Em quase todos os filmes há um conteúdo explícito e um conteúdo implícito. O conteúdo implícito do filme Joker – que nunca é verbalizado, pelo menos de forma clara– é o que leva os espectadores a sair dos cinemas preparados para aderir a movimentos como o doscoletes amarelos, salvar o planeta ou pontapear violentamente caixotes de lixo.

O conteúdo explícito é o próprio Arthur Fleck, mais conhecido por Joker, uma das personagens mais carismáticas do universo DC Comics,excelentemente interpretado por Joaquin Phoenix. Basicamente conta a história da sua ascensão enquanto líder simbólico de uma revolta contra aos detentores de poder: de vítima de circunstâncias familiares – e aqui talvez resida um dos pontos fracos do filme, a possibilidade de se prever o que vai acontecer – à emancipação pessoal, partindo de um movimento interno até atingir o externo.

O conteúdo implícito ou oculto, as entrelinhas, ou seja, aquele que não é dito ou explicitado diretamente, mas que está subjacente em todo o filme, diz respeito ao modo como as sociedades atuais, por falta de confiança na política e nos políticos, se posicionam perante protestos que ocorrem ao redor de todo o mundo: a tendência e prontidão das pessoas para dividir o mundo entre eles e nós. Nós, cansados e injustiçados. Eles, os maus e opressores. Quando, na verdade, todos nós somos comparticipantes do sistema que se desenhou e modelou as nossas vidas.

Antes de mais, para avaliar o tempo em que vivemos, e que tipo de tempo queremos viver, comecemos por compreender o problema que enfrentamos na sua total dimensão e complexidade. É evidente que não há nem pode haver respostas lineares e fórmulas mágicas para problemas que são naturalmente complexos.

Em tempos difíceis como estes, a democracia não precisa mais de se virar contra si própria, através do capricho individual, em que se fazem exigências demasiadamente egoístas, às quais a democracia não está em condições de concretizar sem que para isso deixe de ser precisamente um democracia.

No final, Arthur Fleck, Joker, rendido perante a aclamação pública, compreendeu que pessoas cansadas de serem exploradas não querem lógica nem princípios; e também não querem o tipo de liberdade que a democracia liberal oferece. Na verdade, querem é um Joker que se eleve acima da lógica e da verdade e que lhes diga a todos o que os seus desejos mais íntimos são justos e, em última instância, que a sua loucura é perfeitamente legítima, dando origem ao populismo e aos Trumps desta vida.