A música Knockin’ on Heaven’s Door é daquelas músicas que quase dispensa apresentações.
Quem a não conhece?
Mesmo aqueles que poderão achar que não fazem ideia de que música estou a falar, de certeza que têm no cérebro neurónios que se iluminarão mal os primeiros acordes (ou então o refrão) lhes atinjam os ouvidos e percorram os nervos auditivos.
Há a versão balada rock, dos Guns N’ Roses, de 1991. Existe o formato reggae, do Eric Clapton, de 1975. E temos a música original, do Bob Dylan, do álbum de 1973, denominado Pat Garret & Billy the Kid.
E quase toda a gente já terá ouvido esta música, numa ou noutra destas versões, eventualmente em todas elas, ou então noutras versões ainda.
Mas será que alguém conhece a história completa relativa à música e à cena do filme para a qual foi feita?
Billy the Kid existiu mesmo. E foi morto a tiro por Pat Garrett em 1881. Um ano mais tarde, foi publicado um livro, escrito pelo próprio Pat Garrett, que narrava a história, conhecida até então, do Billy the Kid e das circunstâncias da sua morte. Eu tenho esse livrinho e já o li (várias vezes).
Quase 100 anos depois, em 1973, o realizador Sam Peckinpah fez um filme baseado no relato desse livro. O filme chama-se Pat Garret & Billy the Kid, tem como actores principais grandes estrelas, como James Coburn (Pat Garrett) e Kris Kristofferson (Billy the Kid). Outro actor importante no filme é um tal de Bob Dylan, que foi também responsável pela banda sonora. E é nessa banda sonora que surge pela primeira vez a tal música Knockin’ on Heaven’s Door, que já foi, desde então, alvo de tantas versões por tantos músicos, entre eles Eric Clapton e os Guns N’ Roses.
A música foi feita para uma cena específica e espectacular do filme. E só depois de a ouvirmos e vermos nesse contexto é que ela adquire todo o seu significado.
A dada altura do filme, Pat Garrett chega a uma terriola onde vive um velho xerife, gordo e incompetente, casado com uma senhora também gorda e mal-humorada. Só muito a custo é que o xerife Pat Garrett consegue obrigar o velho gordo preguiçoso a sair do seu conforto e força-o a acompanhá-lo a uma quinta abandonada, onde alguém lhe tinha dito que estaria o Billy the Kid. A esposa gorda mal-humorada também os acompanha.
Chegados à quinta, à tardinha, à beira de um ribeiro, com o Sol já quase a pôr-se, segue-se uma cena de tiroteio das antigas e boas.
O xerife gordo leva logo um balázio na barriga. A mulher dele, de caçadeira em punho (que abastece de cartuchos que retira do decote amplo), entra na casa da quinta, abrindo a porta à patada e abatendo sem dó nem piedade o desgraçado que lá está dentro. O Pat Garrett anda de volta de outro homem, que é quem sabe onde verdadeiramente está o Billy the Kid, e que se abrigou no telhado enquanto fazia a barba, com a cara ainda cheia de espuma.
Enquanto o Pat e o homem da espuma na cara se perseguem um ao outro, disparando e falando ao mesmo tempo, o xerife gordo ferido mortalmente na gorda barriga, vai-se arrastando até à beira do ribeiro, com o Sol a descer no horizonte e tudo a ficar com cor de lusco-fusco. A sua esposa, depois de ter friamente abatido o homem dentro da casa, vê o xerife ferido de morte a arrastar-se para a água, em direcção ao Sol poente. Deixa cair a caçadeira e vai a correr para ele, ficando no chão à sua beira, enquanto ele olha para ela e ela para ele e é aí que entra a música, que só nesse contexto atinge todo o seu significado.
“Mama take this badge from me
I can’t use it anymore
It’s getting dark too dark to see
Feels like I’m knockin’ on Heaven’s door”
O xerife Pat Garrett acaba por conseguir abater o outro homem, e só depois repara naquele casal à beira do ribeiro, ele a morrer lentamente (a bater às portas do Céu), ela (a Mama) a olhar para ele, a chorar, com o Sol a desaparecer devagar no horizonte…
“Mama put my guns in the ground
I can’t shoot them anymore
That cold black cloud is comin’ down
Feels like I’m knockin’ on Heaven’s door”
Vejam a cena (https://www.youtube.com/watch?v=yjR7_U2u3sM). Arrepiem-se. Não se vão arrepender. E aquela música nunca mais será a mesma.