Numa época em que se assiste à crença cega no poder da quantificação e da mensuração desenvolvidos pelo sujeito científico, assiste-se também à falência da racionalidade como meio de alcançar a verdade.

Por um lado, parece não se poder discutir nada racionalmente sem mostrar dados empíricos, não raras vezes para demonstrar lugares-comuns, e, por outro, assiste-se à emergência de discursos completamente irracionais, atacando o saber e o conhecimento sério, em nome de uma eventual teoria da conspiração qualquer ou de um tipo de negacionismo. Esta lógica anti-intelectualista que vem crescendo há anos, e que agora se apresenta sob o disfarce de um pseudo-ceticismo, materializa-se, entre outras coisas, na ascensão do populismo. Talvez um dos livros mais populares dos últimos tempos sobre o assunto seja A Morte da Verdade: A Falsidade na Era de Trump de Michiko Kakutani.

Penso que esta dicotomia tem várias razões de ser, designadamente o facto de vivermos numa sociedade de extremos, em que tudo é preto ou branco, onde racionalidade e irracionalidade convivem paralelemente em dimensões opostas, como se a racionalidade fosse incompatível com o quotidiano das pessoas, e só pudesse existir dentro dos limites do laboratório.

Vejamos: não existe apenas o racional objetivo e depois o seu oposto ou contrário. Sabe-se também que existe a possibilidade de discurso racional sobre o subjetivo, através, por exemplo, da razoabilidade das pretensões de validade, muito bem exposta na ética do discurso de Habermas.

O abandono e dificuldade de determinados grupos construírem (nomeadamente na universidade), como fizeram outrora, esse tipo de discurso, no qual a razão fundamenta algo sem recorrer a certas metodologias, sendo esse algo subjetivo e simultaneamente racional, parece explicar em grande medida a forma paradoxal e contraditória com que a generalidade das pessoas perceciona o conhecimento. Suponho também que essa dificuldade resida no medo de errar: errar tonou-se proibido; uma coisa de fracos.

No mundo das tribos que habitam as instituições que lidam por definição com a racionalidade, todos preferem ir por um caminho mais reto e seguro, até porque é este o modelo valorado pelos financiadores dos projetos de investigação. Já o discurso baseado em crenças e, no pior dos casos, em mentiras, será provavelmente a reposta que muitos encontram na ausência de referenciais teóricos e definições de pensamento crítico – no qual a Filosofia teria um papel fundamental se não tivesse sido praticamente posta de parte do debate público –, capazes de servir de guião para lidar com a subjetividade, acabando por optar pela simplificação, mais fácil de digerir, mas também pela alienação.

Há que prevenir, a todo o custo, o risco de nos tornarmos cada vez mais misólogos e, ganhando aversão aos argumentos, abandonar a reflexão fundamentada, a favor de uma sociedade de extremos, entre uma espécie de neopositivismo e o desprendimento total com a verdade, na qual o populismo encontra um dos seus principais ‘ganchos’ de atratividade.