Os tumores cerebrais primários malignos, representam um dos maiores desafios da Medicina. Ao contrário de outros tumores, que costumam formar massas bem delimitadas, são difusos. Infiltram-se progressivamente pelo tecido cerebral, migrando ao longo das fibras nervosas e espalhando-se como uma teia de aranha.
Por se desenvolverem de forma descontrolada, estas células alteram o funcionamento do sistema nervoso, causando sintomas como dores de cabeça, crises epiléticas, alterações da fala, da memória, da motricidade, entre outros.
A evolução considerável que a Neurocirurgia sofreu, nas últimas décadas, impulsionada pelos avanços tecnológicos, permitiu importantes mudanças e melhorias no paradigma do tratamento do cancro do cérebro. Hoje, conseguimos planear cada procedimento com grande precisão, reduzindo significativamente o risco de sequelas neurológicas.
O tratamento neurocirúrgico tem como principais objectivos o resultado oncológico, com a maior extensão possível de remoção do tumor, e o resultado funcional, com foco não apenas na sobrevivência do doente, mas na garantia de que mantém a independência, capacidade cognitiva, bem-estar emocional e vida social ativa, após a cirurgia.
Quando os tumores estão localizados em áreas críticas do cérebro, pode ser necessário recorrer à cirurgia com o doente acordado. Esta técnica permite-nos remover o tumor enquanto o doente está consciente e colabora ativamente durante o procedimento, ajudando-nos a testar, em tempo real, se alguma função cerebral está a ser afetada pela manipulação do tecido.
É importante salientar que a localização dessas áreas funcionais varia de pessoa para pessoa e pode ser alterada pela presença do tumor. O cérebro tenta compensar a alteração que a doença provoca, reorganizando-se – um fenómeno conhecido como plasticidade cerebral. Contudo, enquanto as regiões corticais têm alguma capacidade de adaptação, os feixes profundos, uma vez cortados, não se regeneram.
Uma vez que os exames de imagem não conseguem avaliar com precisão, em tempo real, as funções cerebrais específicas de cada doente, o mapeamento intraoperatório, com o doente acordado, é fundamental.
A recuperação após a cirurgia é um processo altamente individualizado, que depende de diversos fatores: défices neurológicos prévios, localização e tipo de tumor, tipo de cirurgia, idade e condições físicas e psicológicas do doente. O regresso às atividades do dia a dia pode exigir tempo, reabilitação e o apoio de uma equipa multidisciplinar, sendo o objetivo principal ajudar o doente a recuperar a autonomia e a qualidade de vida prévios.
A cirurgia a um tumor cerebral não deve ser vista como o fim de um futuro possível. Pelo contrário, a maioria dos doentes melhora após a intervenção, e o tempo de internamento costuma ser curto, geralmente de dois a três dias. Muitos retomam os seus projetos de vida, constroem famílias e, com o acompanhamento médico adequado, alguns conseguem mesmo ter filhos, dependendo do prognóstico do tumor.
Como neurocirurgiã, considero um bom resultado aquele em que, passados alguns meses, o doente regressa ao consultório e conta que voltou ao trabalho, à rotina, aos projetos de vida. Cada cirurgia reforça em mim o impacto que a Medicina pode ter na vida das pessoas – não apenas por prolongar a existência, mas por preservar aquilo que nos torna únicos.