“Eu é que sou o Presidente da Junta!” ­– disse numa gargalhada sonora que foi e voltou sozinha…ninguém riu, ninguém percebeu, pairou num silêncio constrangedor e em segundos entendi o quanto tinha envelhecido. Os olhos trocistas daquele ser com apenas duas décadas somadas, onde não se antevê nenhuma ruga nem sequer de expressão, tentavam alcançar o meu despropósito. Era inútil.

Que explicação podia fazer sentido entre um mundo com dois canais de televisão, que se alternavam teimosamente e um universo de streaming, web, realidade aumentada, num futuro imediato e sempre disponível? Nem sequer me dou ao trabalho de esclarecer…que pesquise na wikipedia. Mas ficou certo de que há piadas às quais já quase ninguém ri e isso é triste. Do alto da minha antiguidade ainda me apeteceu gritar-lhe: “Chapéus há muitos, seu palerma”, mas receei que me mandasse mumificar.

Um património humorístico ultrapassado por youtubers de cabelos coloridos e dentes perfeitos, onde expressões como “Eu é mais bolos” ou “Ó Ivone, goodbye my love”, tantas vezes repetidas como vírgulas, de Loulé a Chaves, já não têm eco. Fazer amigos entre os animais pode ser insultuoso para os millennials, mas se assistiu à entrada de 27 pessoas num Mini, campeonatos de hula-hoop e iô-iô, mergulhos em banheiras de subscritos e recebeu no natal uma bota Botilde não vai estranhar, vai certamente sorrir.

Muitos de nós tem um passado em pausa e podem dar-se ao luxo de rebobinar memórias sem teclar, sem fazer scroll nem swipe up. Os únicos discos rígidos onde está gravada a banda sonora da sua vida são em vinil ou fitas enroladas com canetas bic de ponta fina.  Os que viveram um tempo sereno, num país longínquo que demorava mais de nove horas a atravessar, sabem que as lutas se fazem nas árvores, o dono da bola ganha sempre e que uma sameira é uma carica. A emissão volta dentro de momentos, é um intervalo que se respeita sem sair do sofá e com os minutos imprescindíveis para se imaginar que há alguém empoleirado no telhado para sintonizar a antena para a Galiza.

Não há um tempo melhor ou pior, mas percebo que há piadas que têm um tempo, validade e contexto. Gostava que todos entendessem a genialidade de Raul Solnado que chegou à guerra e esta estava fechada e que o Nico é sempre de obra. Que bonito, bonito são as canções do Tozé Brito e que língua portuguesa é muito traiçoeira. Mas essa é uma eternidade que já não cabe num hashtag.

De que se riem os mais novos, que chalaças e trocadilhos reagem com emojis e gifs? Que gatilhos desembaraçam as conversas dos chats? Quantos lol vale uma gargalhada? Confesso que desconheço por ignorância. O que lhes podemos desejar é que tenham muitos motivos para sorrir até contorcer a barriga e doerem-lhes os maxilares. Entretanto despeço-me com amizade e até à próxima semana… e esta heim?