No verão passado, escapei do agito lisboeta e trabalhei, por algumas semanas, no pequeno município de Lousada. A cerca de trinta minutos do Porto, a região abriga um projeto pioneiro em Portugal chamado Carbono Biodiverso, que promove a preservação das árvores de grande porte, chamadas Gigantes Verdes. A ideia é simples: aqueles que desejam compensar os seus impactos ambientais – geralmente empresas ou indivíduos – contribuem financeiramente para a proteção dessas árvores, garantindo a continuação dos seus impactos positivos para o ecossistema.
Ao conhecer de perto essa iniciativa, surpreendi-me pela sua dimensão, já que o seu efeito vai muito além da captura de carbono. As Gigantes Verdes fazem parte da flora nativa e são cruciais para a manutenção hídrica local, a filtragem de poluentes do ar e a hospedagem de inúmeros seres vivos, como fungos e insetos. Essas árvores, portanto, ensinaram-me muito sobre um tema fundamental e que merece mais atenção: a importância da preservação da biodiversidade.
Quando se trata de sustentabilidade e alterações climáticas, os gases de efeito estufa geralmente são o centro das atenções, e com razão. Eles são uma peça central do atual aumento das temperaturas da Terra e a redução de suas emissões é urgente para controlarmos esse processo. No entanto, é preciso também discutir e pensar sobre outros elementos que compõem o nosso complexo sistema planetário.
A biodiversidade representa a variedade de seres vivos existente e todas as relações desenvolvidas por eles. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, ela é essencial para reduzir os impactos de eventos naturais extremos, controlar os efeitos das alterações climáticas e garantir inúmeros outros benefícios, como a qualidade do ar, da água e dos solos e a polinização. Além disso, a sua existência possui um valor intrínseco inestimável que, infelizmente, está em grande risco.
O Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP) indica que a atividade humana está por trás de alterações significativas em 75% dos ambientes terrestres e 66% das áreas oceânicas. Ainda, das cerca de 8 milhões de espécies de animais e plantas estimadas, um milhão já está em risco de extinção. Essa situação é preocupante não somente por perturbar a integridade da biodiversidade, mas também porque quando uma espécie ou ecossistema são eliminados de um local, a sua regeneração pode não ser possível.
Dentre os principais motivos para esta crise na natureza, o UNEP destaca cinco: as mudanças no uso do solo e mar; as alterações climáticas; a poluição; a exploração dos recursos naturais e a introdução de espécies invasoras. Não é simples explorar a origem deste fenómeno em apenas um artigo, mas é nítido que ainda nos falta consolidar a ideia de que o meio ambiente não é algo isolado e a sua interconexão com as atividades humanas é mais significativa do que pensamos.
Um bom exemplo para ilustrar esta situação são as cadeias de produção e consumo. Para suprir as atuais demandas materiais, a humanidade precisa de mais recursos naturais que o nosso planeta é capaz de oferecer. Em média, utilizamos o equivalente a 1.75 “Terras” por ano, número que tende a ser ainda maior conforme o nível de renda do país – como 2.9, em Portugal. E o impacto disso na natureza não se limita à quantidade excessiva de recursos que exploramos. O meio ambiente muitas vezes é o destino dos desperdícios e da poluição que resultam desse processo, aprofundando o impacto negativo em diversas espécies e nas relações ecológicas por elas desenvolvidas – o que, por fim, nos prejudica.
E de que forma é possível melhorar essa situação? Primeiro, como a biodiversidade representa um bem comum e a sua preservação ou degradação provoca efeitos na esfera coletiva, as políticas públicas são essenciais. Isso envolve promover o restauro de ecossistemas, fiscalizar e punir os responsáveis por danos ambientais, incentivar a literacia sobre esse tema, entre outros. Apesar do ainda lento progresso, marcos como a COP da Biodiversidade e a Lei do Restauro da Natureza demonstram que este tipo de evolução institucional é possível. Afinal, ela é primordial para definir os incentivos necessários à conservação do meio ambiente.
Outros agentes também podem (e devem) participar dessas soluções. As organizações que danificam a natureza já têm ao seu dispor inúmeras estratégias para reduzir o efeito de suas atividades mais impactantes e a consequente perda de biodiversidade, como a hierarquia de mitigação. Além disso, nós também podemos contribuir de inúmeras formas, seja cuidando melhor dos recursos que utilizamos e como os descartamos, escolhendo representantes políticos comprometidos com essa problemática, ou participando de iniciativas locais dedicadas à conservação ambiental, como a Verde, a Plantar Uma Árvore e inúmeras outras associações que atuam em Portugal.
Enfim, o importante é percebermos que a biodiversidade é um elemento único da Terra, vital para a nossa existência, e não podemos dar-nos ao luxo de perdê-la.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.