Quem acompanha a pouca discussão sobre a Emigração portuguesa nota um consenso quase unânime:  independentemente da ideologia, acredita-se que “voltar” é o que o País precisa.

A primeira pergunta impõe-se: voltar, para quê? 

Com que propósito a convocação? Para sustentar o sistema social num país envelhecido? Para travar a fuga de  cérebros? Porque quem regressa traz competências e uma capacidade de empreender que pode impulsionar o país? É importante a clareza nessa razão, porque é apresentada quase como a missão ou até obrigação de quem fora está.

Este consenso parece resultar mais de um reflexo acrítico do que de uma verdadeira estratégia política ou social.

Mantemos uma narrativa nacional que exalta os Descobrimentos e o espírito de exploração (*), mas na prática até um  estudante português no seu ano de Erasmus sente a pressão de “voltar”, como se aí residisse o seu valor e serviço  ao país. Estaremos a ser excessivamente prudentes, contidos? Uma forma de analisar a nossa predisposição é a  expressão: “Ele é um aventureiro”, damos a isso um sentido positivo ou negativo?

Olhando criticamente, talvez a pergunta certa seja: em que momentos e condições o Valor do Regresso da  Emigração (VRE) supera o Valor da Diáspora (VdD)? 

Uma breve pesquisa mostra rapidamente algumas linhas de resposta interessantes:

=> Dimensão económica: economias internas grandes tendem a ter VRE > VdD; economias pequenas, o contrário.

=> Nível de desenvolvimento e inovação: economias avançadas favorecem VRE > VdD; países em catching up tendem a beneficiar mais de VdD > VRE.

Os Países Baixos, também uma pequena economia, focam-se em atrair talento qualificado e quase ignoram o “volta”.  Se os pontos acima fizerem sentido, não deveria Portugal apostar mais na otimização da sua diáspora do que em  convocá-la ao regresso?

Os cérebros não fugiram. Se a rede e a diáspora forem bem trabalhadas, esses talentos evoluem e contribuem — direta ou indiretamente — para Portugal. E, se regressarem, regressam melhores do que se nunca tivessem saído. A  coragem de partir transforma não só a mente, mas o próprio ser humano.

A nossa emigração está a mudar, se não é que já mudou. O regresso das gerações mais antigas — que enviaram  remessas durante décadas — respondia à lógica: “Já acumulaste valor para a tua família e para o país? Então a tua  missão está cumprida — volta.”

Às novas gerações emigradas que saíram maioritariamente por vontade ou estratégia própria — colocam-se hoje  outras perguntas: já lideraste o suficiente lá fora? Já aprendeste o bastante? Já ganhaste perspetivas diversas que  possam servir Portugal quando regressares (ou mesmo antes disso, enquanto estás fora)? 

O foco no estar fisicamente no território parece-me cada vez menos relevante face ao ser e pertencer. O sentimento  de pertença permite criar e contribuir com valor social, cultural, político e económico, mesmo à distância.

Pensar o ser e o pertencer como estratégia coletiva — tanto para emigrantes como para imigrantes — é uma via de  desenvolvimento muito mais ajustada para Portugal do que insistir apenas no “estar”.

(*)A nota sobre a Exploração nos Descobrimentos pretende apenas sublinhar a importância de sair da zona de conforto e expandir horizontes.