Não é só Paulo Raimundo que ouve com especial atenção as crónicas do Alberto Gonçalves na rádio Observador. À frente de um volante, acompanhado do meu filho que, lá atrás na cadeirinha, pacientemente aguarda que vençamos o trânsito da VCI, sempre que a hora coincide escuto as sábias reflexões e as consequentes demolições de Ideias Feitas. A 19 do presente mês, já de noite, mas ainda apanhando o mesmo dia da crónica intitulada A Jornalista Brasileira e a Sífilis Portuguesa, começo a escrever estas linhas. Ambas as ações, a vertente oral e a vertente escrita, vêm a propósito de um texto (presente no catálogo) da “mais premiada jornalista brasileira”, Eliane Brum, que a pretexto de uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian (reunindo obras de arte, vídeos, peças musicais e documentos vários, a exposição ‘complexo brasil’ propõe uma viagem pela cultura brasileira, procurando problematizar as relações seculares entre o Brasil e Portugal e promovendo o diálogo entre os dois países), escreveu em tom assumidamente acintoso aquilo que em seu entender é a culpa indelével dos portugueses quanto à usurpação e apropriação dos corpos e terras brasileiras. A crítica tem o sugestivo título: Carta de Desfundação do Brasil — Dirigida aos descendentes dos súditos do Rei Dom Manuel I.

Considerações prévias e gerais: não iremos, eu e o leitor, perder tempo com o combate gratuito ao wokismo; em segundo lugar, não nos vamos alongar a analisar os processos históricos e como a História deve ser corretamente, segundo as melhores práticas científicas, lida e interpretada; em terceiro lugar, aconselho vivamente o leitor a ouvir o podcast do episódio em causa (e todos os outros); em último lugar, vou tentar não ser redundante e não comparar muito mal com os verdadeiros focos inspiradores deste artigo – o dito episódio e o seu autor.

Eliane Brum surfa a bem conhecida e mal frequentada onda rousseauniana. Proveniente de um rosseaunismo fin de siècle, a jornalista trabalha na má-consciência individual e na degradação dos valores ocidentais. Nas palavras de Nietzsche, pretende contribuir para a inversão axiológica em curso pela nova esquerda. Apoiando-se na ideia (ridicularizada pela História e pela Antropologia) do bom selvagem, do Homem em estado puro, em perfeito estado de conservação e em completa sintonia com a Natureza, isto é, alheio a todo o mal que o Branco trouxe consigo quando aportou em terras virgens ameríndias (incluindo a sífilis e outras doenças), visa objetivamente atacar, à sombra de temas consensuais como escravatura (por exemplo), o que caracteriza o pensamento e o modo de vida do Ocidente: capitalismo, cristianismo, democracia liberal e direitos humanos. Ecoando nos espíritos menos informados e amplificado pelas gentes marxistas internacionalistas, a doutrina tem vindo a conquistar, além dos principais e tradicionais meios de comunicação, adeptos entre os principais visados, ou seja, os homens brancos do velho e do novo continentes.

Este ressentimento, alojando-se no fundo da consciência e aproveitando-se de complexos de culpa dos visados, e, muitas vezes, do ócio e caviar europeus, pretende desculpabilizar o fracasso dos seus sucessivos governos e governantes, por um lado, e ganhar votos e adesão entre os descontentes do sistema, por outro. Acusar outrem é uma excelente forma de evitar que nos apontem o dedo. Qualquer tentativa de desmistificar estes preconceitos e má-fé é acusada de imediato de instigação ao ódio e ao racismo. Contudo, um estudo imparcial à América pré-colombiana irá permitir assegurar um juízo seguro e disciplinado sobre as questões abordadas pela brasileira.

Quando os espanhóis alcançaram o novo mundo descobriram universos civilizacionais já plenamente formados. Os maias, os astecas, os toltecas, os olmecas e os incas eram alguns dos povos e tribos que habitavam o continente. Invasores e invadidos, senhores e escravos, consoante os ventos, possuíam espírito guerreiro e dedicavam-se ritualmente a práticas religiosas sacrificiais, incluindo o massacre e tortura de crianças. Para aplacar a ira dos deuses e conseguir a sua benesse para as colheitas e as conquistas, realizavam-se espetáculos de entretenimento e de excitação dos instintos mais básicos da populaça. Do alto do teocalli saltavam cabeças e caiam corpos pela escadaria, um após outro, durante a duração que o sacerdote considerasse necessária para satisfazer o apetite sanguinário divino. Podemos ter uma ideia bastante aproximada do evento no filme de 2006 de Mel Gibson, Apocalypto, cujo enredo leva-nos para as selvas dominadas pelos maias no preciso instante em que ocorre o turning point entre os habitantes dos dois continentes.

O jovem protagonista, Jaguar Paw, depois de ver a sua aldeia invadida e as suas mulheres violadas e aprisionadas, engrossa, juntamente com os seus conterrâneos sobreviventes, uma multidão de prisioneiros de outras aldeias também devastadas. Escoltados pelos guerreiros conquistadores, dirigem-se para a cidade maia, onde as mulheres serão vendidas ou mortas, consoante o seu estado físico, e os homens novos e possantes farão parte dos milhares de sacrificados no altar dedicado ao deus maior. De barriga para cima, eram deitados na pedra suja e barrada de sangue, onde o sacerdote, com uma faca afiada de pedra retirava com sangue-frio o coração a palpitar, para de seguida proceder à decapitação.

O conto de Julio Córtazar, A Noite de Barriga para Cima (1956), dobrava o tema, acrescentando-lhe contornos oníricos. Também na obra do argentino, um jovem fora feito prisioneiro de um povo inimigo. Preso de mãos e pernas numa cavidade escura e húmida, de barriga para cima, será carregado na mesma posição pelos inimigos mortais até um desses altares sedentos e implacáveis. As guerras floridas astecas consistiam em operações de combate corpo-a-corpo entre diferentes tribos e povos, não com o fito da conquista de território, mas o de arrebanhar corpos vivos com vista à obtenção de trabalho escravo e ao sacrifício último.

Numa época em que os sacrifícios humanos eram já uma memória débil e pré-cristã, os europeus renascentistas depararam com estes espetáculos terríveis. Para o choque civilizacional ocorrido, há que considerar certamente o horror e a surpresa causados por esses festivais macabros. (Reduzindo o escopo ao Brasil, o que causou comoção nos portugueses foi o ritual antropofágico que algumas tribos praticavam). Havia entre as duas civilizações, a europeia e a americana, uma diferença de natureza e não somente de grau. Os resquícios bíblicos de um Isaac na pedra fria perante o gume fatal de Abraão, holocausto impedido no último momento pelo Deus vaidoso e vingativo, já anunciava uma nova era. O Novo Testamento iria de uma vez para sempre ultrapassar essas práticas bárbaras, mesmo com recurso a animais, endereçando-as definitivamente para um passado remoto, cruel e embaraçoso.

Desconheço se a jornalista brasileira leu o conto de Córtazar. Já nem me refiro ao filme de Gibson, cedo apelidado de racista. Eliane Brum habita um mundo que, numa regressão ao infinito, pode ser apelidado de tristes trópicos. As reparações históricas que Lula, com a cumplicidade de um certo tipo de políticos ocidentais, reivindica para essas paragens, não logra esconder nem esquecer as atrocidades pretéritas cometidas inter pares. Aí incluem-se o saque, a matança, a conquista, a escravidão. A escravatura, sempre reprovável, foi uma prática (ainda é uma prática) bastante espalhada pelo planeta. Gregos, romanos, egípcios, ameríndios (entre muitos outros) a conheceram. Provavelmente, seremos levados a concluir que sem ela dificilmente os diferentes povos ficariam na História. A verdade é que se produziram grandes feitos, traduzidos em aumento e transformação de territórios e de elevação de monumentos e edifícios, através do sofrimento alheio. Acusar os europeus da sua invenção é uma falsidade histórica, tal como a (eventual) culpa do homem branco contemporâneo, a “responsabilização coletiva” nas palavras de Brum, não passa de um anacronismo.

O “ouro ensanguentado” referido por Brum é uma armadilha retórica e não passa de uma falácia: anos atrás, ouvi da boca de uma académica brasileira a indignação pela altivez com que os portugueses e europeus tratavam os ameríndios pela troca do metal por objetos sem valor. Nas suas palavras, o ouro simplesmente não possuía qualquer interesse para os nativos, motivo pelo qual foi trocado de bom grado e pacificamente.

Uma sugestão em tom provocador: trocar o título da exposição de complexo brasil para complexo do brasil.