O começo do ano é sempre um momento de partida para muitos planos. Quando se trata de alterações climáticas, um dos projetos mais relevantes para 2026 é o desenvolvimento de um roteiro para o abandono dos combustíveis fósseis. Apoiado por cerca de 80 países, entretanto deixado de fora do texto final da COP30, o roteiro deverá tratar dos desafios relacionados a essa transição, considerando as dependências e necessidades de cada região.
A ausência de um plano deste tipo a nível internacional é surpreendente, sendo que os combustíveis fósseis estão entre os principais contribuintes para as alterações climáticas. Mas outro fator que choca é como as discussões sobre o tema ainda não são abrangentes o suficiente, concentrando-se em apenas parte do uso de petróleo, carvão e gás natural.
O que mais ganha destaque é, com razão, o seu uso “energético”, o que engloba os processos de combustão para transportes, geração de energia elétrica e aquecimento. Além de representar a origem da maior parte do impacto ambiental, essa categoria já vem sendo parcialmente endereçada pelo progresso notável das energias renováveis – destacado pela revista Science como o avanço do ano de 2025 – e os processos de eletrificação. Este desenvolvimento é suficiente? Ainda não: apesar de promissor, há muitos obstáculos a serem ultrapassados, como o aprimoramento de infraestruturas e a dificuldade de financiar tais projetos, sobretudo no Sul Global.
Mas há outros usos dos combustíveis fósseis que também devem ser tratados, e merecem mais atenção, se pretendermos reduzir de forma eficaz a dependência destes recursos. Muitas vezes nem sequer percebemos como eles são utilizados como matérias-primas em processos “não-energéticos” – um valor equivalente a cerca de 13% do seu total produzido.
Um exemplo clássico é o plástico, abundante em diversos setores, desde o alimentício até ao têxtil. Outros casos, talvez menos conhecidos, são produtos como fertilizantes, parafina, solventes, itens de higiene pessoal (fraldas e pensos) e inúmeros outros artigos que estão presentes no nosso quotidiano. E diferentemente do uso “energético”, em que há uma série de políticas públicas já estabelecidas e as tecnologias alternativas estão mais maduras, aprimorar o uso “não-energético” ainda está em fase embrionária.
Desenvolver novas maneiras de fabricar produtos tão cruciais – que historicamente utilizam matérias-primas fósseis – e em larga escala é complexo. Em primeiro lugar, requer um apoio à pesquisa científica, pois a inovação de processos produtivos é comummente feita por pesquisadores e pessoas experientes da indústria. Em seguida, o trabalho-piloto que se inicia em Universidades e laboratórios deve expandir-se de forma significativa, para suprir a demanda que é atualmente atendida pelos derivados de origem fóssil.
Além do tempo necessário para aprimorar o trabalho de pesquisa e inovação, outro recurso crucial é o financiamento. Porém, o que dificulta esse processo são os massivos subsídios direcionados aos combustíveis fósseis, responsáveis por reduzir artificialmente os seus preços. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o valor alcançou US$1.5 triliões mundialmente em 2022, apoiando consumidores e produtores, e aumentaria para US$7 triliões, se os custos sociais e ambientais do petróleo, carvão e gás natural fossem considerados na estimativa. Sem uma reforma nestes suportes feitos por governos – redirecionando-os a setores mais limpos, por exemplo – haverá uma clara dificuldade de viabilizar as tecnologias necessárias para reduzir a dependência aos combustíveis fósseis, sobretudo nos casos “não-energéticos”.
Apesar do impasse mencionado, algumas iniciativas já começaram a endereçar o abandono dos combustíveis fósseis de forma mais ampla. Uma delas é a Estratégia para a Bioeconomia da UE, baseada na utilização de recursos biológicos sustentáveis para a produção de biomassa, conversão de biomassa em produtos diversos (como plástico de base biológica e cosméticos à base de algas) e geração de bioenergia. O plano busca incentivar a inovação e o investimento nestas áreas e o desenvolvimento destes mercados dentro e fora da UE – facilitando a descarbonização e a circularidade da economia. Com resultados ainda a serem validados, a Estratégia pelo menos contribui para repensar os atuais modelos de produção e pode servir de base para novas políticas públicas nacionais e internacionais.
Assim, é importante percebermos que continuar a explorar e utilizar combustíveis fósseis é inconsistente com o bem-estar socioambiental das presentes e futuras gerações. Abandoná-los requer uma análise cuidadosa, que considere as especificidades de cada local e todas as suas aplicações, sejam elas “energéticas” ou “não-energéticas”. O progresso, por fim, está maioritariamente nas mãos dos governos e empresas – mas não podemos menosprezar o nosso importante papel de escolher as pessoas capazes de arquitetar as políticas públicas necessárias para esta mudança ocorrer.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.