Nunca tivemos tantas formas de nos ligarmos e nunca foi tão difícil criar ligações que durem. Para cada momento, uma app e em cada app um post de cada momento. A qualquer hora há uma chamada, uma mensagem, a certeza de onde o outro está e a possibilidade de o ver. Mesmo que longe. Os amigos já não se reencontram, pois não se chegam a perder. Estão sempre ali, à distância de um clique. Apesar disso, estamos mais sozinhos do que nunca. As estatísticas mostram que passamos menos tempo uns com os outros, estamos menos frequentemente em relações e os jovens fazem cada vez menos sexo que as gerações anteriores.
A tecnologia entranha-se em todas as esferas dos nossos dias e a vida amorosa não é exceção. Se antes os amigos em comum, restaurantes e bares, ou até o trabalho e a universidade serviam como a principal forma de nos cruzarmos com interesses românticos, hoje o mundo virtual é o principal meio que leva as pessoas a se conectarem. Quer seja através de redes sociais ou diretamente através de dating apps, o online serve de intermediário para as questões de Vénus. Nestas montras digitais é-nos apresentado um catálogo infinito de potenciais parceiros: perfis, fotos, descrições curtas e concisas. Auto-apresentação é um gesto mecânico que se repete — swipe, swipe, match.
Todos desejam ser Mamdani e Rama, o casal nova-iorquino que se conheceu no Hinge e se tornou símbolo de uma esperança romântica no meio do cinismo digital. Mas, para a maioria, a realidade é outra: paradoxo do excesso de escolha, ghosting e ansiedade romântica são a realidade. A promessa de infinitas possibilidades transforma-se, contrariamente, numa incapacidade de escolher e permanecer.
E quando o real falha, ou se torna muito difícil, passamos ao artificial. Chatbots e companheiros de inteligência artificial começam a ocupar o vazio emocional antes reservado às relações humanas. Já são vários os relatos de pessoas que desenvolvem vínculos afetivos profundos e de longa duração com estas entidades. Nelas encontram compreensão, disponibilidade, mas também ausência de conflito (nunca deixam as meias espalhadas pelo chão).
Enquanto uns se viram para o bytes, outros adotam o cyberpunk: fazem logout das apps e alguns até das relações amorosas. Como questiona provocativamente a Vogue em “Is Having a Boyfriend Embarrassing Now?”, ter um parceiro deixou de ser um ideal óbvio e passou, em certos círculos, a ser visto como sinal de dependência, falta de autonomia ou até constrangimento. O amor, antes horizonte desejável, torna-se um projeto suspeito.
No fim, resta uma sensação difícil de ignorar: embora estejamos mais conectados, parecemos menos ligados e menos capazes de nos ligarmos ao outro.
O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.