Não por vaidade nem por missão divina, mas por uma espécie de necessidade a vir de dentro, como a seiva a subir, teimosa, por um tronco velho de anos.

Quis ensinar sobre plantas, bichos e rochas e sobretudo rochas, memórias de outro tempo sem pressa de passar.

Achava, ingénuo talvez, tornar o mundo mais inteiro se levasse a natureza para dentro da sala de aula. E se a Natureza não coubesse inteira na sala, então toca de levar os alunos para dela e devolvê-los ao pátio, à terra e ao espanto de existir.

A fórmula era simples: usar o pátio como laboratório e o recreio como um livro aberto.

O pátio da escola, lembram-se, com o cheiro do pó e das flores cansadas da Duranta, as pequenas flores lilases ignoradas por todos mais os frutos dourados por colher?

E eu pedia aos miúdos para tocar, sentir e aprender o nome das coisas, e eles riam-se, achando graça a um professor a falar com os arbustos.

Mais adiante o Chorão, curvado sobre si mesmo como quem pede desculpa por estar vivo, a deixar cair a verdura lenta dos seus ramos tristes. E o Choupo-branco, de casca rugosa e coração cansado, a lamentar-se comigo das idades, da velhice, das fissuras abertas pelo tempo em tudo quanto respira. E o Pinheiro-manso, generoso, a rir-se dos meus sermões, oferecendo pinhões aos catraios incapazes de acreditar como daquelas sementes podia nascer um bosque inteiro.

E se alguma vez pudesse ter uma árvore, e uma só, teria escolhido a Oliveira. Pela sua teimosia, o modo como se agarra à pedra e à sede para crescer torta mas fiel à luz. Para nela poder ver o país, essa pátria de raízes secas e promessas adiadas, o país de Saramago e da lentidão dos regressos. E a minha árvore e a minha casa seriam uma e a mesma coisa: um lugar onde o tempo pudesse parar de fugir.

Mas o país não quis. O país não quer ninguém capaz de sonhar, e empurra-nos para fora como quem varre folhas mortas, indiferente ao ouro deitado fora. E partimos aos milhares, dizem, cada um a levar consigo um pedaço de terra, uma palavra por dizer, uma vida por acabar.

E eu também parti para levar comigo o cheiro das árvores do pátio e a lembrança dos olhos curiosos atrás de mim enquanto tentava explicar os porquês de a natureza não precisar de manuais mas de atenção, cuidado e amor.

Anos depois encontro-me noutro país, noutra língua, noutro frio. Continuo a ensinar, claro, pois o professor é uma espécie de planta exilada a insistir em florir mesmo quando a terra é estranha.

Às vezes penso na Oliveira por plantar, na sala de aula agora vazia, no país a fingir não ouvir. Penso se algum dos meus alunos de então ainda se lembra da Duranta, do Chorão, do Pinheiro-manso. Penso se alguém ficou para ensinar o nome das coisas se agora até as árvores parecem ter emigrado.

Hoje levo os alunos para o jardim da escola, e ali, de pé e de cócoras, nomeamos as árvores uma a uma. Nenhum deles sabe português, mas sabem rir, e o riso deles tem a mesma inocência dos meus alunos de antes. E quanto temos sorte, aponto um esquilo e uma raposa com as suas crias e afinal os bichos não fogem.

E se a saudade é por demais pesada, pergunto, quase sem voz, se alguém tem um amendoim, não vá o esquilo fugir e levar consigo esta lágrima.