Cheguei cedo. Três horas e meia de antecedência. Como quem chega a um enterro antes do morto. Já lá estava o atraso, tão certo como a velhice, a piscar nos painéis com a mesma indiferença dos médicos enquanto dizem “é benigno, mas convém vigiar”. Quarenta e cinco minutos acabaram em noventa, ou duzentos, sei lá. O tempo estende-se quando não se parte, quando não se volta, quando se fica sentado entre pessoas feitas mobília de aeroporto: imóveis, desconfortáveis e com fome.
Esperar não custa quando se sabe quanto se espera. Mas nem isso. A aplicação dizia atrasado e mais nada. Como se a palavra explicasse. Como se dissesse como fazer com os meus pais a caminho do aeroporto de coração na boca, ou com a roupa na mala, os documentos, a saudade, e tudo despachado para o porão contra a minha vontade ou não fosse o voo estar cheio. Cheio de quê? De silêncio, de desculpas por dizer, de promessas por cumprir.
As hospedeiras, encostadas à porta de embarque como quem espera boleia, falavam alto. Uma disse: “Obrigam-nos a vir à última da hora e ainda fazem má cara”. Não percebi se falava de nós ou deles, mas percebi saberem tanto quanto nós sobre o atraso juntamente com o comandante, o copiloto e todos em fila num velório aéreo, à espera do sinal do padre. Ninguém mandava. Ninguém sabia. Mas todos fingiam.
Na aplicação, ainda nada. Como se o mundo tivesse parado. Como se a realidade fosse um erro de carregamento.
E depois foi o não embarcar, o embarcar, o sentar, o levantar, o perder a faixa horária, o esperar nova autorização para descolar, o partir às quinze e quarenta. E eu a lembrar-me da infância, dos comboios sempre por vir, sempre por chegar e da minha avó a dizer “quem espera desespera” com as mãos nas coxas. E eu a desesperar.
Partimos. Com duas horas de atraso. Mas partimos. E nessa altura já ninguém falava. Só o fragmento de chocolate em forma de folha a caber no mindinho prontamente expedido pelas hospedeiras e não um chocolate, mas um pedido de silêncio. Minúsculo, insípido. Um prémio de consolação para quem pagou um bilhete e recebeu um ensaio sobre a paciência. A primeira classe talvez tenha direito a dois.
O comandante pediu desculpa. Falou dos dados do voo, obrigado pela compreensão, boa viagem. E eu a pensar ser a compreensão algo em falta, como o café no aeroporto, como a bateria do telemóvel, como a dignidade.
Aterrámos. O sol de Lisboa a bater nos vidros, é Verão e eu com frio. No telefone, uma nova mensagem da Companhia: devido a erro no processamento da bagagem, parte das malas não foi expedida. Parte de mim ficou por lá também. As pessoas corriam entre o tapete das malas e o balcão de reclamações. Um plano de batalha: enquanto espero na fila fico de olho no carrossel e rezo pelo milagre da restituição.
Na aplicação, os recibos. A localização da bagagem. O erro. Nada. Eu. Na fila. A pensar talvez ser isto viajar em Portugal: confiar nos boatos das hospedeiras e nas promessas de e-mails enviados automaticamente com a assinatura de ninguém.
E quando a mala apareceu, cuspida pelo tapete como uma confissão forçada, fugi. Fugi do aeroporto, da companhia aérea, do país a mal caber num pedido de desculpas redigido num resquício de chocolate do tamanho de um selo.
Porque viajar não devia ser isto. Não devia ser esperar sem saber. Não devia ser ouvir nas conversas alheias a informação em falta nos painéis. Não devia ser apostar na sorte, cruzar os dedos e dizer mil preces pelo funcionamento das turbinas.
Mas é. Porque aqui o atraso é cultural. A falta de explicações é património. E o serviço é uma superstição.
Portugal ao espelho, numa sala de embarque.
P.S.: Chegou-me um e-mail, já em casa. Dizia: Na Companhia Aérea Portuguesa queremos melhorar a sua experiência. Para isso, a sua opinião é importante. E eu a pensar na minha opinião ainda por chegar. Ficou no porão. Junto da bagagem ainda por reclamar.