Há uma hora nos hospitais, talvez a mais honesta de todas, em que o relógio deixa de marcar o tempo e começa a medir o heroísmo. É quando o sol se põe… os corredores se adensam em silêncios metálicos, e o Enfermeiro — esse alquimista da sobrevivência — se metamorfoseia em múltiplos seres, acumulando, sem pedir licença nem salário, os títulos de “médico”, “psicólogo”, “nutricionista”, “fisioterapeuta”, “técnico de análises clínicas”, “orientador espiritual”… e, se a ocasião o exigir, um pouco de santo também.

É o crepúsculo dos saberes e dos poderes, quando o hospital se converte numa espécie de república das competências, onde o Enfermeiro é o chefe de Estado, o governo e a oposição, tudo em simultâneo. À medida que o sol se despede, o Enfermeiro torna-se o eixo do mundo hospitalar, não por decreto, mas por necessidade. É nesse instante que o poder formal se dissolve, e o saber prático, aquele que realmente mantém as artérias do hospital pulsando, emerge como soberano.

Mas eis que o dia amanhece, e com ele regressa a liturgia institucional. O Enfermeiro, esse polímata noturno, volta a ser “apenas” Enfermeiro. As fardas voltam a ter hierarquias, os nomes voltam a ter crachás, e o saber volta a ser compartimentado como se a vida coubesse em organogramas. Os poderes reaparecem – os visíveis e os invisíveis – e o Enfermeiro regressa à sua posição original, como se o “mundo clínico” não tivesse passado a noite inteira “sustentado” por ele.

Há aqui uma ironia tão doce quanto cruel: o sistema parece depender mais inteiramente de quem menos reconhece. Enquanto outros países erguem pontes para atrair talento, nós abrimos portas para o deixar partir. E partem. Segundo a própria Ordem dos Enfermeiros, metade dos recém-formados no ano letivo anterior (há pouco terminado), já solicitou declaração para exercer fora do país. Metade!! Estamos a exportar excelência com a mesma ligeireza com que se despacha uma carta e a custo zero. Portugal forma “heróis nacionais” e a Europa agradece. 50% em média, dos Enfermeiros noviços já prepara as malas mesmo antes de terminar o curso. Nós pagamos a formação, outros colhem assim o talento. Chamam-lhe mobilidade; eu chamo-lhe suicídio assistido do Serviço Nacional de Saúde.

A cada avião que parte, leva-se assim mais do que um profissional; leva-se um pedaço da alma de um país que ainda não aprendeu a cuidar de quem cuida. A Europa e o mundo “esfregam as mãos”, com a elegância de quem descobriu que Portugal é a sua melhor “galinha dos ovos de ouro”.  Os Enfermeiros, formados num dos sistemas mais exigentes e prestigiados da OCDE, são cobiçados como se fossem trufas humanas: raros, valiosos e, infelizmente, mais apreciados fora do território que os fez crescer. O SNS está a “sair do país” e leva os profissionais com ele. Entre aplausos e despedidas, Portugal continua a exportar excelência em saúde – gratuitamente — enquanto assiste, de braços cruzados, à lenta alta médica do seu próprio sistema.

É urgente, pois, reaprender a atribuir valor. Valor real, não apenas retórico. Não se trata de conceder medalhas nem discursos inflamados no Dia do Enfermeiro, palmas em tempo de pandemia ou aberturas lisonjeiras e pontuais dos noticiários em “prime time”; trata-se de dignificar o exercício da profissão, de reconhecer que o saber não se mede pela cor da bata, pelo período do dia, mas pela profundidade e real significado do cuidado, alicerçado na melhor evidência científica produzida.

Se continuarmos a desvalorizar os que sustentam o país nas madrugadas silenciosas, arriscamo-nos a despertar um dia num país desertificado, com hospitais vazios “desta gente”, mas cheios de ecos do que já fomos.

Tratar bem as pessoas e leia-se todas as pessoas, profissionais de saúde em geral e enfermeiros muito em particular, não é apenas um gesto de humanidade; é uma estratégia de sobrevivência nacional.

Porque um país que não cuida de quem cuida está, literalmente, a adoecer por dentro.

E o pior sintoma é que ainda não demos conta disso!