Fala-se cada vez mais de literacia financeira em Portugal. Há mais iniciativas, mais conteúdos, mais programas e uma crescente consciência pública sobre a importância do tema. No entanto, quando olhamos para os dados, a realidade é menos encorajadora.

Segundo o Eurobarómetro sobre Literacia Financeira da Comissão Europeia, publicado em 2023, Portugal posiciona-se em último lugar entre os países da União Europeia, com níveis particularmente baixos na dimensão do conhecimento financeiro. Esta não é apenas uma estatística desconfortável. É um sinal claro de que, apesar do esforço feito, continuamos a não preparar adequadamente os cidadãos – e, em particular, os mais jovens – para lidar com o dinheiro.

A questão que se impõe é simples: onde estamos a falhar?

Durante anos, a resposta passou por reforçar a informação. Acreditámos que, ao aumentar o acesso ao conhecimento, iríamos automaticamente melhorar os comportamentos. No entanto, essa relação não é direta. Saber mais não significa necessariamente decidir melhor. E isso torna-se evidente quando vemos jovens com acesso a conteúdos financeiros, mas sem capacidade prática para gerir um orçamento, avaliar um crédito ou planear o seu futuro financeiro.

O problema não está apenas na quantidade de informação, mas na forma como a literacia financeira tem sido pensada. Continuamos a tratá-la como um conjunto de conceitos, quando, na verdade, é uma competência prática. Não basta saber o que são juros ou inflação. É necessário perceber como esses conceitos influenciam decisões concretas ao longo da vida.

No último mês, este tema ganhou uma nova centralidade com a apresentação do Plano Nacional de Formação Financeira 2026–2030. Este plano representa uma evolução relevante na abordagem à literacia financeira em Portugal, ao assumir de uma forma evidente o impacto, o foco e a eficácia das iniciativas desenvolvidas.

Uma das mudanças mais significativas está no reconhecimento de que a literacia financeira deve começar cedo e de forma estruturada. Pela primeira vez, há uma aposta clara em reforçar a integração da literacia financeira no contexto escolar, através do desenvolvimento de módulos alinhados com as Aprendizagens Essenciais, da formação de professores e da criação de conteúdos pedagógicos adaptados às diferentes idades.

Esta é uma mudança importante, sobretudo porque, até agora, a literacia financeira não tem estado verdadeiramente integrada nos currículos escolares de forma consistente e universal. O contacto com estes temas tem sido muitas vezes pontual, dependente de iniciativas isoladas ou da motivação individual de escolas e professores. O resultado é uma aprendizagem desigual, que não garante que todos os jovens partam com a mesma base.

O plano reconhece, também, que a escola, apesar de essencial, não é suficiente. E bem. A literacia financeira constrói-se ao longo do tempo e em múltiplos contextos, o que exige uma abordagem mais integrada e contínua.

O desafio agora é claro: não basta criar mais programas, é preciso garantir que estes mudam comportamentos. E isso implica aproximar a literacia financeira da vida real, simplificar a linguagem e envolver não apenas a escola, mas também as famílias e a sociedade.

Porque, no final, o verdadeiro valor da literacia financeira não está no número de iniciativas ou conteúdos disponíveis, mas na capacidade das novas gerações tomarem decisões mais informadas, mais conscientes e mais ajustadas à sua realidade. E, nesse teste, ainda estamos aquém do que seria desejável.