Vivemos numa incoerência que todos sentimos, mas poucos dizem em voz alta: o código do trabalho continua a exigir dedicação total ao emprego, como se ainda existisse o “chefe de família” que sustentava sozinho o lar. Essa figura desapareceu. Hoje, ambos os pais trabalham e, ao mesmo tempo, os filhos precisam de atenção, acompanhamento e presença. A sociedade mudou, mas muitos políticos parecem não ter percebido.
A questão é dura e simples: trabalhamos ou temos filhos. Somos empurrados para escolher. E, se queremos que existam famílias e descendência, temos de assumir os custos. Não basta falar de natalidade ou de conciliação entre vida profissional e pessoal. É preciso criar condições reais para que seja possível.
Antigamente, um salário chegava para sustentar uma casa. Hoje, isso é quase uma ilusão. As famílias vivem esmagadas por horários longos, salários baixos e falta de apoios. O resultado é uma geração que adia ou desiste de ter filhos, não por falta de vontade, mas por falta de condições. E quando há divórcio, quase sempre os filhos ficam com a mãe. A mesma mãe que ganha menos, que trabalha mais e que educa sozinha. Não é coincidência que grande parte dos dois milhões de pobres em Portugal sejam famílias monoparentais.
E há ainda outro fator que agrava esta realidade: os avós já não podem ajudar como antes. Também eles trabalham ou prolongam a sua vida ativa devido ao aumento da idade da reforma. O apoio intergeracional, que antes funcionava como rede de segurança, desapareceu. As famílias ficam sozinhas, sem tempo e sem suporte.
A metáfora da formação de um médico ajuda a perceber o que está em causa. Educar um médico exige anos de estudo, disciplina e acompanhamento. O aluno não chega à universidade por acaso: precisa de uma família que o apoie, que o incentive, que o proteja das distrações fáceis das redes sociais. É um investimento coletivo. E, tal como na medicina, também na natalidade e na educação das crianças o sucesso depende de famílias fortes e de uma sociedade que as apoie.
Há ainda uma questão que raramente se discute: se um dos pais fica em casa para cuidar dos filhos, deve receber um salário. Não pode ficar dependente do outro cônjuge. Cuidar é trabalho. Trabalho essencial, invisível, mas indispensável. E deve ser reconhecido como tal. Sem essa valorização, perpetua-se a desigualdade e a vulnerabilidade de quem assume essa função.
A sociedade tem de decidir: quer apenas trabalhadores imediatos, sem filhos e sem futuro? Ou quer famílias e gerações vindouras? Isso implica assumir custos: apoios sociais, licenças de parentalidade dignas, horários flexíveis, políticas de conciliação e remuneração justa para quem cuida.
Não podemos continuar a exigir resultados sem investir nos processos que os tornam possíveis. Formar médicos, engenheiros ou professores exige famílias presentes. Garantir descendência exige políticas que reconheçam que cuidar de filhos é tão essencial como trabalhar.
Este dilema não é pessoal, é estrutural. E exige visão de futuro. Apostar apenas a 10 anos pode aliviar o presente, mas não resolve a crise demográfica. Só a 20 anos se percebe se houve verdadeira transformação: se as crianças apoiadas hoje se tornaram adultos qualificados, se as famílias tiveram condições para existir e prosperar, se a sociedade garantiu continuidade. É nesse horizonte que se decide se queremos apenas sobreviver ou se queremos construir um futuro.
Se queremos famílias, temos de pagar para que existam. Se queremos profissionais qualificados, temos de apoiar as famílias que os educam. O código do trabalho precisa de ser repensado à luz desta evidência: não podemos continuar a viver como se fosse possível trabalhar como antes e, ao mesmo tempo, criar filhos sem apoio.
A escolha é da sociedade. E já não podemos adiá-la.