Apesar de a taxa de poupança das famílias ter subido recentemente para 10,7% (anteriormente 10,1%), a maioria dessas poupanças permanece em produtos com rendimento muito baixo, geralmente inferiores à inflação ou próximos de zero (e.g. Depósitos a prazo, Fundos de tesouraria, etc). Este não é um fenómeno exclusivamente nacional. Em toda a Europa, mais de 11 biliões de euros em poupanças familiares estão paradas em contas bancárias com juro praticamente nulo (0,10%-0,25%).

É contra este pano de fundo que surge a mais recente iniciativa da Comissão Europeia: a criação de uma conta europeia de investimento, com condições fiscais vantajosas, acessível a todos os cidadãos europeus.

Para alguns, pode parecer apenas mais um incentivo para investir na bolsa. Mas, para quem observa mais de perto o ecossistema europeu de capital, é claro que esta medida se insere num plano muito mais ambicioso: a União da Poupança e do Investimento (SIU). Trata-se de uma estratégia desenhada para reconectar as poupanças dos europeus com o futuro económico do continente. E, se bem executada, pode ter um impacto real na vida de todos nós.

Uma resposta à estagnação
A Europa enfrenta um desafio estrutural: precisa de 750 a 800 mil milhões de euros por ano em investimentos adicionais para responder às exigências da transição energética, digitalização e segurança.

O capital necessário para este investimento existe. Está é parado. Está em contas bancárias e certificados de aforro. Está, acima de tudo, a ser subaproveitado.

Em Portugal, este padrão é ainda mais marcante. A maioria das famílias privilegia produtos financeiros ultra conservadores, como os Certificados do Tesouro. E, mesmo com a inflação a corroer o poder de compra, continua-se a poupar como se estivéssemos em 1995.

O resultado? As poupanças das famílias não se valorizam e o mercado de capitais em Portugal tem vindo a diminuir. Por exemplo, o número de empresas cotadas na bolsa de valores Euronext Lisboa caiu drasticamente, passando de 152 em 1990 para apenas 53 atualmente. Além disso, o último grande processo de entrada de uma empresa na bolsa (conhecido como IPO, Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial) foi o da Greenvolt, em 2021.

Mais literacia, menos estagnação
Investir continua a parecer arriscado para muitos. Mas há um risco maior: o de manter as poupanças estagnadas e ver o seu valor real diminuir.

Parte deste problema é de literacia financeira. E é por isso que escrevi um livro sobre o tema: Maria e o Segredo da Poupança. Porque acredito que compreender o dinheiro deve começar cedo, na escola e em casa. E porque, apesar de muitos tentarem politizar o tema, a literacia não pode ser um campo de batalha partidária. Tal como a literacia da saúde, sexualidade ou digital, trata-se de capacitar TODOS os cidadãos para viverem melhor, com autonomia e consciência.

Uma oportunidade para o ecossistema de inovação
Esta mudança de paradigma pode também trazer novas oportunidades para quem empreende em Portugal. Com mais capital a fluir para produtos de investimento, abre-se uma nova janela para:

  1. Startups acederem a capital de risco mais facilmente;
  2. Empresas captarem investimento fora de Portugal, sem tanta fricção regulatória;
  3. Bancos e seguradoras canalizarem mais capital para a economia real, com regras mais favoráveis;
  4. Melhores mecanismos de saída para investidores, aumentando a atratividade do investimento em empresas privadas.

Com mais de €8 mil milhões investidos em capital de risco pelo Banco Europeu de Investimento em 2024, que mobilizaram mais de €110 mil milhões para startups e scale-ups, a Europa está claramente a apostar neste caminho. Mas precisa que os cidadãos acompanhem essa mudança de mentalidade.

De espectadores a participantes
Não basta esperar que a economia melhore. Precisamos de ser parte ativa da transformação. Para muitos portugueses, esta nova conta de investimento poderá ser o primeiro passo. Um incentivo para experimentar, aprender e ganhar confiança.

Não se trata de nos tornarmos todos investidores profissionais. Trata-se de dar um passo consciente em direção a um futuro financeiro mais informado, mais dinâmico e mais conectado com a realidade económica do país.

E, se fizermos isto bem, talvez possamos transformar a nossa tradição de poupança numa nova geração de cidadãos-investidores,que não têm medo de investir no seu futuro, e no futuro de Portugal.

O Observador associa-se ao Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial, para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa.  O artigo representa a opinião pessoal do autor, enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.