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1. De facto não é possível educar para promover a mudança social sem que essa mudança ocorra primeiro em quem educa (1). (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. (2014). Coeducação, Percursos e Desafios, Presidência do Conselho de Ministros, página 8)

Esta afirmação, retirada de uma publicação com a chancela da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, uma estrutura administrativa sob a tutela direta da Presidência do Conselho de Ministros, revela, de forma inequívoca, uma agenda política: fazer das escolas os espaços onde, através do currículo prescrito e do currículo informal, se faz a ressocialização das crianças e dos jovens, usando para isso a prévia e necessária ressocialização dos professores durante o processo de formação inicial e de formação contínua.

A mudança [de mentalidades] tem de ocorrer a montante, durante a formação inicial dos futuros professores para que fique assegurado que a ressocialização gera ressocialização. A estratégia de tomada de controlo ideológico das escolas [e dos media e restantes instituições socializadoras] foi definida, na década de 30 do século passado, pelo comunista italiano António Gramsci (2) e, desde aí, usada até à exaustão pelo movimento revolucionário em todas as suas inúmeras versões e formas. O sucesso do processo de tomada do controlo ideológico das escolas é tanto mais eficaz quanto mais impercetível ele for. Os sujeitos que dele são objeto não chegam sequer a aperceber-se de que estão a ser vítimas de um processo de ressocialização, que visa apagar as suas raízes culturais, substituindo-as por um novo cânone, aberto ao experimentalismo construtivista, que os “liberta” da “tirania” do “obscurantismo cultural” a que supostamente as tradições os submeteram.

Uma vez a ressocialização concluída, os sujeitos estão disponíveis para abraçar toda a espécie de construtivismos culturais e políticos, em torno dos novos valores e experimentalismos que os vão libertando das “trevas da tradição”. Quando se chega a esta fase, os indivíduos estão preparados para abraçar todos os temas fraturantes que as vanguardas revolucionárias inventarem tendo em vista a construção do “Homem Novo”, liberto da “tirania” da tradição e da biologia. Fica também aberta a tomada do poder pela vanguarda revolucionária sem derramamento de sangue, pelo menos na primeira fase.

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2. Não é fácil apagar as crenças estereotipadas da memória das sociedades e dos grupos, pois elas fazem parte de uma herança cultural fortemente arreigada nos indivíduos, em virtude do seu processo de socialização (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. (2014). Coeducação, Percursos e Desafios, Presidência do Conselho de Ministros, página 8)

Esta afirmação não deixa margem para dúvidas sobre qual é a agenda política: o objetivo é combater as crenças criadas em torno de uma herança cultural. Nada é dito sobre a substituição dessas crenças por outras. Isso fica subentendido. As primeiras crenças [que urge apagar das consciências dos indivíduos] são obscurantistas; as segundas crenças, libertadoras. As primeiras são más, as segundas naturalmente boas. Quem permanecer agarrado às primeiras é catalogado com o carimbo de reacionário (3). Quem abraçar as segundas é visto como progressista. E o “processo de libertação” fica a cargo do professor que assume o papel de intelectual transformador, instrumento ao serviço do projeto revolucionário em curso. Um projeto sem fim, porque sempre inacabado, que se alimenta do movimento. Um projeto revolucionário sem calendário, sem metas concretas, é sempre vitorioso, na medida em que não tem fim, podendo renascer continuamente das cinzas, apresentar-se com novas máscaras e roupagens, alimentando-se de todos os ressentimentos e culpas.

Aqueles que vaticinaram que a queda do Muro de Berlim marcou o fim da ideologia comunista ignoraram os escritos de António Gramsci e falaram cedo de mais.

Professor coordenador principal no Instituto Politécnico de Santarém; Membro do Conselho Nacional da Educação

Notas

1) Tenha-se em conta que esta publicação é de 2014 e tem a chancela de uma estrutura administrativa tutelada pela Presidência do Conselho de Ministros, supostamente de um Governo de direita, sistematicamente acusado pelo movimento revolucionário de ser neoliberal.

2) António Gramsci, comunista italiano, nasceu em 1891 e morreu em 1937.  Principais escritos:  Pre-Prison Writings (Cambridge University Pres); The Prison Notebooks (Columbia University Press); Selections from the Prison Notebooks (International Publishers)

3) Tal como o autor deste texto vai ser acusado não só de ser reacionário como de ser contra a igualdade de género, pese embora o autor nunca ter feito afirmações nesse sentido. Não interessa que nunca tenha feito afirmações nesse sentido; o que interessa são as intenções obscuras que os revolucionários vão colar ao autor. Para a vanguarda revolucionária, a verdade não interessa; a única coisa que interessa é o movimento.