Vivemos tempos estranhos. Ontem à noite, o centro de Lisboa encheu-se de electricidade. O ruído das buzinas no final do jogo transformou-se num rugido constante vindo do Marquês de Pombal, e que nunca parou ao longo da tarde e noite adentro.

Em noites como estas, Lisboa é emocionante. Essa coisa de ser adepto de um clube ou outro e deixar que isso nos afecte a alma e o humor, é uma coisa me escapa, mas a energia que dezenas de milhares de pessoas felizes podem criar é algo de especial. Gosto disso. A um quilómetro do Marquês, o barulho era impressionante. Lisboa é do tamanho certo para que essa vibração possa tocar muita gente.

No meio da rua, uns turistas canadianos perguntavam-me como é que podiam chegar “àquele sítio onde está toda a animação. Aquela energia… uau!”

Adormeci ao som daquele rugido distante, como se estivesse junto ao mar, a perguntar-me quando é que toda essa gente iria finalmente para casa (já agora, por que razão é que estes jogos são jogados ao domingo à noite? Ninguém trabalha às segundas-feiras?).

Mas esta manhã, ao ver o telejornal, percebi que a festa vermelha de gente feliz e bandeiras tinha descambado em violência. Graças à box da TV, pude rever a transmissão televisiva da noite: vidro a voar, cabeças ensanguentadas, cassetetes da polícia no ar. Considerando a muita cerveja bebida e a concentração de pessoas, não é surpreendente que tenha acabado assim, mas há algo que não bate certo… É que estamos em Portugal, e não é suposto estas coisas acontecerem em Portugal.

Estão-me sempre a dizer que nós, os ingleses, somos arrogantes, e que os portugueses sofrem de complexo de inferioridade. Acreditem: no que diz respeito à violência das claques de futebol, somos nós, os ingleses, que nos sentimos inferiores. Sabemos que para onde vão as nossas claques (tal como as nossas festas de despedida de solteiro…), é sempre grande a probabilidade de violência e de, mais uma vez, acabarmos profundamente envergonhados.

Venho de um país conhecido pela violência do futebol. Um país onde bebemos demais, e não nos portamos bem quando estamos bêbedos. Quando há um jogo em Lisboa com uma equipa inglesa, especialmente uma equipa de Londres, digamos o Tottenham ou o Chelsea, mantenho-me longe do Rossio, onde, por uma razão qualquer, os adeptos ingleses gostam de se congregar. Estou sempre à espera que tudo acabe em pancadaria. Pode ser que não aconteça, mas para o caso de acontecer, prefiro não ver.

Mas enfim, existe a ideia de que, entre os adeptos de futebol, são os ingleses que brigam e lutam. Não são os portugueses.

A violência bruta e bêbeda não tem a ver com Portugal… Já devem ter ouvido: os portugueses sabem beber, os portugueses sabem comportar-se. Os portugueses são capazes de exagerar no seu amor da bola, mas violentos? Não, nunca! São os ingleses que são os hooligans, e por isso as cenas do Marquês de ontem à noite pareceram muito estranhas. Claro que acontece, já aconteceu, e acontecerá outra vez, mas há nestas cenas de confronto e de agressão qualquer coisa que ofende a ideia que temos de Portugal.

Houve, porém, uma cena muito portuguesa ontem à noite. Foi quando, em Guimarães, um polícia agrediu um adepto em frente dos seus filhos. Não me refiro ao homem a ser agredido, atirado ao chão por não sei que razão… Refiro-me ao outro polícia, que, em segundos, correu até junto do filho mais novo do agredido, um miúdo visivelmente pasmado e aterrorizado, agarrou nele, tentou acalmá-lo, e poupá-lo à visão do pai a ser agredido.

Isso — isso foi muito português. Portugal é isso.

E o polícia que agrediu o homem? Deus sabe de onde vem.

(texto traduzido do original inglês pela autora)

Not in Portugal

Strange things. The city centre last night was electric. The sound of car horns at the final whistle turned into a constant roar from Marquês de Pombal as it got dark and late into the night.

Lisbon on nights like these is thrilling. It’s not the football thing that thrills me. The whole backing a football team and being destroyed or excited by it defeats me, but the sheer energy that tens of thousands of happy people can create is something special, something incredibly exciting, utterly human. I like it. A kilometre from Marquês the noise was impressive. Lisbon is just the right size for that energy to electrify a lot of people.

I was asked by some Canadian tourists how they could get to “that place where all the excitement was. That energy….wow!”

I fell asleep listening to the roar in the distance, like listening to the sea, wondering when everyone would drift off back into the night (by the way, why do these big games always take place on a Sunday night? We have to get up on Monday mornings).

This morning, I took a look at the TV and saw that the happy red flag waving party had descended into violence. I rewound the TV box to watch the uncut footage, to watch all that glass being thrown, those bloodied heads, those batons being raised. Considering that there was a lot of beer involved and a high concentration of people, it wasn’t that surprising, but it still feels wrong. For here.

You are always telling me that we are the arrogant ones, and that it is you that have a chip on your collective shoulder. Believe me, when it comes to football violence, it is we who feel inferior. We know that wherever our football fans go (just like our hen parties) there is a strong possibility of violence and we are deeply ashamed.

I come from that country renowned for violence in football. That country where we famously drink too much, and we famously don’t act well once we are drunk. Whenever there’s a match here that involves an English team, especially a London team, say Tottenham or Chelsea, I stay away from Rossio, where, for some reason, they always gather. I know how it might descend into chaos. It may well not, but if it does, I don’t want to be a part of it, because it will be bad.

It is the English football fan who riots and fights. It is not the Portuguese football fan.

Violence, mindless, brutish, drunk violence, is not Portugal, it’s not Portuguese… the Portuguese know how to drink, the Portuguese know how to behave. The Portuguese might be a bit overly football crazy, but violent? No! It is the English who are hooligans, so the scenes last night were odd, and sad. Of course, it happens, and has happened and will happen again, but it is rare.

Then we saw the fan being assaulted by the police in front of his children in Guimarães, and weirdly, that was a more normal Portuguese scene. No, not the guy being assaulted, thrown to the ground for god knows what he did… even if he DID spit at the policeman. Who knows what was going through the head of that policeman. It was disgusting and over the top and vile.

No, I mean the sight of the other policeman running after the younger child who was utterly distraught, within mere seconds, holding on to him and shielding him, and trying to comfort him, protect him from the sight of his father being assaulted, protect him from trying to save his dad.

That, that was Portuguese. That was Portugal.

The policeman assaulting the guy? God only knows what that was.