si próprio, cumprindo os outros”.

E, no fundo, o Enfermeiro não anda muito longe disso!

O Enfermeiro não procura glória, até porque, se procurasse, não trabalharia em turnos que começam às 8h e parecem terminar em 2038. Não persegue aplausos, mas a maioria sabe que o seu dia correu bem quando ninguém precisou de dizer “chamem alguém depressa”. O seu palco é aquele corredor onde metade das pessoas dorme e a outra metade tenta convencer-se de que não está a precisar de ajuda.

O Enfermeiro vive naquela fronteira discreta entre a paz e o caos. Não pertence ao “rebanho”, embora passe o dia a cuidar dele; nem é o “lobo”, apesar de ter de enfrentar diariamente tudo o que ameaça a segurança dos outros: dor, incerteza, papéis que inexplicavelmente faltam, familiares exauridos e máquinas que decidem apitar sempre na pior hora.

Se o cão pastor vigia a noite, o Enfermeiro vigia turnos inteiros em que o tempo deixa de ser cronológico em que se espera, e passa a ser lógico e algo acontece. A madrugada no hospital tem um silêncio próprio: não é o repouso da natureza, mas o intervalo breve entre o que já se tratou e o que ainda pode acontecer. É ali que o Enfermeiro permanece desperto quando todo o resto tenta adormecer.

A agressividade não o define…o que o move é o propósito. É a capacidade quase “estoica”, para citar Marco Aurélio, de fazer o que precisa de ser feito mesmo quando ninguém vê. É a prontidão para enfrentar “o lobo”: um súbito agravamento, um susto e agudização inesperados, uma paragem cardiorrespiratória que transforma segundos em séculos.

E, como nos lembra Tolkien, “Nem todos os heróis usam capas”. Alguns usam sapatilhas confortáveis, farda branca, um estojo com material de bolso e um olhar que equilibra empatia com robustez clínica suficiente para convencer qualquer doente renitente a tomar a medicação.

No fim, tal como o cão pastor encontra sentido na tranquilidade do rebanho, o Enfermeiro encontra realização naquele instante em que o doente respira melhor, dorme mais tranquilo sem dor, ou simplesmente sorri porque alguém o tratou como pessoa e não como um número.

A lição é simples e profunda: não é a força que faz o guardião, mas o compromisso.

E é por isso que, quando a noite se torna longa, o mundo procura exatamente “quem nunca vacila”.

Esta foi uma possível interpretação… com a ajuda das palavras do meu Amigo, reequacionei uma vez mais, que a nossa missão não é definitivamente apenas tecnocrata. É, também ela, uma vigília constante. Como diria Rilke, “permanecer junto ao que é difícil”, mesmo quando tudo parece querer afastar-nos. Estar para os outros quando eles já não conseguem estar por si. Ser presença quando o mundo deles se estreita. Ser aquele olhar firme que não titubeia quando a noite se torna longa.

Por isso, obrigada, Amigo!

Pelas palavras, pela partilha, pela intrepidez tranquila que deixaste neste momento.

Esta compartilha não fala apenas de ti e do teu pai… fala de todos os que nos guardam, e de todos os que, como nós, tentam guardar alguém.

E, de certa forma, ensina-nos a ser melhores no que fazemos.

E, ainda mais importante, melhores no que somos!