O xadrez, dizia o meu avô, ou talvez não dissesse e as palavras às vezes nascem na cabeça da gente e não na boca dos outros, é coisa para levar o tempo inteiro, mesmo com o relógio a bater compassos de funeral ou marcha nupcial, é um tempo sem fim, a não ser acaso se acabe quanto há de nós antes.
Duas horas, dizia, ou pensava eu dizer o meu avô, e nessas duas horas — de quê? — de guerra, de paz, de silêncio e o mar ao fundo ou o comboio a passar ao longe ou talvez apenas o tic-tac da velha cozinha a encher as paredes de murmúrios.
Duas horas para conversar sem pressa, para os dedos roçarem as peças e a mão do avô, mais dura e quente, a descansar sobre o tabuleiro, como se segurasse um segredo ainda hoje por contar.
E depois, silêncio outra vez, como se as palavras fossem interditas por decreto de xadrez ou talvez apenas porque assim convém aos homens — o falarem quando não é preciso e calarem-se quando dói.
Cada peão avançava, e ele, o avô, do outro lado, a esperar, sem dizer nada, ou se dissesse eu não ouvia e a gente quando é miúdo não escuta.
Pensava o avô na jogada seguinte enquanto eu pensava sobre o avô a pensar na minha jogada seguinte e entre estes vaivéns de pensamento e não pensamento, a minha cabeça a encher-se de espelhos, de reflexos, de sombras a correr atrás de sombras, perdia-me nas jogadas, enredava-me nas armadilhas do cavalo — atenção ao cavalo, meu neto, o cavalo é matreiro como as promessas dos homens e vai de lado quando tu achas vir de frente — e eu, de olhos arregalados, a tentar seguir a trilha das palavras como se fossem migalhas de um conto qualquer dos irmãos Grimm.
E o avô explicava sem dizer, mostrava sem tocar, e eu aprendia sem saber, e o xadrez, naquele tempo, não era ainda o jogo, mas um enredo de aprendizagens por dizer, suspensas no ar como os balões hoje por largar.Três princípios, dizia, e dizia mesmo, e eu acreditava apesar de nem sempre compreender.
Os peões, olha-os bem, são o povo, e o povo, sabes, leva a pancada primeiro mas é quem, no fim, vence as guerras. Os cavalos são os generais invisíveis nas fileiras, sempre em movimento para não serem vistos a tempo.Mas vai devagar, vai com paciência, o xadrez não é um comboio a fugir quando adormeces na estação.
E eu, sem perceber, sem perceber nada, ia decorando as regras como quem decora um poema numa língua estrangeira, a soletrar os sons e os ritmos, sem lhes entender o significado e se calhar não importava.
Os anos passaram, e o avô, ao princípio todo o tabuleiro e todas as peças, foi ficando pequeno, encolhido, diminuído até ser só o bispo por todos desprezado, o bispo a deslizar sozinho na diagonal da memória e um dia foi-se embora.
E eu fiquei com o xadrez a cheirar a mofo nas gavetas, os peões tristes, as torres vazias, o cavalo sem trote, o rei — ah, o rei — o rei caído de lado, sem coroa nem reino, e o tabuleiro a fazer de terra para as peças mortas.Ainda hoje, quando abro o tabuleiro e dispo as peças da sua poeira de anos, sinto o fantasma do avô a mexer-se na cadeira ao lado.
A mão dele, a qual não vejo nem toco mas sinto mesmo assim, a pousar-me no ombro e a dizer, com voz de trovão ou de sussurro, vai com calma, não te precipites. Se me precipitar, o cavalo toma-me o bispo. Se hesitar, o peão fica sozinho a meio do campo e não volta mais.E eu vou jogando, eu, avô de ninguém, com esta certeza de quem joga xadrez não para ganhar mas para, talvez, perder o menos possível. Os peões ainda são o povo, as torres ainda guardam o silêncio dos castelos derrubados, os bispos desenham cruzes nas janelas.
Só o avô já cá não está para me olhar de soslaio e dizer: “Queres ganhar, não queres?” Quero, avô, sempre quis. Mas ganhar é pouco, ganhar é um troféu de lata, um rei morto ao canto de uma mesa vazia. E no fim de tudo, o quanto se perde é sempre o avô e as sobras neste tabuleiro deserto.
Guardo as peças, arrumo os bispos, deixo os peões na frente para nunca se esquecerem da sua vanguarda da luta e os primeiros a cair.
Dou um último olhar ao tabuleiro e penso: estás aí, avô? Estás aí, a seguir as jogadas por acertar, a rir-te das minhas hesitações, a dar-me palmadas nas costas quando acerto um xeque-mate ao acaso? Se estiveres, diz-me só uma coisa: quem te ensinou a ti antes de me ensinares? E quem te deu a paciência por mim perdida?
Passaram vinte anos. Passaram mil partidas de xadrez, e eu ainda sou o miúdo a correr atrás das peças do meu avô. Um dia, penso, hei-de dar-lhe xeque-mate num sonho qualquer ou na esquina de uma rua – e o meu avô a sorrir.