Há um discurso recorrente, que vamos vendo expresso nos jornais e televisão, conversas de café, e hoje em dia também de forma muito prevalente nas redes sociais, sobre a culpa dos portugueses nos desafios e problemas do país. Neste discurso, repete-se a ideia, sob a forma de diferentes argumentos, que os representantes políticos que temos são maus e que a culpa é de quem votou neles. Em particular, repete-se incessantemente a ideia de que os portugueses são os culpados por todos os problemas do país, que possam de alguma forma ser atribuídos a estes representantes.

Existe, portanto, um discurso de culpabilização dos que votam e um apelo (mesmo que por vezes implícito) para que os portugueses não vão às urnas exercer o direito de eleger os seus representantes democráticos. Repetido até à exaustão, este discurso diminui e denigre aquilo que é o exercício da democracia através do voto, criando um afastamento dos processos eleitorais, e impactando naturalmente o envolvimento e a exigência dos eleitores. Afinal de contas, quem quer ser culpado por decisões políticas erradas, pelas consequências destas e ainda por eventuais crimes, cujas suspeitas se vão levantando a cada virar de página de jornal?

É importante notar que quando um eleitor vota num candidato / partido não está a mandatá-lo para tudo e mais alguma coisa. Não está a mandatar um representante político para eventualmente ser incompetente, conivente com interesses questionáveis ou mesmo corrupto e criminoso. O voto não atribui um mandato incondicional a um deputado ou a um presidente de câmara, por exemplo.

Se um deputado ou presidente de câmara, ou qualquer outro representante democrático, tiver uma conduta imprópria no exercício das suas funções a culpa é …desse mesmo representante democrático! A culpa não é de quem votou nele! Afirmar o contrário é inverter a realidade, é desculpabilizar a responsabilidade de quem é incompetente / corrupto e é culpabilizar quem exerce a democracia com o seu voto. Isto, naturalmente, demoniza o exercício de voto, afasta os cidadãos dos processos democráticos e cria um ambiente de impunidade: afinal se somos todos culpados, ninguém é culpado…

Naturalmente que um cidadão pode não querer atribuir o seu voto a nenhum dos candidatos / partidos que estão a concorrer numas determinadas eleições. Pode não concordar com o que estes se propõem fazer, ou como o pretendem fazer, pode até mesmo suspeitar da sua competência ou seriedade… ou simplesmente pode sentir que não conhece o suficiente para atribuir o seu voto. Nestes casos, o exercício da democracia pode ser feito com um voto em branco. Um voto em branco é um acto democrático que expressa a não concordância com as opções dos candidatos disponíveis. Um voto em branco expressa desacordo, e até mesmo protesto e exigência de mudança.

Vamos fazer um exercício: a esmagadora maioria dos portugueses vai às urnas nas próximas eleições e 80% votam branco… o partido Y tem 11% dos votos, o Z tem 6%, o K tem 2% e o partido W tem 1%. O partido Y obtém assim a maioria dos votos, consegue uma maioria parlamentar e assume o governo do país. Como se compreende, o partido Y irá governar com a legitimidade de 11% dos votos. E os outros 3 partidos ainda menos legitimidade teriam, pois todos juntos iriam representar 9% dos votos. Isto traduzir-se-ia numa declaração explícita de força dos portugueses que colocaria uma tremenda pressão nos representantes eleitos. Conseguem adivinhar a quem isto não interessa?

Ironicamente, quem decide não ir às urnas como forma de protesto pela discordância com as opções de voto disponíveis, acaba por na prática estar a legitimar os que irão ser eleitos. Pelo contrário, quem não se revê nos candidatos, e exige uma mudança nos representantes políticos, pode sempre deixar as conversas de café os protestos nas redes sociais e expressar essa sua opinião ao votar em branco. O voto – seja em qualquer um dos partidos ou em branco – é não só um direito e um dever, mas também um acto de exigência. Seria fantástico se esta exigência fosse expressa nas urnas no próximo dia 6 e não apenas nos posts e comentários nas redes sociais.

Docente e director do Global Master em Marketing do IPAM e membro da letsthink.global