Quem tiver o amor de achados arqueológicos de nulo interesse encontrará, procurando por alturas da coroação de Costa (em fins de 2015) e mais à frente, numerosos textos meus em que se previa a quarta falência do país.

Estava enganado. O futuro acontece sempre de apenas uma maneira mas há muitas de o imaginar; e a forma mais vulgar, e que segui, é projectar as tendências do presente à luz dos ensinamentos do passado.

O passado dizia que o PS não se poderia coligar com o PCP por este ser portador de uma doença infectocontagiosa que tinha sido contida, com confinamento, em 1975; e que governar à esquerda, na versão socialista local, queria dizer governar com défices e derrapagens. E como o país estava recuperado mas ainda combalido da receita troicana, não aguentaria novas doses de soarismo, guterrismo ou socratismo, muito menos apoiado pelo cinismo táctico do PCP, que milita para a destruição da economia capitalista, e pelo infantilismo do Bloco, que milita para o sucesso da mesma economia, mas muitíssimo justa, muitíssimo humana e muitíssimo igualitária. O que tem invariavelmente o defeito de provocar o atraso do país nas doses moderadas que tem havido e levaria ao esboroamento se houvesse condições políticas para chegarmos à perfeição venezuelana.

Porém, Costa tirou da manhosa cartola vários coelhos: comprou o voto dos funcionários dando-lhes um bodo relativamente modesto, sossegando-os quanto à manutenção dos lugares à mesa do Orçamento, e reduzindo-lhes o horário; sossegou o PCP permitindo-lhe a minagem do aparelho de Estado e produtivo que o seu vertiginoso declínio eleitoral, e a concorrência bloquista, estavam a ameaçar; amaciou o Bloco associando-se à engenharia social das causas fracturantes, em que aquela agremiação se especializou; e, sobretudo,  sossegou um eleitorado com a memória ainda fresca da bancarrota, e a convicção generalizada de que o país não é viável contra os ditames dos países louros, roubando ao PSD a sua principal bandeira, que era o equilíbrio das contas.

Isto tudo foi possível com dois golpes de sorte e a contratação de um vigarista. Os golpes de sorte consistiram na explosão da indústria do turismo, incentivada pela Al-Qaeda e o Daesh, pelas low-cost e pela moda, e correspondida pela iniciativa privada, que os princípios da gestão socialista do país não chegaram a ter tempo de destruir, por um lado, e a modificação da política do BCE, por outro; e o vigarista foi o celebrado Ronaldo das Finanças (o cognome foi-lhe conferido, por brincadeira, quando se apresentou numa parte gaga qualquer da UE de cachecol da Selecção de Futebol, sublinhando coloridamente o sorriso aparvalhado que é a sua marca de água, e depois replicado beatamente pela comunicação social portuguesa). Este portento passou a negociar orçamentos com as duas facções comunistas no Parlamento, a clássica e a folclórica, uma grande inovação.

Os orçamentos aprovados com fanfarra, porém, não eram executados senão na parte em que mexiam com os interesses das clientelas e pagamento de promessas. No mais, isto é, no investimento para conservar a capacidade de resposta de serviços essenciais, intervieram as famosas cativações, acompanhadas quando necessário de aumento do endividamento que não aparecesse ominosamente nas contas. E como isto, ainda assim, não fosse suficiente, proliferaram taxas e taxinhas e mil e um artifícios para o aumento da receita do Estado, que o demiurgo financeiro não cessou de imputar exclusivamente ao crescimento da actividade económica – para o qual contribuiu com zero de medidas positivas porque a fiscalidade predatória, opressiva e inquisitorial não viu senão reforços. Tudo isto com um pano de fundo de juros baixos, porque um italiano de génio inventou que não é preciso reformar nada – em crescendo um bocadinho o produto a dívida pública também pode crescer, desde que proporcionalmente menos, e o equilíbrio atingir-se-á quando ele estiver na condição de defunto, quem o apoiou também, e entretanto até pode ser que rebente tudo, porque o futuro a Deus pertence, mas enquanto o pau vai e vem folgam as costas.

Sucede que o troca-tintas está farto do Governo e quer dar à sola para um lugar onde não tenha de aturar as incomodativas vespas da Oposição, os joguinhos de poder com os parceiros incómodos, as maçadas da comunicação social, que mesmo servil como é dá trabalho a manipular, e a miséria da recompensa. E como se goraram as esperanças de um lugar ao sol da parasitagem europeia resta-lhe, em segunda escolha, o Banco de Portugal. Ganha-se bem, a responsabilidade é nula, as oportunidades de brilhar com discursos de chacha múltiplas, e a recondução garantida – se nem um desastre como o Governador que lá está, que presidiu com invejável cegueira a uma débacle sem precedentes, foi beliscado, fazer pior passou a ser uma proeza praticamente inalcançável.

E gerou-se, na aldeia lisboeta e nas das redes, uma polémica: Ai credo, que é um escândalo a porta-giratória do Governo para o Banco.

Que as entidades de supervisão em Portugal não supervisionam nada, é um dado adquirido; que sirvam para parquear políticos supranumerários e académicos inúteis, uma fatalidade; e que a porta giratória (que aliás não funciona só do Governo para as entidades, também de supervisionados sortidos para supervisores, e vice-versa) não deveria existir – uma evidência.

Mas o BdP não é o melhor exemplo: trata-se de uma agência estrangeira paga a peso de ouro para acolher centenas de inúteis pertencentes a uma casta obrigada a fingir a sua própria necessidade quando a principal missão são serviços de tradução de directivas congeminadas por outros aparelhistas longínquos. Que esteja lá, portanto, o Chico ou o Manuel, não tem realmente importância, desde que o miraculado não tenha caspa e saiba, nos momentos certos, dizer aquelas coisas ponderosas sobre os arcanos da economia que os profissionais bebem com unção.

Calhou por estes dias ouvir um programa de rádio. São três economistas com impecáveis credenciais académicas e discurso escorreito, moderados por um jornalista competente.

Um dos três é patriota e os outros dois europeístas. O patriota, porém, é socialista, isto é, julga que a desigualdade económica entre os cidadãos é um problema de capital importância e que a receita para o país crescer e vencer o seu atávico atraso implica o papel central do Estado, desde que seja administrado com a variedade particular de escolhas que acha apropriadas.

Os dois europeístas distinguem-se por detalhes, e quem for arguto entrevê em que águas políticas navegam. O patriota contrasta na medida em que o seu eurocepticismo, e as reservas quanto ao Euro e suas constrições, obrigam a conclusões substancialmente diferentes.

Se esta gente, porém, pertence a capelas do pensamento político identificáveis, sobra ainda assim uma razão para o Observador achar que estão particularmente qualificados para se pronunciarem de modo a que um paisano cidadão tenha vontade de lhes emprestar os ouvidos.

Qualquer dos três merece atenção de per si, mas não é uma coincidência a condição de economista que os aflige: esta classe, a dos economistas, fez com sucesso passar para a opinião pública a ideia peregrina de que são especialistas nos processos de criação de riqueza que, na ausência de guerras e outros males colectivos (e até com estes, que Deus nos ajude), são a principal preocupação do eleitorado.

Não são, claro, depositários de nenhuma ciência reconhecível na acepção comum da palavra. Se fossem, haveria entre eles, para graus semelhantes de inteligência e conhecimentos, unanimidade ou ao menos consenso sobre as escolhas de política económica que fazem os pastores da grei; os desastres económicos seriam evitados por um clamor da Academia, que os adivinhava e verberava, em vez de pilotados por gente com frequência albardada dos competentes diplomas; e nas suas vidas particulares evidenciariam alguma forma de lucidez que lhes garantiria o sucesso.

Considerações banais em torno das ciências sociais, incertas por natureza, dir-se-á; e erros necessários num percurso em direcção ao conhecimento e caracterização das leis económicas que regem as nossas vidas – afinal, sem alquimistas não teríamos chegado a físicos e químicos.

Isto sem dúvida: alquimistas, é o que são, muitos sabem-no perfeitamente, talvez estas três almas não o ignorem.

Era-lhes mesmo assim exigível mais desassombro: pronunciaram-se gravemente sobre o caso Centeno, reconhecendo ao colega a sua imaginária competência, um tique da classe – passo-te hoje a mão pelo pêlo, amanhã passas-me a mim; nem uma palavra sobre o quadro pletórico do BdP, que nenhuma função hoje justifica; nada sobre a chuva diluviana de normas para o sector bancário que a burocracia europeia produz; e nada de substancialmente crítico em relação à condução desastrada do país – tudo o que se fez e faz podia ser um bocadinho melhor, mas não muito.

Quando Portugal disputar com a Bulgária o último lugar na Europa (se, entretanto, a Albânia e a Bósnia-Herzegovina não aderirem) podemos contar com esta prestigiada classe para explicar o que correu mal. E dessa vez com autoridade: em juízos de prognose póstuma são realmente especialistas.