No mês passado participei na Longevity Innovations in Higher Education Summit, que teve lugar na Arizona State University (ASU), nos Estados Unidos. Logo no primeiro dia, visitámos a residência sénior Mirabella, localizada no próprio campus.
No meu caso, a visita foi guiada pela Deborah, antiga professora universitária de francês que, após a reforma, decidiu continuar a viver na universidade. Enquanto caminhávamos entre salas de aula, espaços comuns e zonas de convívio, Deborah descrevia o seu dia-a-dia: assistir a aulas, participar em conferências, envolver-se em projetos com estudantes mais jovens. “Aqui continuo a aprender”, disse-me.
E é precisamente aqui que reside a verdadeira inovação deste modelo.
A Mirabella não é apenas uma residência sénior integrada num campus. É um espaço onde diferentes gerações convivem como pares numa comunidade de aprendizagem. Os residentes (que têm uma média de idade de 74 anos) não são apenas “utentes” ou “reformados ativos”: são, estudantes com um cartão de aluno, mentores, participantes em investigação e membros ativos da vida académica.
Esta lógica intergeracional cria um ambiente único. Os estudantes mais jovens beneficiam da experiência, do pensamento crítico e das histórias de vida dos mais velhos. Os residentes, por sua vez, mantêm-se intelectualmente estimulados, socialmente integrados e com um forte sentido de propósito. Não se trata apenas de envelhecer melhor — trata-se de continuar a contribuir.
Num momento em que tanto se fala de longevidade, este tipo de iniciativas mostra que o desafio não é apenas viver mais anos, mas viver melhor esses anos — com significado, ligação e aprendizagem contínua.
Para as universidades, isto implica uma mudança profunda de paradigma. De instituições centradas numa fase específica da vida — tipicamente os 18 aos 25 anos — passam a posicionar-se como plataformas ao longo de todo o ciclo de vida. A educação deixa de ser um momento e passa a ser um processo contínuo.
Este é também o espírito que temos vindo a desenvolver no Center for Longevity Leadership da Universidade Católica Portuguesa. Acreditamos que a longevidade não é apenas uma questão demográfica ou de saúde, mas uma transformação estrutural que exige novas respostas em termos de educação, trabalho e organização da sociedade.
Projetos como a Mirabella mostram que as universidades podem — e devem — estar no centro dessa transformação. Não apenas formando jovens, mas criando oportunidades de aprendizagem ao longo da vida e comunidades onde diferentes gerações aprendem juntas, colaboram e constroem valor.
Afinal, o verdadeiro luxo da longevidade não é viver mais anos — é ter um lugar onde continuar a crescer. A Deborah já sabe disso. Eu já sei qual será o meu!