A inspiração para este texto fui buscá-la ao opúsculo “Fascismo e populismo (…)” de Scurati, ao qual irei recorrer amiúde.
“A democracia, no fundo, só sabe falar. Vive das palavras e pelas palavras (…)”.
Mussolini.
Todos nós nos queixamos da inacção (Aeroporto, TGV, etc.) e da corrupção (Sócrates, Salgado, Pinho, etc.). Ou seja, momentos há, em que nos cansamos das palavras… da democracia. Mas, será que tenho direito a esse cansaço (mesmo que o processo democrático tenha falhas e que, em determinada altura, tenha mesmo muitas falhas)? Não tenho, mas culpado me declaro, pois, momentos existem em que a vontade é vociferar contra o parlamentarismo, contra o imobilismo. No entanto, rapidamente, recupero a força e volto a defender a democracia. Este esforço de recuperação – constante – nasce do exercício da memória, do estudo da história, bem como da consciência de que sou um participante do que está a acontecer e não um mero espectador. A história somos todos nós. Sem excepções. Somos todos responsáveis do que vier a acontecer no nosso tempo.
É, pois, importante, que cada um reflicta sobre as razões que o levam a agir como age, a pensar como pensa. Ou seja, aprender, com a mente aberta e descomprometida, os porquês do que lhe ensinaram os pais, avós, amigos, professores. Com esse exercício aprendemos também sobre o nosso país. E ficamos com uma ideia mais clara relativamente às razões pelas quais as coisas estão como estão e, principalmente, de como entendemos que deveriam estar. Neste processo, sem revisionismos, sem tabus, sem sentimentos de culpa, cheguei ao que sou e ao que entendo ser o melhor para o meu país. Não necessito que alguém, afirmando-se iluminado, me indique o caminho que devo seguir, como ovelha num rebanho.
Cristão, português, democrata e liberal. É o que sou. E o que sou, defendo.
Essa defesa passa por desmascarar quem, a coberto da democracia liberal, mina os seus princípios e valores. Falo do populismo. Não do fascismo que esse não se mascara (é mais honesto, frontal, transparente). Por isso, a mania de chamar fascista ao populista é, além de errado, estúpido (e o populista agradece). O fascismo foi um produto da história e não tem forma de se reapresentar da mesma forma. O populismo é um produto histórico, vivo, e que, de tempos a tempos, renasce nos mesmos moldes. Analisemos, então, o populismo, recorrendo a Scurati e ao seu opúsculo.
O populismo – nas palavras de Umberto Eco – é um conjunto difuso, de contornos imprecisos. Algo, portanto, de incoerente, de pouco sustentável, que não resiste ao mais simples fact check.
Qual, então, o sex appeal do populista? Em cada frase existe um slogan: Fácil de compreender, de compreender e de retransmitir. A democracia é complexa, trabalhosa, cede-se aqui, ganha-se ali. Esta dinâmica é, para o populista, o exemplo da corrupção. No discurso populista não existe, igualmente, preocupação histórica: diz-se uma coisa hoje e o seu contrário amanhã, sem problema, sem vergonha. Quem se deixou seduzir perde a capacidade de criticar. O populista clama:” Eu sou o povo” provocando a “verdade” da inversa: “O povo sou eu”. Esta dupla sinédoque leva a que o populista conclua que quem está contra ele, está contra o povo. O opositor do populista, sem se aperceber, passa a opositor do povo.
Consequentemente, se o líder é o povo, então para que serve um parlamento? Para o populista apenas para a corrupção e para travar as suas brilhantes iniciativas que, já se viu, são aquelas que o povo – que é ele – quer e deseja.
“A mim não me servem para nada doutrinas e programas (…) Devo encher-me dos humores das pessoas (…)”
Mussolini.
Ora, o humor das pessoas, particularmente em tempos de crise social/económica é mau. Quem vê filhos a ter de emigrar ou quem não consegue arranjar casa, não anda a cantar no duche. É a esses que o populista se dirige em 1º lugar, agravando o seu estado de espírito, porque o populista é um oportunista com um bom olfacto…pior: transforma o mau humor em medo. E o que faz o ser humano quando tem medo de algo/alguém? Passa a odiar. E, se odeia, aceita mais facilmente a violência (política e não só) sobre o motivo desse ódio.
Nesta lógica, tudo é reconduzível a um único problema (ciganos, imigrantes, corrupção). Esse único problema é reconduzível a um único inimigo (ciganos, imigrantes, corruptos). Para quem acredita a conclusão é fácil: Eliminam-se os inimigos e os problemas ficam resolvidos.
Proponho um exercício para que se possa aferir da infantilidade do discurso do ódio: Imaginemos que uma doença rara e direccionada, matava, em dois dias, todos os ciganos que vivem em Portugal. Em consequência os jovens deixavam de ter de emigrar? O mercado habitacional ficava inundado de casas para arrendar a preços acessíveis? Ninguém no seu juízo perfeito responde afirmativamente às perguntas anteriores. Mas, para o populista, a conclusão lógica não interessa para nada. A simplicidade do seu pensamento é a simplicidade de entendimento dos seus apoiantes.
Voltemos ao início: O ataque à democracia é sempre o mesmo: os políticos falam, falam, mas não fazem nada. Assim, em tempos de crise, o discurso populista medra bem, porque as pessoas não querem palavras, querem acção e, para isso, aceitam ser comandadas. Por quem? Pelo populista que aceita, a bem do povo (que ele personifica), levar a cabo a tarefa. Um sacrifício a bem do povo, pois o populista apresenta-se – sempre – como alguém que se sacrifica, não por si que vive bem na pobreza, mas por todos os outros. Um altruísta.
Concluindo: Não me seduzo por discursos simplistas (porque conheço a história de exemplos passados), não odeio (porque assim me educou a cultura cristã).
Além disso esforço-me diariamente para não adormecer no canto da sereia que me diz que os políticos são todos iguais, que assim não vamos lá, que não há volta a dar.
Mas há! Para quem se dedica à causa da Democracia, existe sempre solução.
No nosso espectro partidário existem algumas – não muitas – opções para quem não esteja à procura de um Messias. Esse, já veio e morreu na cruz por ordem de quem, oportunisticamente e cobardemente, satisfez o humor do povo.