Faltarão adjetivos para explicar a carreira de Cristiano Ronaldo aos nossos futuros netos. É certo, estarão lá todas as estatísticas, todos os troféus e todos os recordes (que teimam em continuar a aumentar) para ajudar-nos a verbalizar o que tantas vezes é difícil traduzir por palavras: o que Ronaldo nos faz sentir enquanto povo, enquanto pátria.

Mas essa é a grande beleza do desporto e a grande característica dos sobre-humanos: os seus feitos são tão extraordinários e mexem de tal forma connosco que os limites do vocabulário português não são suficientes para traduzir o que nos fazem sentir.

Tenho 25 anos e tinha 8 quando Ronaldo ganhou a sua primeira Liga dos Campeões, tingindo a vermelho de diabo a bola de ouro desse ano. Tenho 25 anos e tinha 14 quando Ronaldo conquistou a aguardada “La Décima” pelo Real Madrid; foi na minha adolescência que bateu recordes e ganhou tudo o que havia para ganhar, e tenho 25 anos quando conquista o terceiro troféu internacional pela seleção de todos nós.

Cristiano elevou-se ao estatuto de lenda global, escreveu o seu nome indelevelmente ao lado de Pelé e Maradona, e apresenta uma longevidade de carreira invejável. Ganhou aos 20. Ganhou aos 30. Ganha aos 40. Cristiano tem todos os motivos para ser considerado eterno, acima das efemérides do tempo, acima do imaginário distante de cada um, nome máximo do desporto que é a bola e que enquanto bola houver por esse mundo continuará a ser recordado, eternamente.

E contudo, Cristiano é humano. Cristiano é profundamente humano. Cristiano não quer ver o desempate por penaltis da final da Liga das Nações, como tantos de nós ontem à noite desviávamos os olhos da televisão com medo do pior. Cristiano, esse ser eterno no Olimpo do Futebol, diz que joga lesionado e se for necessário “parte uma perna”, aos 40 anos, para ganhar um jogo com a seleção. Cristiano, sem a velocidade e o drible de outrora, luta continuamente e sem se render contra o tempo, numa batalha que só os que são eternos ousam travar, sem nada a provar (talvez sem nada a ganhar com isso), mas talvez apenas com a crença (tão humana) que a idade é só um número e que quanto mais esforço ele meter mais conseguirá fazer com que o relógio ande para trás. E sim, é uma batalha perdida, que a grande maioria dos atletas não tenta sequer travar. Mas talvez a audácia de desafiar o tempo explique por si só porque estamos a falar de alguém que é eterno e simultaneamente humano, porque ignora todas as verdades pré-estabelecidas que com a sua idade e currículo, devia estar a gozar uma reforma dourada. Ele não. Ele ainda sonha. Ele é um Ser Humano.

Aos 40 anos, Cristiano Ronaldo marcou um golo na final da Liga das Nações e ganhou o terceiro título internacional pela Seleção Portuguesa. Aos 40 anos, Cristiano Ronaldo adapta-se e reinventa-se para chegar ao Mundial e tentar cumprir mais um sonho. E nós, sonhamos, ao seu lado, enquanto vemos em pleno 2025 a camisola 7 e o nome “Ronaldo” em cima, convictos que talvez, só desta vez, haja um Ser Humano que consiga mesmo… ser eterno.