A surpreendente “virada” eleitoral de Lula no Domingo, 25 de Outubro, além do grande alívio e alegria pela “salvação da Democracia” e a consequente derrocada e fuga do perigo fascista – que, espera-se, deixe de estorvar o exercício democrático do poder instituído – trouxe outras “surpreendentes” derrocadas, como a queda a pique das bolsas brasileiras. Na segunda-feira, o Banco do Brasil caiu 28%, o Itau 16% e a Petrobras 12%. E o Real caiu 9%, em relação ao dólar americano, e 8,50% em relação ao Euro.  Vá-se lá a saber porquê.

A surpresa da eleição de Lula na segunda volta sucedeu à surpresa da vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, quando tudo apontava para que Lula ficasse à frente. Depois, esperava-se que Bolsonaro, contando com apropriação da maioria dos votos dos candidatos “menores”, que seriam mais para a direita do que para a esquerda, ganhasse a segunda volta.  Não aconteceu. Ninguém é “dono dos votos”, mas um juízo analítico do alinhamento político dos concorrentes excluídos levaria a crer que a maioria dos seus eleitores tenderiam para Bolsonaro. Além disso, as eleições para o Congresso e para os governadores tinham favorecido claramente o centro-direita e a direita, com 303 dos 513 deputados eleitos e 55 dos 81 senadores. O mesmo acontecera os governadores estaduais eleitos.

Pão, circo e exército digital

Perante a expectativa de uma vitória do candidato do Partido Liberal na segunda volta, que as sondagens iniciais (52% versus 48%) corroboravam, não admira que alguns dos comprometidos da área lulista com escândalos a céu aberto, como o juiz Alexandre de Moraes, se tivessem aplicado.

O Presidente também se aplicou: aumentou em 15% os benefícios da Bolsa Família, atribuindo um subsídio de 137 dólares a 56 milhões de famílias pobres, reduziu a semana laboral de 44 para 40 horas, anulou as dívidas ao fisco de 3.600.000 pequenos e médios empresários, prometeu um salário de 140 dólares aos estudantes universitários, e convocou o “general digital” André Janones, que reuniu aquilo a que chamou “o Exército do Lula” para combater “o fascismo populista” no ciberespaço.  Tudo através das diabolizadas redes sociais e da mesma operadora americana acusada de ingerência, manipulação e ameaça à Democracia por “condicionar o voto” de mais de metade dos brasileiros em favor de Bolsonaro.

Enfim, políticas de compra e aliciamento, promessas ao eleitorado, o costume. O velho “pão e circo” das plebes romanas, que faz parte da natureza dos homens e das sociedades, jogado  de forma particularmente  despudorada num país com grandes abismos económicos e com um mapa eleitoral muito fixado e constante, em que o Nordeste vota à esquerda e o resto do país, os Estados do Sul, do Sueste, São Paulo, o Rio, o Rio Grande do Sul, votam à direita; e Minas Gerais continua a marcar vencedores e vencidos – Bolsonaro ganhou ali na primeira volta, Lula na segunda. E num tempo de polarização, em que é o inimigo que faz o amigo, a taxa de rejeição passa também a ser determinante: assim, se na primeira volta se teria medido a rejeição a Lula, na segunda media-se a rejeição a Bolsonaro.

Se esta foi ou não a verdade que determinou os resultados, só Deus e uma hipotética Urna de todas as urnas poderia dizer-nos.

Na República Velha, a primeira república brasileira, de 1889 a 1930, dizia-se que a política do país era decidida entre as elites de São Paulo e de Minas Gerais, havendo quem lhe chamasse, a partir de 1894, República Oligárquica. Era uma república federal e os presidentes davam grande autonomia aos governadores dos Estados.  Era também a “república do café com leite”.

O papel da oligarquia cafeeira foi importante neste período. Tinham sido os grandes cafeeiros, irritados com a decisão da princesa Isabel de libertar os escravos sem indemnizar os proprietários, que tinham influenciado os militares a derrubar os Bragança e proclamar a República.

Getúlio

A revolução de 1930, o tenentismo, trouxe para a arena da política e da decisão política outro Estado poderoso – o Rio Grande do Sul – e um político que vai, nos 25 anos seguintes, até ao seu suicídio em Agosto de 1954, polarizar a política brasileira – Getúlio Vargas.

Vargas chega ao poder chamado pelos militares em 1930; era um político gaúcho criado na órbita de Borges de Medeiros, o grande cacique e governador de Rio Grande do Sul. De militar a jurista, a deputado estadual e a deputado federal, Getúlio seria, em 1926 ministro da Fazenda no governo de Washington Luiz.

Depois de várias vicissitudes, muito ao modo dos agitados Anos Trinta, Vargas suspendeu o Congresso e fundou o Estado Novo. No caminho para o poder, disciplinou os comunistas de Luís Carlos Prestes, que tentaram um golpe revolucionário em Novembro de 1935; em 1938 foi a vez dos “fascistas” da Acção Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, tentarem a sorte, assaltando o palácio de Guanabara. Foram também vencidos e Plínio, depois da prisão na Fortaleza de Santa Cruz, exilou-se em Portugal.

O Estado Novo brasileiro teve, além do nome, outras influências do Estado Novo português. Mas enquanto o Estado Novo português foi essencialmente um nacionalismo autoritário e conservador, muito inspirado pelo catolicismo dos papas sociais, o Estado Novo brasileiro teve características mais revolucionárias e populares, influenciado pelo fascismo italiano da Carta del Lavoro e pela promoção do nacionalismo económico e do intervencionismo na economia.

Na Segunda Guerra Mundial, Vargas pôs de parte a ideologia para privilegiar a geopolítica continental, e o Corpo Expedicionário Brasileiro desembarcou em Itália. Getúlio foi derrubado em 1945, mas mais tarde foi eleito, em 1951. Suicidou-se em Agosto de 1954, deixando uma marca muito profunda na História do Brasil.

Todo um outro Carnaval

Lula, pela preocupação social e pela duração na política, gosta de se comparar com Getúlio Vargas e várias vezes o elogia. Porém, Luís Inácio é, notoriamente, todo um outro Carnaval.

Vem do sindicalismo operário, dos metalúrgicos de São Paulo. Nunca foi propriamente um marxista-leninista, nem pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro ou ao activista e guerrilheiro Partido Comunista do Brasil, de que fez parte o seu ministro da Justiça, Flávio Dino – o tal que, ardilosamente, achou por bem não destacar polícias para a Praça dos Três Poderes, facultando a entrada dos bolsonaristas em fúria.

Lula foi protegido por Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo, depois de ser preso em 1980, por causa das greves. De resto, durante a presidência de Geisel, o todo-poderoso general Golbery do Couto e Silva recomendou aos militares de São Paulo, o Segundo Exército, identificado com a linha dura, que não tratassem mal ou agredissem Lula da Silva.

Getúlio Vargas teve origens sociais, formação jurídica e experiência política bem diferentes de Lula da Silva. Entrou para a História e ficou  na Literatura – dos romances de Erico Veríssimo, na saga de O Tempo e o Vento, ao Agosto de Ruben Fonseca. E ficou imortalizado popularmente no samba-enredo “Exaltação a Getúlio Vargas – O Grande Presidente”, no Carnaval de 1956, e no samba de Chico Buarque e Edu Lobo, “Dr. Getúlio”, de 1983.

Não parece que Lula, além do tempo no poder que, se terminar o mandato, igualará o de Getúlio, vá ficar na História do Brasil como o “estadista, idealista e realizador, o grande presidente de valor” exaltado pelo povo brasileiro no Carnaval de 1956.

Ficará na História, sim, mas de outra maneira, noutros carnavais e com outras companhias – os Moraes e os Vorcaros, a que, por vontade ou necessidade, se foi aliando, para combater impoluta e judicialmente (algumas) “ameaças à Democracia”, para que “a Democracia” continue.