Existem três coisas certas na vida coletiva nacional: a morte, os impostos e uma campanha eleitoral com impressão digital do Ministério Público — e não necessariamente por esta ordem hierárquica. Esta corrida presidencial, aliás, já teve direito a duas dedadas, uma para Luís Marques Mendes (denúncia anónima entretanto arquivada), outra para Henrique Gouveia e Melo (inquérito sobre factos ocorridos há mais de três anos). Os mais melindrosos, onde se incluem muitos jornalistas, acharão indigno que se questione sequer esta ululante coincidência nos timings. Mais uma. É só a Justiça a funcionar, dizem. Tudo certo, siga a Marinha.
Ironicamente, a mais recente vítima de uma “investigação em curso” — Henrique Gouveia e Melo — é o candidato que estava a tentar atirar o rival mais direto — Luís Marques Mendes — para uma teia de suspeitas e de insinuações, exigindo uma espécie de inversão do ónus da prova. É mais um exemplo acabado de como é muito arriscado apostar tudo em campanhas negativas, que nunca correram particularmente bem a quem as organizou e liderou. Depois, já se sabe: quem com ferros mata, com ferros morre.
Em boa verdade, Luís Marques Mendes estendeu o tapete a todos aqueles que lhe exigiam maior transparência. Revelar (tarde) a lista de clientes da empresa familiar, por muito saudável que seja, é manifestamente insuficiente quando toda a gente sabe que a principal atividade profissional do antigo líder social-democrata não era essa. E escudar-se no dever de sigilo de advogado é desculpa esfarrapada.
Os eleitores tinham e têm o direito de perceber o que fez e que interesses representou Luís Marques Mendes na sociedade de advogados a que pertenceu. Ter uma vida para lá da política partidária e fora do Estado não é, nem pode ser um anátema, muito menos cadastro; mas ser candidato a um cargo político também não é uma obrigação, pelo que quem o deseja fazer está sujeito a regras de transparência a que outros não estão.
Perante as hesitações, contradições, amnésias seletivas e as omissões de Mendes, os adversários podem, legitimamente, censurar a conduta do homem que têm pela frente. Outra coisa diferente é fazer disso tema único e bóia de salvação de uma campanha que estava a ir ao fundo. Correu mal. Correu muito mal. O homem que se esforçava por parecer mais sério do que todos os outros juntos vai passar agora os dias a explicar as suspeitas que recaem sobre ele e a queixar-se de que não foi sequer ouvido. Lá se foi a vantagem moral.
E ainda há uma segunda enorme ironia. É que no debate com Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo chegou a questionar a celeridade com que a Procuradoria-Geral da República decidiu não dar sequência à queixa anónima contra o adversário. A insinuação — gravíssima partindo de quem se candidata à Presidência da República — é, a esta luz, particularmente cruel: o que daria Henrique Gouveia e Melo para que este inquérito fosse arquivado o quanto antes. O almirante nem legitimidade política tem para se queixar dos tempos da Justiça.
Apesar de tudo, medir o impacto político destes casos (diferentes na sua natureza, semelhantes nas leituras que se podem retirar) é um exercício difícil. Difícil porque uma parte da opinião pública parece estar anestesiada com esta sucessão de “investigações”, buscas, casos e casinhos em alturas sempre oportunas; e difícil porque uma outra parte parece convencida de que os políticos são todos iguais. Não são. Mas fariam todos um enorme favor se não se entretivessem a atirar lama uns contra os outros, judicializando eles próprios a política. Inevitavelmente dá asneira. Não é pedir o impossível; o impossível seria pedir ao Ministério Público que comunicasse com transparência. Mas nisso já ninguém acredita.