As crises que marcam o cenário global, da geopolítica ao clima, tornaram evidente a limitação de uma visão da soberania nacional assente exclusivamente na defesa militar. Para um país como Portugal, exposto a múltiplas frentes de vulnerabilidade, a resiliência tornou-se a palavra de ordem. A questão central já não é o que o futuro nos reserva, mas como o país se prepara para o enfrentar. E a resposta é clara: a Engenharia, em toda a sua amplitude, deixou de ser uma área de suporte para se afirmar como pilar estruturante da segurança nacional e da autonomia estratégica.
Convém ser rigoroso nos conceitos. Defesa e segurança não são sinónimos. A defesa diz respeito, de forma específica, à proteção do Estado contra ameaças externas, tradicionalmente assegurada pelas Forças Armadas. A segurança nacional é um conceito mais amplo, que integra a defesa, mas abrange também a proteção do funcionamento da sociedade, da economia, das infraestruturas críticas e da vida dos cidadãos. É neste domínio alargado da segurança que a engenharia assume um papel absolutamente central.
Não há segurança sem engenharia. A proteção do modo de vida, das cidades e dos serviços essenciais assenta no conhecimento técnico que concebe, constrói, opera e mantém os sistemas de que o país depende. Ignorar o investimento nestas capacidades não é apenas negligência política; é criar uma ilusão de segurança estruturalmente frágil.
No século XXI, a ameaça raramente se anuncia com meios convencionais. Pode manifestar-se pelo colapso silencioso de um sistema informático, pela interrupção de uma rede elétrica ou pela paralisia de um hospital. O ciberespaço tornou-se um novo domínio de risco para a segurança nacional, onde ataques a infraestruturas digitais podem ter impactos tão ou mais graves do que ações militares clássicas. Neste contexto, a cibersegurança é um instrumento essencial da segurança interna e da resiliência do Estado, assegurada por engenheiros informáticos, eletrotécnicos e de telecomunicações.
As infraestruturas críticas (energia, água, transportes, comunicações) são a base material da coesão nacional e da estabilidade social. A sua degradação, seja por falta de manutenção, tecnologia antiquada ou dependência externa, constitui uma ameaça direta à segurança do país. A obsessão com a nova construção, em detrimento da reabilitação e modernização do existente, é um erro estratégico.
Neste quadro, a autonomia energética assume um valor claramente estratégico. Não se trata apenas de eficiência económica ou sustentabilidade ambiental, mas de segurança nacional. A dependência externa excessiva em energia expõe o país a choques que escapam ao seu controlo e limita a sua margem de decisão em contextos de crise.
A distinção entre segurança e defesa torna-se igualmente crucial no domínio tecnológico. A capacidade de desenvolver, adaptar e controlar tecnologia própria é um fator determinante de segurança nacional. Já no domínio da defesa, essa capacidade traduz-se na modernização da Base Tecnológica e Industrial de Defesa.
A segurança de Portugal num mundo instável não é um dado adquirido. É uma construção permanente que exige investimento estratégico, visão de longo prazo e valorização do conhecimento técnico nacional.