Em julho de 2022, a Assembleia Geral das Nações Unidas definiu como um direito humano o acesso a um meio ambiente limpo, saudável e sustentável. Apesar da força simbólica desse marco, a interação profunda entre as alterações climáticas e a sociedade civil ainda não parece ser clara ou relevante para muitos – e é ofuscada pelas pautas anti-clima que ganham força no debate político. Por isso, tentarei esclarecer parte dessa ligação, sobretudo como ela está intimamente associada a dois aspectos da justiça.
Em primeiro lugar, há uma discrepância danosa entre quem mais contribui para as alterações climáticas e quem é mais afetado por ela.
A nível global, entre diferentes países e até mesmo regiões, é díspar a emissão de gases de efeito estufa, seja pela exploração intensiva de combustíveis fósseis, pela expansão de atividades industriais ou pelas alterações no uso do solo. Segundo dados do Global Carbon Budget, quase 90% das emissões cumulativas de dióxido de carbono, desde 1850, foram originadas nos países de renda alta e média-alta – solidificando a sua maior responsabilidade por esta ameaça.
Ainda assim, mesmo se reduzirmos a escala de observações para indivíduos, os resultados continuam extremamente desiguais. Uma das formas mais claras de ilustrar este ponto é utilizando o caso reportado pela Oxfam no começo de 2025: os 1% mais ricos do planeta demoram aproximadamente 10 dias para consumir a quota anual de emissões de carbono per capita, que condiz com o aumento das temperaturas globais em 1.5ºC. A título de comparação, os 50% mais pobres demorariam quase três anos para atingir o mesmo feito, por possuírem padrões de consumo e investimento menos nocivos do que o primeiro grupo.
Considerando que o avanço das alterações climáticas afeta múltiplas esferas da vida humana, as consequências dessa assimetria estão cada vez mais explícitas. Em 2024, o ano mais quente registado desde 1850, a Organização Meteorológica Mundial destacou a ocorrência de eventos de “elevado impacto”, como ondas de calor e cheias. Além da lamentável ameaça ao bem-estar coletivo, associam-se a tais episódios a destruição de infraestruturas críticas, os danos à biodiversidade, o aumento do número de pessoas deslocadas e o impacto económico. E quem tende a ser mais afetado? Usualmente, aqueles que já se encontram em uma situação de vulnerabilidade.
O quão preparada uma comunidade está para enfrentar os efeitos das alterações climáticas depende de diversos fatores. De acordo com as Nações Unidas, o acesso a conhecimento e orientação, envolvimento político e suporte financeiro e tecnológico são cruciais para a adaptação a esse contexto. Entretanto, alguns grupos ainda são sistematicamente excluídos de tais ferramentas, por conta de desigualdades estruturais existentes em cada região – baseadas em fatores como género, etnia e classe social. Por isso, as alterações climáticas não apenas têm a capacidade de prejudicá-los de forma desproporcional, mas também de preservar a sua condição de marginalidade, caso não sejam integrados nas políticas de ação climática.
Em segundo lugar, o clima do planeta e a humanidade são afetados nesse contexto de uma maneira fundamentalmente intertemporal.
A emissão de gases de efeito estufa (GEEs) é uma das principais formas em que a atividade humana provoca modificações climáticas e cada GEE pode permanecer na atmosfera por diferentes períodos. O dióxido de carbono, por exemplo, é capaz de demorar centenas a milhares de anos para dissipar-se.
Com isso, os danos que resultam desse processo não se limitam às gerações atuais, afetando também as futuras – as quais são comummente esquecidas quando se discute o tema. Na área de economia, chamamos a este comportamento de míope: quando agentes preocupam-se mais com os resultados no presente do que com as possíveis consequências no futuro. Para além disso, num mundo cada vez mais dividido, perde-se aos poucos a capacidade de empatizar com as dificuldades do outro – sobretudo quando não os conhecemos nem vivemos no mesmo período.
Isso nos deve ser preocupante, já que nas próximas décadas muitos poderão ser lesados por um problema em que não tiveram qualquer participação. Vale ressaltar que a atenção sobre como os impactos das alterações climáticas serão distribuídos entre os membros das gerações futuras continua relevante – destacando o efeito mais significativo sobre comunidades vulneráveis. Porém, este caso é ainda mais complexo, já que esses indivíduos não podem defender os seus interesses nas decisões tomadas na atualidade, apesar de serem um fator determinante para o seu bem-estar.
Portanto, espero que fique claro que as alterações climáticas vulnerabilizam a humanidade desproporcionadamente – levantando obstáculos à justiça intra e intergeracional. Não há resoluções simples para uma problemática tão complexa, mas ignorar essa conexão intrínseca – principalmente em prol de benefícios financeiros – vai contra os princípios básicos que tanto valorizamos em nossa sociedade.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.