Samuel é finalista do quarto ano do ensino básico. Fez 10 anos e já concluiu a primeira etapa do seu percurso escolar. Tem a cabeça enterrada numa cartola que lhe cai nos olhos e uma bengala azul sobre a qual rodopia, como um pião feliz. Voltas sem sair do lugar numa alegoria ingénua sobre as voltas que o futuro lhe reserva. Ao seu lado, de cores iguais e com mesma energia, estão os seus amigos, companheiros de sala, abraçados e unidos numa franqueza enternecedora. À sua frente, o mais fiel dos públicos, atento e emocionado. Professores, avós e pais, dos outros e acima de todos, os seus. Não falharam, nunca falham. Samuel está no melhor palco do mundo, onde cabe a amizade, a ternura e o amor desmedido.

Paulo já não vertia uma lágrima desde os 23 anos. Lembra-se bem. Virou as costas à mãe e fixou os olhos no cimento das partidas do aeroporto Sá Carneiro para que ela não lhe soubesse do medo e das dúvidas no dia em que emigrou para a Alemanha. Lá conheceu Sofia, uma alentejana doce e meiga, que volta e meia lhe cozinhava bacalhau à Brás no seu apartamento em Berlim. Dinheiro amealhado com o sacrifício de muitos turnos acumulados no hospital onde ambos trabalhavam, aventura cumprida e com projetos a dois, voltam a Portugal. Uma década depois e ali está o seu menino a tentar acertar na coreografia “Somos uma escola feliz”, um pé à direita outro à esquerda, talvez fora do tom e várias notas acima. Paulo chora sob os óculos escuros, contorce os lábios, mantém os braços ao longo do tronco mas o que lhe apetece mesmo é bater intensamente palmas e abraçar Samuel demoradamente. Sofia já desistiu de disfarçar as emoções desde que o seu pai partiu em Dezembro. Chora a bom chorar,  ao mesmo tempo que lhe saem ondas de riso e lágrimas que lhe chegam ao queixo.

Porque nos emocionamos na festa da escola dos nossos filhos? Porque nos sentimos trémulos e quebramos, perante cantigas que nos furam os tímpanos, teatrinhos desconexos e garotos aos saltos? A resposta está na nossa história. Nas noites em claro a velar-lhe o sono, nos dias remelentos, na angústia da primeira vez, quando tivemos que correr aflitos para o hospital com um pé torcido, na taquicardia cada vez que ligam da escola, na febre que não baixa, na dor da cicatriz. Custou tanto chegar até aqui.

A resposta está também no reconhecimento da mais espantosa habilidade da natureza: crescer. Assumirem as suas pequenas responsabilidades, os seus passos, realizarem as suas tarefas autónomos. Enchemos o peito de orgulho, de preocupação e pasmo. Mas como já  cresceu? Onde está o pequeno ser engelhado que trouxemos para casa em mil cuidados? Não o reconhecemos naquele palco e no entanto é todo nosso. Inconscientemente desejamos parar o tempo. Conservar-lhe aquela ingenuidade pois infelizmente sabemos o quanto somos impotentes em assegurar-lhe um mundo justo e livre da prepotência adulta. Enquanto isso vamos continuar a choramingar às escondidas na fila de trás.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR