Dei, ultimamente, em ver – ou rever – westerns. Não porque o mundo da maioria dos jornalistas, comentadores e políticos da nossa e de outras praças não evoque uma daquelas ruas únicas do faroeste, sempre com a mesma prisão, o mesmo saloon, o mesmo banco, os mesmos bons e os mesmos maus… mas porque, ainda assim, prefiro as coboiadas propriamente ditas. Sempre são mais subtis e abertas a outras pradarias, desfiladeiros e horizontes.
No meu Porto natal, as personagens principais destas fitas eram, na narrativa dos miúdos da rua, “o artista, o cínico e o pai da gaja” (um quadro analítico com tanto de “incorrecto” como de conciso e esclarecedor). E havia ainda os índios, uma ameaçadora categoria à parte.
Os westerns não estão muito distantes, nos valores em jogo e na justiça, das tragédias gregas do século V. Mas, ao contrário das tragédias gregas, costumam acabar bem – o que é uma vantagem, tanto sobre as tragédias gregas como sobre a política doméstica, que não entretém tanto e que tende a acabar de forma nebulosa e medíocre, com o que ainda consegue estar de pé no país em fade out.
Índios maus
A inspiração primitiva para os filmes do Oeste vinha dos “Wild West Shows” de William Frederick Cody, “Buffalo Bill”, que popularizaram a imagem do índio mau e selvagem, que atacava os pioneiros dando gritos de guerra e não poupando os colonos. E em 1915, o célebre filme de David W. Griffith The Birth of a Nation, era uma apologia da Confederação, sendo o herói, “o artista”, do Ku Klux Klan,
Um dos primeiros westerns, The Great Train Robbery (1903) de Edwin S. Porter, era mudo, como era todo o cinema ao tempo. Assim, quando a fita metia índios, os índios não falavam (nem os brancos, incluindo os cowboys e os “artistas”). Mas os índios apareciam. John Ford, um dos grandes realizadores do género, mobilizou centenas de índios sioux, cheyenne e pawnee para Iron Horse (1924) – a história do comboio transcontinental. Em Stage Couch (1939), o filme já não era mudo, mas os índios – os apaches de Jeronimo – continuavam a falar pouco, limitando-se a ser ferozes.
Índias e cowboys
Além de índios, índias e cowboys, o western mitificou e romantizou sobretudo a conquista do Oeste, embora haja filmes sobre períodos anteriores, como The Far Horizons, que vi há pouco, com Fred Mc Murray e Charlton Heston.
The Far Horizons passa-se em 1803, por ocasião da compra da Louisiana à França pelo Presidente Jefferson, “o melhor negócio imobiliário desde o Paraíso Terrestre”, no dizer de um historiador americano. Foram mais de dois milhões de quilómetros quadrados, quase duplicando o território dos Estados Unidos, comprados por 15 milhões de dólares. Napoleão, primeiro cônsul de França, estava com problemas de liquidez e ofereceu o negócio aos americanos; Jefferson pôs James Monroe a negociar e Monroe aproveitou. The Far Horizons é a história da expedição, chefiada por Meriwether Lewis e William Clark, que Jefferson enviou, depois da compra da Louisiana, para explorar e mapear os novos territórios para Oeste e procurar chegar ao Pacífico. O filme de Rudolph Maté, com Fred Mc Murray e Charlton Heston nos papéis dos dois heróis e líderes da “maior saga americana”, é animado pela paixão de Clark (Charlton Heston) e da índia shoshone Sacugawea (Donna Reed), personagem decisiva na informação e mediação da expedição. Mas no final a índia é convencida pelo próprio Jefferson a não misturar as coisas e a deixar o homem branco em paz, apesar da paixão cruzada. Far Horizons é de 1955.
Outra solução é a sustentada em Broken Lance, um filme de Edward Dmytryk, que também revi há dias; aí há um rico fazendeiro, Matt Deveraux (Spencer Tracy), que casa com uma índia (Kathy Jurado) de quem tem um filho, Joe, que é o bom ou “o artista” da história, sendo os seus meios-irmãos mais velhos, brancos de primeira e dos quatro costados, “os cínicos” ou os maus da fita. A mexicana Kathy Jurado que fazia sempre de índia, terá dito que “o seu sonho era um dia fazer de mexicana”. A Lança Quebrada é de 1954.
A mudança
As coisas tinham começado a mudar a partir da Segunda Guerra Mundial. Nos anos da guerra, Hollywood mobilizava-se contra o Eixo, chegando mesmo a branquear o aliado soviético, a Rússia de Estaline. Havia que manter as devidas distâncias do etnocentrismo nazi tratando melhor, nas fitas do Oeste, os índios, os negros e os mexicanos.
Mas, como sempre, o pendor maniqueísta do puritanismo americano também aí criava índios bons e índios maus. Os bons eram os que se adaptavam à sociedade dos brancos americanos; os maus, os que recusavam a integração em nome da sua “indianidade”. O Último Apache, com Burt Lancaster, de olho azul, a fazer de apache num Oeste pós-guerras, é modelar dos altos e baixos da boa consciência de Hollywood. O realizador é Robert Aldrich, que realizou também Vera Cruz e, mais tarde, em 1967, Doze Indomáveis Patifes, que não tem nada que ver com índios, mas que conta com cowboys anti-nazis.
Ainda nos anos cinquenta, John Ford, em The Searchers, tem como protagonista e herói outra figura incontornável do Oeste: John Wayne, um actor que encarna de tal modo um tipo de personagem que quase se confunde com ele. Em The Searchers, Wayne é Ethan Edwards, um texano que vê a família raptada e massacrada pelos comanches e que procura resgatar as sobrinhas e vingar-se. Os índios comanches voltam ali a ser os clássicos guerreiros selvagens a cavalo, chefiados por um tal Scar. Ethan/Wayne persegue-os com os seus Texas Rangers e tem os comanches e os índios em geral em baixíssima consideração. Quando, ao fim de uma longa e aturada busca, encontra a sobrinha Debbie, raptada pelos comanches e criada por eles, e percebe que ela se quer manter fiel à nova identidade indígena, Ethan, desesperado, está disposto a ver-se livre dela. Mas no fim surpreende-nos, abraçando-a e acolhendo-a.
Índios bons e brancos (quase todos) maus
Depois de décadas de índios maus, Hollywood abraça o revisionismo identitário. Isto na segunda metade dos anos 60, o tempo da intensificação da luta pelos direitos civis, da divisão da sociedade americana com a Guerra do Vietname e de um novo Acordar afro-americano (que décadas depois, para desgraça de todos, incluindo da Esquerda, assumiria novos e desvirtuados contornos).
Este revisionismo hollywoodesco manifesta-se em filmes como Soldier Blue (1970), de Ralph Nelson, com a lindíssima Candice Bergen, ou Little Big Man, de Arthur Penn, com Dustin Hoffman e Faye Dunaway. Os maus são agora os brancos, os cowboys, a Cavalaria dos Estados Unidos; e os bons, os índios. Vinte anos depois, em 1990, com Dances with Wolves, Kevin Costner, realizador e actor, foi um dos poucos a conseguir para um western sete Óscares, incluindo o de melhor filme e de melhor realizador.
Dances with Wolves foi um êxito de bilheteira e está, quanto à percepção dos índios, dos brancos e da conquista do Oeste, no extremo oposto dos primeiros westerns. O tenente John Dunbar, num forte fronteiriço, além de se dar bem com os lobos, dá-se bem com os vizinhos sioux; e, mais do que isso, conhece, apaixona-se e casa com uma mulher branca criada pelos índios, filha do “xamã” da tribo. No filme, para fixar melhor a bondade dos índios, aparecem brancos maus em grande quantidade.
Entre brancos
Mas nem tudo nos westerns é conflito identitário. Há westerns quase sem índios, como Gunfight at the O.K. Corral, que acabei de rever.
O filme tem uma base histórica: a breve e célebre luta, em Tombstone, Arizona, entre os irmãos Earp, servidores da lei, ajudados pelo conhecido Doc Holliday, contra os fora-da-lei – os irmãos Clanton e McLaury. O filme é de 1957, de John Sturges, com um guião de Leon Uris e George Scullin. O elenco principal é de luxo – Burt Lancaster faz de Wyat Earp, Kirk Douglas de Doc Holliday e Rhonda Fleming de Laura Denbow, a enigmática jogadora.
É o western clássico, com cowboys bons e cowboys maus, jogo de poker fechado, batota, tiros, gado e cavalos a entrar e a sair daquelas cidades de uma só rua que vão do banco ao saloon e, em frente, do hotel à prisão. E acaba bem, com o Burt Lancaster a ficar com a Rhonda Fleming.
É outra América? Outro mundo? Não vejo que estejamos assim tão longe do som e da fúria destes mundos aparentemente simplistas de bons e maus. E não só na América mas, também ou sobretudo, onde menos se espera. A agravante é só a falta de consciência disso ou a ilusão de alguns de estarem muito acima destes enredos “populistas”.