Morte súbita: morte não violenta que ocorre nas 24 horas após os primeiros sintomas.

Eu já vi morrer mais pessoas do que consigo contar (e vi não morrer muitas mais, que melhor era terem-no feito). Após tantos anos e tantas mortes, já concluí que a morte não é algo assim tão mau. A forma de lá chegar é que é muitas vezes demasiado difícil.

Qual será a morte ideal? Se pensarmos em nós próprios e na inevitável morte que, algures no futuro, nos aguarda, como gostaríamos que fosse? “Ah, eu gostava de morrer a dormir, sem me aperceber, adormecia e depois já não acordava”, é aquilo que ouço muita gente responder. O problema é que não temos poder para influenciar o quando e o como vamos morrer. Ou será que temos?

Quando ele entrou, não o reconheci logo. Vinha ofegante, ligado pelo nariz ao tubo que lhe dava oxigénio a partir da máquina que o filho trazia a tiracolo. O filho empurrava a cadeira de rodas em que ele vinha sentado. Sentado e mesmo assim ofegante.

– Bom dia, doutor.

Foi só ao ouvir a voz que o reconheci. Agora parecia outra pessoa, porque dantes vinha sempre à consulta sozinho, pelo seu próprio pé, decidido e despachado, apesar dos seus 86 anos bem feitos. Dantes… O que tinha acontecido?

Foi o filho que contou enquanto ele ofegava e só fazia curtos comentários, entrecortados para respirar. Contou o filho, até porque ele não tinha dado por nada.

Fora no dia da comemoração do aniversário da filarmónica da terra, a filarmónica de que ele  fizera parte durante mais de 40 anos. Tinham-lhe arranjado uma cadeira na fila da frente, para assistir à cerimónia. Depois ficara numa mesa junto com os amigos da velha guarda. E comeram, beberam, contaram histórias de antigamente e riram das asneiras e disparates acontecidos a cada um ao longo de tantos anos.

– Foi um dos melhores dias da minha vida! – conseguiu dizer a custo na consulta.

E não se lembrava de mais nada do que tinha acontecido a seguir. O filho contou.

O pai caíra subitamente sobre a mesa, sem dar acordo de si. Os camaradas, dos anos e da mesa, gritaram. Por sorte (disseram eles), a sala estava cheia de bombeiros da terra, muitos deles também membros da filarmónica, e tudo aconteceu muito depressa. O pai foi deitado no chão, os bombeiros iniciaram logo as manobras de reanimação, aprendidas e praticadas tantas vezes. Tudo correra sobre rodas, a reanimação mantida, o telefonema ao INEM e a sua chegada, o transporte para o hospital, o desentupir das artérias ocluídas no coração. E o pai acabara por acordar, sem lesões muito graves na cabeça, embora tendo perdido um bocado do coração que, aos 86 anos ainda trabalhava bem, embora sem reservas, e que agora, ao perder o bocado que se tinha perdido, agonizava para conseguir bombear sangue suficiente para o mais básico, para estar vivo e respirar e não estar ofegante, mesmo em repouso. Como se estivesse sempre a afogar-se a pouco e pouco. Sempre.

– Graças a Deus que lá estavam aqueles bombeiros, doutor! – disse-me.

Eu não disse nada. Mas pensei naquilo que já pensei tantas vezes. Neste dilema, neste paradoxo permanente da Morte Súbita e da nossa relação com ela.

Morrer sem darmos conta é a melhor morte que há. Mas, por outro lado, uma paragem cardio-respiratória (a causa mais frequente de Morte Súbita) é a morte com maior potencial para se reverter com poucas ou nenhumas sequelas. É o mais parecido com o ressuscitar de um Lázaro: a pessoa está morta, e depois já não está e até poderá voltar exactamente ao mesmo que era dantes.

(Poderá… às vezes. Só 10 a 30% sobrevivem a uma paragem cardio-respiratória, e nem todos o fazem sem sequelas neurológicas, embora nos filmes e séries e na comunicação social seja transmitida a ideia de um sucesso muito superior.)

E é em nome da possibilidade de se ressuscitar um Lázaro, por completo e sem sequelas, que a Morte Súbita, aquela morte que pareceria a ideal, é também aquela que combatemos com maior energia, dedicando esforços e meios para a reverter, evitar e derrotar. E quanto maior é o nosso sucesso nessa luta, mais sobram sempre as mortes não súbitas, as mortes não ideais, as mortes que se prolongam no tempo, em dias, semanas, meses de sofrimento mantido, crescente, constante.

Se todos acabamos por morrer no fim, para quê tanto sofrimento até lá chegar? Para que havemos de sofrer tanto? Como todas as perguntas difíceis, não há uma só resposta, não existe uma explicação simples e completa. Mas pode haver causas parciais, razões que explicam parte da razão de sofrermos tanto para morrer. E eu acho que a nossa luta contra a Morte Súbita é uma delas.

Há tempos, num Congresso de Cardiologia, estavam em palco três médicos, dois mais novos e cheios de garra, de entusiasmo e de olhos brilhantes, e um mais velho, já quase reformado e jubilado, uma velha glória da Cardiologia.

Nessa conferência falava-se de tratamentos e intervenções nos doentes com doenças cardíacas variadas, invariavelmente graves e sérias como todas as doenças do coração, que parecem ter sempre a morte eminente associada a elas. E os médicos jovens referiam com entusiasmo as novas intervenções e os estudos que demonstravam uma redução significativa da mortalidade, através de uma diminuição brutal da Morte Súbita.

(evitar a morte, vencer a morte, o velho sonho da Humanidade, não? Mas à custa de que qualidade de vida? E à custa de que qualidade de morte?)

Após largos minutos de exposição e de algumas perguntas e respostas entre a audiência e os médicos do palco, já perto do final e do encerramento da palestra, o médico mais velho tomou a palavra. E disse.

Disse que, no seu caso pessoal, estavam proibidos de lhe fazerem tratamentos e colocarem aqueles dispositivos que evitavam a Morte Súbita. Que não ter Morte Súbita e morrer antes em insuficiência cardíaca, ofegante, com fome de ar, como se se afogasse aos poucos, mesmo que meses ou anos mais tarde e não antes, não valia a pena, não merecia o esforço, era exactamente aquilo que ele não quereria para si.

Ficou algum silêncio constrangedor na sala, com aquele balde de água fria deitado em cima de tanto entusiasmo e optimismo previamente exposto. A sessão foi rapidamente encerrada e todos se começaram a levantar. Eu ainda fiquei algum tempo sentado, a pensar no que fora dito.

Começámos por combater as mortes causadas por doenças infecciosas. Na mudança do século XIX para o século XX, a pneumonia era a principal causa de morte da Humanidade. O grande William Osler chamava-lhe a Capitã dos Homens da Morte. Hoje, as infecções respiratórias são responsáveis apenas por cerca de 6% das mortes em todo o Mundo.

Depois declarámos guerra às doenças cardiovasculares. Desde 1960 até hoje, conseguimos  reduzir as mortes por essas doenças em 60 a 80%. Mais tarde, enfrentámos o cancro. Desde os anos 90 até agora, conseguimos reduzir as mortes por esta causa em mais de 30%.

Nada disto é mau, tudo isto é bom. Mas, às vezes, parece que nos esquecemos que, de qualquer forma e no final, todos acabamos por morrer e que tal acontecerá de alguma forma. Se evitarmos as mortes infecciosas, cardiovasculares e por cancro, aumentaremos outras formas de terminar a nossa vida. A degenerescência neurológica é uma delas, e o Alzheimer e outras demências aumentaram quase 150% desde 1990…

Deveríamos reflectir sobre o facto de andarmos a reanimar pessoas, evitando a Morte Súbita (considerada por muita gente como o modo menos mau de partir), e assim condenando os reanimados a uma das outras formas de morte, tantas vezes em sofrimento mantido até lá chegarem. E evitamos estas mortes, que seriam sem sofrer, para depois discutirmos a eutanásia daqueles a quem não evitamos o sofrimento.

O senhor saiu da consulta, empurrado na cadeira de rodas pelo filho, a respiração audível, juntamente com o barulho ronronante da máquina do oxigénio, sua companheira indispensável agora. Ligeiramente a afogar-se todos os minutos do dia.

Fiquei a vê-lo e a imaginar como teria vivido os 86 anos tão bem vividos até àquele fim épico, terminar a vida com os amigos à mesa do salão da filarmónica, sem dor, ainda cheio de felicidade e riso, aquele fim que não o deixaram ter. E pensei no sofrimento e no final que ainda o aguardam.

Eu já vi morrer mais pessoas do que sou capaz de me lembrar. E eu também acho que a Morte Súbita é a melhor forma de partir. É como eu gostaria que fosse, quando chegasse a minha vez. Como adormecer e nunca mais acordar.

É por isso que eu não quero ser reanimado, se alguma vez tiver uma paragem cardio-respiratória. Afinal, é uma das poucas formas que temos de poder influenciar o quando e o como da nossa morte.

E cada um de vós, já pensou como gostaria que fosse consigo?